Voltando às eleições: se um candidato consegue explorar as plataformas digitais para fazer chegar às pessoas uma comunicação que coloque sua estratégia em paridade com a de seu adversário, isso permite que os eleitores acessem as ideias, propostas e denúncias que ambos apresentam. Mesmo com as bolhas reverberando a mesma tônica e toda a disputa de narrativas (ouvi falar que morre um Tamagotchi cada vez que alguém escreve “narrativas”), táticas iguais deveriam permitir condições iguais.
O problema, no entanto, é que esse volume todo e essa velocidade premiam apenas o tipo de mensagem que não promove uma discussão produtiva. A lógica das plataformas sociais (e a natureza do nosso comportamento, vamos admitir) incentiva que um conteúdo superficial ganhe mais audiência e repercussão: os memes, pautas simplificadas e essa cultura troll de quinta série baseada em lacração. Em uma analogia com a forma como nos alimentamos, é como se o conteúdo que consumimos fosse ultraprocessado: barato, fabricado para ser irresistível, de baixo valor nutritivo e viciante.
O conteúdo ultraprocessado empobrece o debate de tal forma que mesmo os candidatos, quando têm a oportunidade de ficar frente a frente (como aconteceu no debate da TV Bandeirantes no último domingo), em vez de confrontar ideias e propostas, moldam suas falas e posturas para dialogar com essa lógica do ambiente digital. O programa televisivo virou escada para a campanha online. Dados do Google Trends mostram que, nos últimos sete dias, os termos relacionados aos tópicos trazidos à tona no evento estão entre os mais buscados pelos brasileiros.
Já seria ruim se fosse só isso. O agravante é que essa dinâmica também favorece (e, às vezes, recompensa) a disseminação de desinformação em tal volume que o trabalho de checagem e remoção se torna quase impossível. A popularização da IA generativa só fez com que isso ficasse ainda mais veloz e adquirisse – como gosta de falar a turma que trabalha com isso – escala. Porque agora todo mundo pode produzir e replicar peças de informação e desinformação a partir de seu chatbot de preferência (sejamos justos, nem todos permitem que qualquer coisa seja criada, mas, se você quiser fazer algo “do mal”, acha uma IA a dois cliques de distância que te atenda) e se converter em agente de “slopaganda”.
Usar o método para se comunicar e fomentar comunidades online sem cair na arapuca da desinformação é o desafio. Porque, no fundo, é conveniente aderir. Na verdade, é bem tentadora a ideia de tornar um pouco mais aceitável uma notícia falsa quando ela confirma nossas crenças e serve ao fim pelo qual lutamos. Usar o espaço para mover o pêndulo em outra direção e permitir que propostas sejam debatidas é uma causa que as vozes que lutam por algo legítimo não deveriam negociar.
Que a internet tem peso desproporcional no espaço político não é novidade: isso acontece desde 2008, com a eleição de Barack Obama nos EUA – e se acentuou com todos os movimentos, protestos e campanhas eleitorais que vieram depois disso – e vínhamos observando a consolidação dos meios digitais como núcleo de tomada de decisão. Mas as eleições brasileiras deste ano colocam as plataformas sociais como determinantes para o resultado porque, em vez de praças de disseminação e troca, viraram protagonistas do processo.







