Domingo, 25/10/26

CV amplia ações de controle sobre moradia, comércio e serviços com ameaça e extorsão pelo país

CV amplia ações de controle sobre moradia, comércio e serviços com ameaça e extorsão pelo país
CV amplia ações de controle sobre moradia, comércio e serviços – Reprodução

Margarida, 56, teve dez minutos para colocar uma vida inteira em três sacolas plásticas. Em agosto, uma motocicleta parou diante de sua casa, em Bayeux, na Grande João Pessoa. Dois homens armados ordenaram que ela deixasse o imóvel com os três filhos. Segundo o Ministério Público da Paraíba, outras 250 famílias também perderam suas casas.

O caso de Margarida, que pediu para não ter o nome verdadeiro divulgado por questão de segurança, expõe uma dimensão do domínio territorial atribuído ao CV (Comando Vermelho) no país, que vem transformando o lugar onde as pessoas vivem em fonte de renda ilícita e instrumento de coerção.

Além do tráfico de drogas, investigações apontam práticas como expulsar moradores, tomar imóveis, cobrar pagamentos de comerciantes e restringir a atuação de empresas.

Levantamento da Folha identificou 16 operações relacionadas à facção entre janeiro e outubro, com participação de Ministérios Públicos, em cidades de 13 estados: Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo. Outras duas foram conduzidas pela polícia, em Rondônia e Ceará.

As investigações apuram crimes como expulsão de moradores, extorsão de comerciantes e provedores de internet e controle ilegal de serviços.

Relatórios da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais) mostram que o CV está presente em 26 estados da Federação. O Rio Grande do Sul é a única exceção.

O MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) afirma manter iniciativas de integração entre forças de segurança para enfrentar organizações criminosas com atuação interestadual, como redes especializadas e forças-tarefa.

No Ceará, a investigação sobre o assassinato de um casal de comerciantes em Fortaleza aponta para a cobrança de taxas para permitir que trabalhadores mantenham suas atividades.
Wallace Goes de Oliveira, 46, e Roseany Lima de Oliveira, 48, foram mortos em 28 de agosto, em

Mondubim, na periferia da capital, onde mantinham um trailer de lanches. Eles deixaram três filhos.
Em setembro, o Ministério Público cearense denunciou três homens por extorquir comerciantes do bairro.

Segundo a acusação, quem se recusasse a pagar ficaria sujeito à violência, e o assassinato teria servido de punição e aviso aos demais trabalhadores.

Investigações no interior também apuram cobranças ilegais no comércio de água. Em junho, a Polícia Civil fez uma operação contra integrantes do CV em Sobral e Cariré, a 235 km de Fortaleza.

Na mesma região, em outubro, uma ação cumpriu oito mandados de prisão preventiva e 23 de busca e apreensão em Meruoca, Alcântaras e Sobral. A polícia pediu o bloqueio de R$ 15 milhões em bens e ativos dos investigados.

O setor de telecomunicações é alvo no estado. Na madrugada de 16 de outubro, suspeitos picharam e depredaram fachadas e portões de provedores de internet em Alcântaras e exigiram que deixassem o município em 24 horas, sob ameaça de incêndio.

A Secretaria de Segurança informou que cem suspeitos de envolvimento em ataques a provedores de internet haviam sido capturados no Ceará desde julho de 2025. Outras 1.631 pessoas investigadas por integrar organizações criminosas foram capturadas no estado entre janeiro e setembro de 2026, em flagrante ou por mandado.

No estado, o avanço do CV alterou a configuração da disputa entre facções. Reportagem da Folha publicada em janeiro deste ano descreveu a expansão do grupo sobre áreas antes dominadas pelos GDE (Guardiões do Estado), facção local que se aliou ao TCP (Terceiro Comando Puro) para tentar conter o rival. A aliança, porém, não conseguiu reverter o avanço do CV na Grande Fortaleza.

Na Bahia, investigações apuram a atuação do CV no mercado de internet. Em fevereiro, a Operação Território Livre investigou suspeitas de ameaças, intimidações e cobranças ilegais contra empresas em Dias d’Ávila, na Grande Salvador.

A Secretaria da Segurança Pública da Bahia afirma que 70 lideranças de facções foram presas ou mortas entre janeiro e outubro de 2026.

Segundo a pasta, operações também resultaram no bloqueio ou sequestro de R$ 7 bilhões em contas bancárias e bens. A secretaria diz ainda que ações integradas levaram à prisão de suspeitos em outros estados e de seis lideranças em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

No Maranhão, a Operação Hidra, em 13 de agosto, mirou lideranças do CV suspeitas de violência e extorsão de prestadores de serviços, incluindo provedores de internet. A ação ocorreu também no Rio, no Pará e em Mato Grosso, com 15 pessoas presas.

No Rio Grande do Norte, a Operação Leviatã II, deflagrada em agosto, investigou a expansão do CV em Mossoró e Baraúna, no oeste potiguar. Segundo a investigação do MP, o grupo buscava eliminar rivais, controlar rotas do tráfico e arrecadar dinheiro para financiar a facção.

Em Rondônia, a Operação Flégias apurou ataques a provedores de internet em Porto Velho após empresas se recusarem a pagar valores exigidos por criminosos. Foram cumpridos dois mandados de prisão preventiva por disparos contra uma empresa do setor. Governança criminal
A atuação de facções para além do tráfico de drogas pode ser entendida pelo conceito de governança criminal, afirma a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz, professora da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Para a pesquisadora, grupos criminosos não são apenas organizações que vendem produtos ilegais. Também atuam como agentes político-econômicos que diversificam suas fontes de renda, disputam territórios e criam mecanismos para controlar a circulação de mercadorias, serviços e pessoas, o que não é exclusividade do CV no Brasil.

“Não se trata de um ator que ‘amadureceu’ para a racionalidade econômica”, diz. Segundo ela, a atuação desses grupos sempre envolveu cálculo, gestão de riscos, diversificação e reinvestimento.

Nesse modelo, a cobrança de taxas de comerciantes e prestadores de serviços não é apenas uma forma de arrecadação. É também um instrumento de controle econômico e territorial. Em regiões sob domínio armado, afirma a pesquisadora, a taxa funciona como “um dispositivo coativo de acesso e exploração do território”.

A cobrança pode interferir nos preços, reduzir as margens de lucro e afastar concorrentes que se recusam a aceitar as regras impostas.

A pesquisadora diz, porém, que essas redes não necessariamente funcionam sob uma chefia única. Elas podem reunir núcleos especializados, com diferentes graus de autonomia, conectados a mercados e territórios distintos. Por isso, a semelhança entre práticas criminosas em diferentes estados não comprova, por si só, a existência de uma estratégia nacional coordenada por uma única facção.

Em maio de 2026, o governo federal lançou o programa Brasil contra o Crime Organizado, que prevê R$ 11,1 bilhões em investimentos e financiamentos para combater facções criminosas. A iniciativa inclui ações de inteligência, integração entre forças de segurança e asfixia financeira de organizações criminosas.

À Folha o MJSP afirma não dispor de uma base nacional consolidada que permita dimensionar ameaças, extorsões, ataques e situações de domínio territorial atribuídos especificamente ao CV.

Entre 2023 e 2026, as ações coordenadas ou apoiadas pela Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública) registraram 1.390 operações e 276.785 pessoas presas, além de R$ 84,58 bilhões em prejuízos financeiros impostos ao crime.

T LB

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