Quarta-feira, 17/06/26

Depois do medo, a vida: pessoas LGBT encontram apoio para serem felizes

Depois do medo, a vida: pessoas LGBT encontram apoio para serem felizes
Depois do medo, a vida: pessoas LGBT encontram apoio para – Reprodução

Por Danilo Lucena
Agência de Notícias CEUB

O telefone tocou e trouxe a liberdade.

De um lado, estava Jeferson Silva, que havia saído de casa recentemente para viver sua sexualidade livremente, mas sofria com a saudade da família. Do outro lado da linha, estava o avô, homem de hábitos tradicionais, figura central da família e a pessoa que Jeferson mais temia decepcionar.

A ligação era simples: um convite para voltar. Mas havia um detalhe que transformava aquele momento em algo muito maior.

Desta vez, ele poderia levar o noivo.

“Foi um dos melhores dias da minha vida.Assim que desliguei o telefone, chorei muito”, lembra-se.

Aos 26 anos, o terapeuta ocupacional, morador de Ceilândia (DF), fala daquela memória com emoção, como um marco em sua vida. Não que sua trajetória tenha sido marcada por grandes rupturas familiares, mas aquela ligação representou a confirmação de algo que levou anos para compreender: o amor das pessoas que o cercavam era maior do que o medo que ele havia construído dentro de si.

Jeferson, um homem negro, descobriu que era gay por volta dos 13 anos. Na época, a sensação era de estranhamento. Ele sabia que seus desejos seguiam uma direção diferente da esperada. Mas ainda tentava entender o que aquilo significava. Foram três anos de reflexão silenciosa até decidir se assumir para amigos e familiares.

Antes disso, vivia uma espécie de duplicidade cotidiana. “Na rua eu era uma pessoa. Em casa, outra”.

Honestidade

A vida dupla o incomodava profundamente. Por valorizar a honestidade nas relações, sentia que escondia uma parte fundamental de si mesmo. E aquilo doía. Não se tratava apenas de omitir informações. Era a sensação constante de vigiar palavras, controlar gestos e evitar determinados assuntos. “Era uma vida mais triste”, resume.

O receio maior estava concentrado dentro da própria casa. Criado pelo avô, Jeferson imaginava que a revelação provocaria rejeição. Por isso, decidiu contar primeiro para outras pessoas da família.

A reação, no entanto, foi diferente daquela que havia ensaiado tantas vezes na cabeça. “A família meio que já sabia”, diz, entre risos.

Preconceito

Houve um episódio de preconceito vindo de um tio, que chegou a afirmar que o sobrinho deveria ser expulso de casa para “virar homem”. A frase circulou pela família em forma de fofoca, mas produziu um efeito inesperado: as tias saíram em sua defesa e se afastaram de parentes que reproduziam esse tipo de discurso.

Enquanto isso, o avô permaneceu exatamente o mesmo.

Anos depois, quando Jeferson decidiu contar oficialmente sobre sua orientação sexual e apresentar o então namorado, descobriu que o medo havia sido muito maior do que a realidade. “Ele nunca mudou o jeito dele comigo”, conta.

A partir daquele momento, a vida começou a ganhar leveza. Pela primeira vez, não precisava mais medir palavras nem administrar versões diferentes de si mesmo para públicos distintos. As amizades tornaram-se mais espontâneas. Os relacionamentos familiares ficaram mais transparentes. A ansiedade constante de ser descoberto desapareceu. “Hoje eu faço as coisas sem sentir que estou pisando em ovos”, afirma.

Apoio

O que transformou sua trajetória, segundo ele, não foi apenas a aceitação familiar, mas também a construção de uma rede de afeto. Amigos, colegas e pessoas próximas sempre o tratavam com carinho e naturalidade, criando um ambiente seguro para que pudesse falar sobre si sem medo de julgamento.

Aos poucos, a autenticidade deixou de ser um medo para se tornar uma forma de cuidado.

Hoje, quando olha para trás, Jeferson percebe que a maior mudança não foi externa, mas interna. A liberdade de viver sem esconder quem é trouxe uma paz que atravessa até mesmo a sua profissão.

Trabalho

Como terapeuta ocupacional, trabalha diariamente ajudando outras pessoas a encontrarem caminhos para o bem-estar e a autonomia. Mas acredita que esse processo começou muito antes, dentro de casa, quando decidiu abandonar a vida dupla que carregava desde a adolescência.

“Para cuidar do outro com empatia, eu precisei primeiro ser verdadeiro comigo”, reflete.

É uma conclusão simples, mas que resume anos de descobertas. Depois do medo, veio a honestidade. Depois da honestidade, a paz. E foi nesse espaço tranquilo, construído entre afeto, aceitação e pertencimento, que Jeferson finalmente encontrou a liberdade de existir por inteiro.

Acolhimento na arte

O maquiador e cabeleireiro Bruno Santos, de 27 anos, aprendeu cedo que viver de forma autêntica poderia ser uma coisa simples. Enquanto crescia se deslocando entre o Maranhão, o Piauí e o entorno do Distrito Federal, acompanhando as mudanças dos pais, nunca precisou transformar a própria sexualidade em anúncio formal. 

Diferente de muitas pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, Bruno nunca teve um grande dia de revelação. Houve, em seu caso, pequenos gestos cotidianos: a unha pintada, a franja inspirada na cantora Rihanna, uma maquiagem aqui, uma roupa diferente ali. 

“Eu nunca precisei me assumir”, conta. “A parte mais difícil para muita gente não é se assumir. É se aceitar.” 

Hoje, além dos ofícios como cabeleireiro e maquiador, Bruno também dá vida à Laisa Black, uma das drag queens mais respeitadas do circuito LGBTQIAPN+ e junino do Distrito Federal e Entorno. Entre os cílios enormes, vestidos brilhantes e coreografias de quadrilha, Bruno descobriu não apenas uma forma de arte, mas uma maneira de fortalecer a própria autoestima e construir a tão sonhada sensação de pertencimento. 

Infância

A infância foi marcada por uma liberdade rara para muitos homens gays brasileiros. Filho de um pai apaixonado pelo Flamengo e de uma mãe nordestina, que fugiu para Brasília ainda jovem para escapar de um casamento forçado, Bruno cresceu num ambiente em que sua diferença era percebida, mas não reprimida. 

“Minha família sempre dizia: ‘Ele é diferente’. Mas ninguém me proibia de ser quem eu era”, diz. 

Enquanto outras crianças aprendiam cedo a esconder trejeitos, Bruno transitava entre universos considerados incompatíveis: gostava de bonecas e também de futebol, era fã da Xuxa, mas treinava karatê e judô. Com o tempo, percebeu que sua identidade não cabia nas expectativas rígidas da masculinidade tradicional, sem que isso influenciasse sua identidade como um homem cisgênero. 

“Parecia que eu tinha que escolher uma coisa só. Mas eu nunca consegui existir desse jeito”, relembra.

A arte drag

Foi apenas aos 21 anos de idade, em 2019, que a arte drag entrou definitivamente em sua vida. Ao lado de amigos que mais tarde formariam a família de drag queens denominada House of Black, Bruno começou a se montar por diversão, primeiro em festas de Halloween e Carnaval, até perceber que ali havia potencial para crescer. 

“A gente começou brincando. Depois percebeu: ‘Nossa, talvez a gente leve jeito pra isso’”. 

A transformação de Bruno em Laisa Black aconteceu junto da construção de uma rede afetiva. A House of Black nasceu antes como amizade do que como grupo artístico. Entre costuras improvisadas, maquiagens compartilhadas e noites viradas preparando figurinos, o grupo construiu uma espécie de família escolhida. 

“Antes de ser uma house, a gente já era uma irmandade”. No linguajar drag, “house” denomina o grupo de artistas que forma uma espécie de família, em que uma queen ajuda à outra e algumas características estéticas serão compartilhadas. Uma cor, por exemplo. 

Reality show

A força da House of Black se tornou ainda mais visível quando uma de suas integrantes, a queen Adora Black foi selecionada para o Drag Race Brasil, braço brasileiro do principal reality show de drag queens no mundo, o RuPaul’s Drag Race. Para Bruno, a conquista nunca pertenceu apenas a uma pessoa. Nos bastidores, a participação no reality virou uma maratona coletiva de afeto, improviso e resistência. 

Entre máquinas de costura domésticas, noites sem dormir e uma contagem regressiva, a house se mobilizou para preparar os figurinos da competição em menos de um mês. 

“Parecia um desafio do próprio programa. A gente saía do trabalho no salão de beleza e passava a madrugada ajudando a terminar os looks da Adora”, sorri Bruno. 

Ele conta que a notícia da aprovação de Adora no programa provocou uma espécie de comoção íntima entre o grupo. Choraram juntas ao perceber que o sonho, antes imaginado como algo distante demais para drags brasileiras, finalmente atravessava a porta de casa. “Ela (Adora) falou: ‘Agora a House of Black vai ficar conhecida no mundo todo’. E a gente acreditou junto”. 

Mais do que visibilidade, o processo fortaleceu a sensação de pertencimento entre as integrantes da house. Bruno descreve a relação entre elas como uma dinâmica rara de apoio mútuo em um meio frequentemente marcado por competitividade. 

“Nunca foi sobre uma ser maior que a outra. Quando uma cresce, ela puxa as outras junto”. 

Foi nesse espaço que Bruno começou a aprofundar a relação consigo mesmo. Apesar da personalidade expansiva e do humor fácil, ele conta que passou anos inseguro com a própria aparência e constantemente tomado pela autocrítica. “Hoje as pessoas me veem aberto, extrovertido, mas eu já fui muito cruel comigo mesmo”. 

A drag, diz ele, funcionou primeiro como escudo. Montada, Laisa Black parecia indestrutível: confiante, exuberante, magnética. Mas o processo também exigiu que Bruno aprendesse a fortalecer quem existia por baixo da maquiagem. 

“Existe a Laisa Black e existe o Bruno Santos. São dois CPFs diferentes”, brinca. “Eu precisei fortalecer o Bruno pra conseguir sustentar a Laisa”. 

Quadrilha junina

A rede de apoio formada pela House of Black sustentou Bruno quando Laisa Black começou a ocupar espaços inéditos no circuito junino do Distrito Federal. Em 2023, ainda insegura sobre como seria recebida naquele universo, Laisa participou de um concurso de rainhas da diversidade criado para ampliar a presença LGBTQIAPN+ nas quadrilhas da região. Sem experiência anterior como dama junina, passou semanas estudando vídeos, observando movimentos e treinando sozinha diante do espelho. 

“Eu não sabia nem mexer na saia. Mas uma coisa eu garantia: eu sabia que ia estar bonita”, conta aos risos. 

A vitória no concurso veio com surpresa: o prêmio como Rainha da Diversidade transformou Laisa Black em um nome conhecido dentro do movimento junino e abriu portas para convites que, até então, pareciam improváveis para uma drag queen no Distrito Federal. “Foi quando as pessoas começaram a olhar e pensar: ‘Espera aí, essa menina sabe o que está fazendo’”. 

Com o reconhecimento após o concurso, Laisa Black recebeu um convite inesperado: tornar-se noiva junina de uma quadrilha. O posto, tradicionalmente ocupado por mulheres cis, nunca havia sido assumido por uma drag queen no DF e Entorno. Mesmo com medo, aceitou. 

“Eu fiquei apavorado”, recorda. “O movimento junino aqui ainda é muito machista. Adoram as gays fazendo maquiagem, figurino, coreografia. Mas não gostam de ver a gente ocupando o centro”. 

Naquele ano, entre ensaios, concursos e apresentações, Bruno conviveu com a ansiedade constante de estar abrindo caminho num espaço que ainda resiste à diversidade. “A maquiagem escondia a dor da minha alma”, diz. Ainda assim, seguiu dançando. 

Ao fim da temporada, tornou-se a primeira e única noiva drag do Distrito Federal e Entorno. 

Liberdade

Mais do que reconhecimento artístico, a experiência lhe deu uma sensação inédita de legitimidade. Pela primeira vez, sentiu que não precisava escolher entre a arte, a feminilidade e o pertencimento cultural nordestino que sempre carregou consigo. 

“A arte não tem gênero”, afirma, repetindo a frase de um coreógrafo pernambucano que ouviu anos antes e nunca esqueceu. 

Hoje, quando sobe ao palco ou atravessa uma quadra junina vestida de noiva, Bruno entende que sua felicidade também é política. Não porque queira transformar a própria vida em manifesto, mas porque sua existência ocupa espaços que, durante muito tempo, pareceram (e foram) proibidos. 

E é justamente aí, entre o brilho da maquiagem, o peso da saia e a segurança construída aos poucos, que Bruno diz ter encontrado uma forma mais livre de viver. 

“A arte drag me engrandeceu muito como pessoa”, finaliza. 

Bruno Santos dá vida a Laisa Black, primeira drag queen a se apresentar como noiva junina no DF. Foto: arquivo pessoal.

Em outro canto da cidade

Durante anos, Ronaldo Júnior viveu uma vida dupla, quase uma operação secreta.

Antes de sair de casa, precisava calcular o que diria, para onde iria e, principalmente, quais versões de si apresentaria a cada pessoa. Se fosse encontrar um namorado, dizia para a família que sairia com um amigo. Se contasse uma mentirinha, precisava se lembrar dela depois. 

Cada conversa carregava o risco de uma contradição. Cada silêncio era uma tentativa de proteção.

“Eu tinha que lembrar de todas as mentiras que eram contadas para conseguir controlar tudo perfeitamente”, recorda. “Porque, se deixasse uma lacuna, eu seria descoberto.”

Hoje, aos 27 anos, servidor público e morador de São Sebastião, Ronaldo olha para aquele período com a distância de quem finalmente aprendeu a respirar sem vigiar cada movimento. Mas a liberdade que experimenta atualmente não surgiu de uma única decisão nem de um momento de ruptura. Ela foi construída aos poucos, em um processo longo de autoconhecimento que, segundo ele, ainda continua.

A primeira vez que se questionou sobre a própria sexualidade foi aos 14 anos. Curiosamente, não por causa de uma paixão ou de uma descoberta afetiva, mas pela convivência cotidiana com a homofobia.

Ele não era o alvo direto dos comentários, mas observava situações, piadas e discursos preconceituosos ao seu redor. E, em vez de afastá-lo das perguntas, aquilo acabou produzindo o efeito contrário.

“Eu comecei a me perguntar: será que eu também sou?”.

Descobertas

Na época, identificou-se como bissexual. Foi apenas anos depois, e após um longo processo de reflexão e terapia, que passou a se entender como um homem gay. Mesmo hoje, Ronaldo compreende sua sexualidade como algo em movimento, aberta às transformações da vida.

“Quando eu tinha 14 anos, eu não tinha contato com quase nada sobre o mundo gay. Esse processo começou lá atrás, mas vai durar o resto da minha vida”, reflete.

Se descobrir foi difícil. Aceitar-se, mais ainda.

Inadequado

A adolescência foi atravessada por um sentimento constante de inadequação. Entre os 14 e os 18 anos, Ronaldo viveu uma fase em que sentia não ter espaço para desenvolver a própria identidade. A energia que poderia ser dedicada a descobrir gostos, desejos e sonhos era consumida pela necessidade de esconder partes de si.

“Eu não sabia quem eu era de verdade, porque não tive espaço para criar essa personalidade”.

A relação com a família contribuía para essa sensação. Embora nunca tenha sofrido agressões diretas, conviveu com formas mais sutis de rejeição. Parte dos familiares recebeu sua orientação sexual com naturalidade. Outros, especialmente o pai, demoraram mais para aceitar.

Nos silêncios

O preconceito nem sempre aparecia em palavras explícitas. Às vezes surgia nos silêncios, nas ausências ou em situações que aconteciam apenas na cabeça de Ronaldo. 

“Eu não podia levar meu namorado para uma reunião de família. E não era porque não gostavam dele. Era porque ele era um namorado e não uma namorada”, lamenta.

A percepção de que o problema não estava na personalidade da pessoa com quem se relacionava, mas no gênero dela, produzia um sentimento doloroso em Ronaldo. Ele descreve aquele período como uma época em que não se sentia completamente parte da própria família.

“Se eu não posso ser eu mesmo com quem eu moro, com quem eu convivo, então eu sinto que não pertenço àquilo”, relembra, com dor.

Mudança

Foi um relacionamento afetivo que acabou acelerando a mudança. Ao perceber que seu então namorado se mostrava disposto a viver a relação de forma aberta, Ronaldo começou a desejar o mesmo. A vontade de abandonar o segredo e experimentar uma vida mais sincera, não coube mais dentro de si e precisou ser revelada ao mundo.

A transformação não aconteceu de uma vez. Não houve um instante específico em que tudo ficou melhor. A paz chegou de forma gradual, quase silenciosa. Ela apareceu na leveza das conversas. Na ausência do medo. No fim da necessidade de controlar narrativas. Na liberdade de existir sem calcular cada palavra. 

“A vida ficou mais leve”, resume.

Qualidade de vida

Hoje, essa leveza se manifesta nas pequenas coisas. Ronaldo fala sobre autenticidade não como um conceito abstrato, mas como uma experiência cotidiana. É a possibilidade de descobrir o que gosta sem a interferência das expectativas alheias. É a liberdade de construir a própria personalidade sem moldá-la para caber nos desejos dos outros. É viver sem que cada escolha precise passar pelo filtro do julgamento externo.

Meses atrás, durante uma sessão de terapia, percebeu algo que ajuda a explicar a dimensão dessa mudança. Pela primeira vez, sentiu que suas decisões partiam de si mesmo, e não das versões de si que precisava apresentar ao mundo.

“Hoje eu consigo ser muito mais leve. Consigo fazer o que eu quero, descobrir o que eu gosto, sem me preocupar com o que esperavam que eu fosse”.

As histórias de Jeferson Silva, Bruno Santos e Ronaldo Junior, cada um com suas particularidades, têm algo em comum: depois de tantos anos tentando controlar cada detalhe de suas histórias, eles encontraram algo mais simples (e talvez mais raro): a tranquilidade de viver sendo os protagonistas de suas próprias vidas.

T LB

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