A busca por diversificação do portfólio, por investimentos de menor risco e por ganhos de escala está embalando um movimento global de consolidação no setor de mineração como não se via desde o início do século. A tendência ganha força com a corrida por minerais críticos para a transição energética, na qual a agenda industrial está ligada a uma disputa geopolítica.
O apetite por M&A aumentou diante da tentativa dos EUA e da Europa de reduzir a dependência da China, hoje dominante no processamento de terras raras e outros insumos essenciais na produção de carros elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos militares. Governos ocidentais passaram a tratar minerais críticos como tema de segurança nacional.
Dono de reserva mineral privilegiada, incluindo de minerais críticos e estratégicos, o Brasil entrou no radar de investidores, fundos especializados e grandes mineradoras, em especial após o endurecimento das disputas comerciais entre Washington e Pequim.
Ainda há poucos números recentes sobre os movimentos de M&A no setor de mineração, e mais especificamente sobre o segmento de minerais críticos, mas estudo da KPMG indicou que as operações no setor mineral brasileiro, sobretudo em cadeias de minerais críticos, saltaram 56% — de 9 para 14 — no primeiro semestre de 2025, momento em que as tensões entre EUA e China ganharam força.
Recentemente, anúncios de operações deram a indicação de que o apetite por projetos e ativos no Brasil persiste. Em abril, a americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões.
A Serra Verde tem uma mina e uma planta de processamento de terras raras em Goiás, e é a única fora da Ásia capaz de produzir comercialmente, em larga escala, quatro elementos magnéticos críticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
No início deste ano, a anglo-australiana Rio Tinto anunciou a compra da Arcadium Lithium por US$ 6,7 bilhões. Também neste ano, a Rio Tinto retomou — após tentativas anteriores — as negociações para uma megafusão com a anglo-suíça Glencore, que tem um leque de ativos diversificado — cobre, cobalto, níquel, zinco, chumbo e minério de ferro. A negociação, que criaria uma empresa com valor estimado de US$ 260 bilhões, esfriou em fevereiro, mas pode ser retomada no futuro, dizem analistas.
“As companhias estão fazendo movimentos para melhorar seus portfólios, mitigar riscos de investimentos e acelerar o crescimento em produtos que farão a diferença à frente, como cobre e alumínio”, descreve o consultor Tito Martins, ex-CEO da Nexa e ex-diretor executivo da Vale.
Interesse envolve projetos ‘brownfield’
Os grandes players estão buscando projetos “brownfield”, que já estão em operação. Isso porque está cada vez mais difícil obter licenciamentos e, em diversos locais, há resistência à atividade de mineração — fatores que se devem, em parte, aos acidentes de Mariana e Brumadinho. Hoje em dia, diz Martins, o que falta não é financiamento, mas licenças — ambiental e social — e garantia de que a empresa poderá operar.
Ao mesmo tempo em que companhias buscam firmas que ofereçam os ativos e a segurança desejados, há grupos buscando investimentos e outros vendendo ativos e operações porque estão enxergando oportunidade.
No radar dos estrangeiros, empresas como a mineradora Terra Brasil Minerals procuram aproveitar o momento. A companhia busca sócios para um projeto estimado em US$ 1 bilhão em terras raras e fertilizantes em Minas Gerais.
A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), controlada pelo grupo Votorantim, anunciou, em 29 de janeiro, a venda de 68,59% do capital para uma joint venture formada pela chinesa Aluminum Corporation of China Limited (Chalco) e a Rio Tinto. A operação alcançou R$ 4,689 bilhões.
Mas, apesar do apetite, há obstáculos relevantes. O principal deles é a ausência de uma cadeia industrial completa no Ocidente. Hoje, a China domina cerca de 90% do processamento global de terras raras, o que reduz a capacidade de países produtores capturarem maior valor agregado.
Outro desafio é o elevado custo de implantação das plantas de separação e refino, além da volatilidade histórica dos preços. Há ainda preocupações regulatórias e geopolíticas. Neste cenário, a tendência, diz Martins, é de que aconteçam menos operações de M&A, mas as operações devem ter maior valor.








