Segunda-feira, 03/08/26

Documento da PM recomenda expulsão de soldado por morte de estudante de medicina em São Paulo

Documento da PM recomenda expulsão de soldado por morte de estudante de medicina em São Paulo
Documento da PM recomenda expulsão de soldado por morte de – Reprodução

O PAD (Processo Administrativo Disciplinar) aberto pela Polícia Militar para apurar as circunstâncias da morte do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, 22, recomenda a expulsão do soldado autor do disparo.

O caso aconteceu em novembro de 2024, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo.

O documento sigiloso obtido pela Folha de S.Paulo com exclusividade afirma que o tiro dado pelo soldado Guilherme Augusto Macedo foi desnecessário. A defesa de Macedo havia pedido a improcedência da acusação e o arquivamento do procedimento, o que não foi aceito.

O processo disciplinar contra o outro soldado que participou da ação, Bruno Carvalho do Prado, foi arquivado.

Além da punição administrativa, os dois PMs se tornaram réus por homicídio na Justiça comum e devem ser levados a um júri popular.

Marco Aurélio foi baleado na barriga após desferir um tapa no retrovisor da viatura em que estavam Macedo e Prado. Depois da ação, ele buscou abrigo em um hotel onde havia entrado minutos antes com uma jovem. Foi dentro do imóvel que ocorreu o disparo.

As câmeras utilizadas pelos policiais filmaram toda a ação.

Responsável pelo PAD, o capitão Jonatha de Faria afirma no documento que Macedo “demonstrou ser refratário aos valores e deveres policiais militares e não reúne condições ético-morais de permanecer nas fileiras da PM.”

O processo foi finalizado em 6 de maio e encaminhado ao Comando de Policiamento da Capital, unidade responsável pelo caso. A decisão sobre a expulsão ou não do soldado cabe ao comandante-geral da PM.

Em nota, a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que o processo permanece em tramitação, dentro do prazo legal, observadas as etapas regulamentares e o devido processo legal. A nota acrescenta: “Tão logo a análise pela autoridade competente seja concluída, o resultado será publicado conforme prevê a legislação vigente”.

Segundo o processo, “durante a tentativa de abordagem, o sd [soldado] PM Prado chutou desnecessariamente a vítima, momento em que se desequilibrou e caiu ao solo, tendo, logo após, o sd [soldado] PM Augusto efetuado, também de forma desnecessária, um disparo de arma de fogo, que atingiu e vitimou fatalmente Marco Aurélio”.

A conduta de Macedo foi considerada transgressão disciplinar de natureza grave, caracterizada como atentatória às instituições, ao Estado e aos direitos humanos fundamentais, e de natureza desonrosa, ao efetuar, desnecessariamente, um disparo de arma de fogo, diz o documento.

Prado foi investigado pelos mesmos motivos, mas Faria pediu o arquivamento do processo contra ele.

Em interrogatório no processo, Macedo disse que atirou no estudante porque temia por sua vida e pela de seu colega. Também afirmou que Marco Aurélio desobedeceu reiteradamente às ordens.

Ele disse ainda que tentou efetuar um disparo abaixo da linha da cintura, como ação corretiva.

A reportagem enviou mensagens no sábado (1º) para os advogados João Carlos Campanini e Leonardo Alvarez Duarte, responsáveis pela defesa dos PMs, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

No processo, eles afirmaram que Macedo agiu em legítima defesa na tentativa de conter Marco Aurélio, que havia arremessado Prado pelas escadas do hotel.

Também dizem que o estudante ignorou as ordens durante a abordagem policial “motivo pelo qual, na tentativa de ‘quebrar’ a resistência imposta, o peticionário desferiu um chute na região da sua cintura com a finalidade de imobilizá-la, tratando-se de golpe legal que foi utilizado de acordo com o previsto”

“Neste momento, temendo pela segurança da guarnição, o coacusado efetuou um único disparo de arma de fogo, próximo à cintura da vítima, visando repelir a injusta agressão praticada contra seu parceiro, bem como possíveis atos em sequência”, diz o documento.

A defesa argumenta ainda que o fato de os policiais terem acionado o Corpo de Bombeiros imediatamente após o tiro demonstra que eles agiram dentro da lei.

Em nota, os advogados que representam os pais de Marco Aurélio disseram “que a família jamais se afastou de seu propósito: que os fatos sejam integralmente esclarecidos e que a responsabilização se dê na medida exata da gravidade do ocorrido”.

T LB

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