A crise instalada na Região de Saúde Sul deixou de ser uma discussão restrita aos corredores da Secretaria de Saúde.
Troca do superintendente é seguida por mudanças na Atenção Primária, pedido de exoneração da diretora e relação de gestores que estariam deixando funções. No centro dos bastidores aparece uma assessora da Governadora ligada ao SindSaúde, uma pré-candidata próxima de Damares Alves e o novo superintendente. Governo precisa explicar quem indicou quem e quais critérios orientaram as mudanças.
A crise instalada na Região de Saúde Sul deixou de ser uma discussão restrita aos corredores da Secretaria de Saúde.
O episódio começa a produzir uma pergunta incômoda para o governo de Celina Leão:
a Saúde Sul está sendo reorganizada segundo critérios técnicos ou interesses políticos passaram a influenciar a ocupação de cargos públicos?
Não há, até agora, prova suficiente para afirmar que exista aparelhamento político da Região Sul. Mas a sucessão de acontecimentos, as relações entre personagens envolvidos e a reação de gestores justificam que o governo apresente explicações públicas.
Tudo começa com uma canetada
Em 26 de junho de 2026, edição extra do Diário Oficial registrou a exoneração de Willy Pereira da Silva Filho da Superintendência da Região de Saúde Sul e a nomeação de Gabriel Pimentel da Silva.
Trocar um ocupante de cargo de confiança é prerrogativa do governo.
O problema político começa quando se observa o que aconteceu depois.
A nova administração passou a promover alterações na estrutura regional, inclusive na Atenção Primária. Servidores passaram a questionar a experiência de alguns dos escolhidos para determinadas funções e os critérios utilizados nas substituições.
É exatamente aí que o Palácio do Buriti precisa responder uma pergunta elementar:
quais critérios técnicos fundamentaram cada uma dessas mudanças?
Se existem currículos e justificativas técnicas, que sejam apresentados.
Uma fotografia que não prova irregularidade — mas exige explicações
Em meio às mudanças, outro episódio começou a circular entre servidores.
Uma fotografia encaminhada à reportagem mostra três pessoas em um evento. Segundo a identificação fornecida pelas fontes, trata-se de Cristiane Britto, Marli Rodrigues e Gabriel Pimentel.
As fontes afirmam que o encontro ocorreu apenas dois dias depois da chegada de Gabriel ao comando regional e teria acontecido em clima de comemoração.
A fotografia não comprova indicação política, interferência administrativa ou qualquer ilícito.
Mas o contexto dos personagens é relevante.

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Marli Rodrigues possui conhecida trajetória no SindSaúde-DF e, segundo o Diário Oficial, atualmente estaria ligada à assessoria da governadora.
Cristiane Britto, por outro lado, está diretamente inserida na política eleitoral de 2026.
Ela foi ministra no governo Jair Bolsonaro e possui relação política histórica com a senadora Damares Alves. Mais do que isso: registro oficial do Senado de março deste ano identifica Cristiane como assessora do gabinete de Damares.
Reportagens publicadas neste ano também colocaram Cristiane nas articulações para a Câmara dos Deputados envolvendo Damares, Michelle Bolsonaro e a própria Celina Leão.
Isso não significa que Cristiane tenha participado das mudanças na Saúde Sul.
Mas torna legítima uma pergunta:
uma personagem inserida no projeto eleitoral aliado à governadora teve alguma participação, formal ou informal, na construção do novo grupo de gestão?
Celina precisa responder.
A relação com o SindSaúde vem de antes
Existe outro elemento que merece atenção.
Uma publicação antiga do próprio SindSaúde, encaminhada à reportagem, mostra Gabriel Pimentel participando de atividade divulgada pela entidade.

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Na época, a própria publicação o apresentava como administrador.
Gabriel falava sobre ambiente de trabalho, tratamento dos servidores e assédio moral. Entre suas declarações estava uma frase que hoje ganha novo significado diante da crise:
“Clima organizacional ruim só produz trabalho ruim.”
A publicação demonstra que a interlocução pública entre Gabriel e o SindSaúde é anterior à sua nomeação como superintendente.
Isso, evidentemente, não constitui irregularidade.
Gestores e sindicatos podem e devem dialogar.
Mas o histórico torna relevante compreender o posicionamento que o SindSaúde assumiria posteriormente na disputa.
SindSaúde acusa a antiga gestão de “assédio eleitoral”
Em 13 de agosto, o SindSaúde entrou publicamente no conflito.
A entidade publicou manifestação sobre o Memorando nº 158/2026 – SES/SRSSU/DIRAPS e levantou suspeita de “assédio eleitoral”.
Segundo o sindicato, o documento questionava as substituições e antecipava possíveis prejuízos como queda de indicadores, absenteísmo, descontinuidade assistencial e até risco de desassistência.
O sindicato anunciou que levaria o episódio ao MPT, à SES-DF e à Corregedoria.
É uma acusação séria e merece investigação.
Mas a transparência precisa funcionar nos dois sentidos.
Se existem relações anteriores entre integrantes do sindicato e personagens da nova administração, elas também precisam ser explicitadas.
A questão não é proibir essas relações.
É saber se permaneceram no campo legítimo da interlocução sindical ou se tiveram alguma participação na composição administrativa da Região Sul.
Diretora pede para sair: “não me sinto alinhada”
Enquanto a disputa política aumentava, a reação começou a vir de dentro da própria estrutura.
A Diretora Regional de Atenção Primária, Regiane Costa Martins dos Reis, pediu exoneração,
Em mensagem proveniente de um grupo do Conselho de Saúde, ela anuncia que deixará a DIRAPS-SUL em 17 de agosto, após sete anos.
E apresenta a motivação:
“Minha decisão de pedir exoneração foi motivada, sobretudo, por não me sentir alinhada ao modelo de gestão que recentemente se inicia na Região.”
após 7 anos na gestão.
Agora, um segundo questionamento começa a circular nos bastidores da Região Sul: até onde vai esse “desmonte proposital das equipes”? Diante da sucessão de mudanças e da saída de gestores experientes, servidores passaram a levantar outra hipótese: estaria sendo criado um ambiente de instabilidade e perda de capacidade operacional que, posteriormente, poderia ser utilizado para justificar a terceirização da Atenção Primária? A preocupação ganha dimensão política diante da adoção de modelos de gestão indireta em outros segmentos da administração pública.
Até o momento, não há documento apresentado à reportagem que comprove a existência de um plano do atual governo para terceirizar a Atenção Primária da Região Sul. Mas o temor não surgiu do nada.
E Regiane pode não estar saindo sozinha
A reportagem recebeu também uma relação compartilhada em grupo de WhatsApp de servidores contendo 15 nomes ligados a diferentes estruturas da Atenção Primária.
A relação alcança DIRAPS, GPMA, GEAQ, GERSU, NVEPI, GAPAPS, GENF e diferentes GSAPs do Gama e de Santa Maria.
Segundo as mensagens, parte desses gestores já teria sido exonerada ou solicitado exoneração, enquanto outros estariam deixando suas funções.
Há ainda a informação de que cerca de 70% dos gestores da Atenção Primária estariam em processo de saída.
O número precisa ser tratado com cautela.
A reportagem ainda precisa confrontar cada nome com o Diário Oficial e documentos administrativos antes de afirmar que todos efetivamente deixaram os cargos.
Mas a existência de uma relação tão extensa circulando internamente, somada à saída comprovada da diretora, revela no mínimo um ambiente de forte instabilidade.
Se a gestão estava funcionando, por que desmontá-la?
Esse talvez seja o ponto mais desconfortável para o governo Celina Leão.
De acordo com as informações, a Atenção Primária da Região Sul vinha alcançando os indicadores pactuados e ocupando posição de liderança entre as regiões do Distrito Federal. Também relaciona avanços em equipamentos, reformas, novas unidades e organização dos processos de trabalho.
Se esses resultados forem confirmados pelos indicadores oficiais, o governo precisa explicar:
qual problema técnico justificava uma mudança tão profunda?
Gestores ruins devem ser substituídos.
Mas, quando gestores de uma estrutura apontada como bem avaliada são trocados ou começam a pedir exoneração em sequência, o governo precisa mostrar por que a mudança representa melhoria e não simplesmente substituição de um grupo por outro.
O problema chega ao gabinete de Celina
Esse caso não pode ser tratado apenas como problema de Gabriel Pimentel.
Marli Rodrigues é apontada pelas fontes como ligada ao gabinete da governadora.
Cristiane Britto aparece publicamente nas articulações eleitorais do campo político de Celina.
E Gabriel foi nomeado para comandar uma estrutura estratégica do governo.
Nada disso, isoladamente, comprova uma operação política sobre a Saúde Sul.
Mas o conjunto exige transparência.
Saúde pública não pode virar moeda eleitoral
Estamos às vésperas do início oficial da campanha eleitoral.
A máquina pública não pertence ao governo de ocasião.
Cargo público não pode virar prêmio eleitoral.
Servidor não pode ser pressionado a participar de projeto político.
Sindicato não pode funcionar como instrumento de disputa por espaços administrativos.
E uma candidatura não pode utilizar a estrutura da saúde para construir influência eleitoral.
Se nada disso ocorreu na Região Sul, melhor.
O governo tem condições de demonstrar.
Abra as indicações, governadora
Há uma maneira simples de Celina Leão enfrentar as suspeitas: abrir as informações.
O Governo do Distrito Federal deveria divulgar quem indicou os novos gestores, quais foram substituídos, os currículos dos novos ocupantes e os critérios técnicos utilizados.
Há uma dimensão humana e política nessa crise que o Palácio do Buriti também precisa explicar.
Muitos dos gestores que agora deixam suas funções não chegaram ontem à administração pública. São profissionais que atravessaram anos de governo, crises sanitárias, pandemia, epidemia de dengue e dificuldades estruturais, permanecendo na linha de frente e sustentando serviços essenciais para a população.
Por isso, a forma como essas mudanças estão sendo conduzidas provoca uma pergunta inevitável: como um governo trata dessa maneira gestores que permaneceram durante tantos anos trabalhando dentro da própria estrutura que hoje decide substituí-los?
Trocar cargos de confiança é prerrogativa de qualquer governo. Mas existe diferença entre renovar uma equipe com critérios técnicos e permitir que profissionais experientes sejam descartados em meio a suspeitas de rearranjos políticos.
Se ficar demonstrado que essas substituições decorreram de acordos ou acomodações políticas, o episódio deixará um recado preocupante para todo servidor público: se profissionais que permaneceram anos entregando resultados podem ser afastados quando os interesses políticos mudam, que segurança institucional existe para quem coloca o serviço público acima das conveniências eleitorais?
Não se trata de condenar ninguém antecipadamente.
Trata-se de permitir que a população conheça quem está tomando as decisões sobre sua saúde.
No final, a conta não chega ao político
Governadores mudam. Superintendentes mudam. Cargos comissionados mudam.
O paciente permanece.
É ele quem precisa encontrar a UBS funcionando, vacinação disponível, pré-natal organizado, equipes completas e serviços capazes de atendê-lo.
Se uma disputa política estiver por trás da desestruturação de equipes técnicas, quem sofrerá as consequências não estará nos gabinetes, nos sindicatos ou nos palanques eleitorais. Estará na fila do SUS.
Por isso, a pergunta que começou nos corredores da Região Sul agora precisa ser dirigida diretamente ao Palácio do Buriti:
Governadora Celina Leão, quem está, de fato, comandando a Região de Saúde Sul — e quais interesses estão orientando essas mudanças?
Correio de Santa Maria – Redação








