Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Maria Eduarda Barros
O universitário Bruno Henrique Mendes, de 27 anos, ingressou com um processo, na esfera civil e militar, em que pede justiça por supostos episódios de homofobia ocorridos no período em que ele serviu como cabo da Aeronáutica no ano de 2024.
O caso, que tramita sob sigilo e teve arquivamento parcial, envolve mensagens compartilhadas de comentários jocosos em grupos de militares no whatsapp após a divulgação de uma foto sua com o namorado em uma rede social. Bruno explica que militares fizeram prints dessas fotos e colocaram no grupo de forma irônica.
A denúncia resultou na abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM), mas parte das acusações foi posteriormente arquivada, segundo explica.
Bruno serviu por oito anos na corporação e deu baixa em março de 2025. Ele era contratado pela Força em concurso temporário. Em 2024, segundo ele, passou a ser alvo de chacotas e comentários ofensivos após publicar uma foto abraçado ao parceiro durante a formatura de um curso interno.
Confira a entrevista
“Não tinha sido a primeira vez que uma coisa desse tipo tinha acontecido comigo lá. Todas as outras vezes eu ignorava, mas essa foi a gota d’água porque não tinha só eu na foto. Tinha o meu namorado.”
A exposição
Bruno recorda que foi orientado a fazer um curso para Polícia da Aeronáutica. Na formatura dessa capacitação, a família e namorado, de Bruno, foram prestigiá-lo no quartel.
Porém, Bruno explica que, por se tratar de um meio militar, demonstrações explícitas de afeto, como beijos, não são permitidas em eventos oficiais independente do gênero e da orientação sexual da pessoa.
Ao longo do dia, ele repostou mensagens de familiares e amigos que celebravam sua conquista. Contudo, ele não imaginava que uma foto abraçado ao namorado seria suficiente para expor sua vida pessoal e transformar sua trajetória na Aeronáutica em um processo marcado por constrangimento e homofobia.
“A gente tirou uma foto se abraçando e foi só isso. Uma coisa bem normal quando você vai postar sua conquista em uma rede social”.
Descoberta do ocorrido
Na mesma noite, um colega mandou mensagem pedindo para conversar pessoalmente. Bruno acreditou que se tratava de questões administrativas da organização militar, não que a causa da conversa seria sobre a homofobia que ele estava sofrendo, em grupos de conversas.
“Quando chegou a noite, teve um amigo meu que me mandou uma mensagem perguntando se poderia falar comigo, como eu era cabo e ele soldado achei que ele deveria estar precisando de alguma coisa lá do batalhão”
O colega relatou que algo estava acontecendo e que não concordava com a situação. Ele, então, apresentou a Bruno capturas de tela de conversas cujo ponto central era a foto retirada do Instagram do próprio Bruno, na qual ele aparece abraçando o namorado em uma publicação de parabenização.
A maioria das mensagens continha ataques direcionados a Bruno e ao seu namorado, com o uso de termos pejorativos e homofóbicos. Diversas delas estavam identificadas como “Encaminhada com frequência”, indicando que já haviam sido compartilhadas repetidamente.
“A minha orientação sexual nunca foi segredo para ninguém. Quem conversava comigo e me conhecia sabia”.
Já em posse dos prints das conversas, Bruno comentou com os amigos e com o chefe da seção onde ele trabalhava que o indicaram a realizar uma denúncia.
Segundo ele, não se tratava de um caso isolado. Outros episódios de homofobia já haviam ocorrido dentro do batalhão, envolvendo um amigo e um conhecido. Embora a situação o incomodasse há algum tempo, ele preferia se manter em silêncio para se proteger dos comentários e constrangimentos, que por si só já ocorriam.
“Eu estava dentro de um lugar altamente machista e homofóbico. Impossível você se sentir completamente seguro, sendo de uma outra sexualidade. Lá dentro era teatro.”
Bruno mencionou que, quando conversou com o seu namorado sobre a situação, ele ficou abalado e se sentiu culpado por ter ido a formatura.
“Ele ficou se culpando e me pediu desculpa por ter ido, começou a falar que se ele não tivesse me acompanhado, nada disso tinha acontecido comigo. Eu me senti culpado por ter exposto alguém que eu amo a uma situação que era minha. Ver ele mal me deixou pior ainda. Aí foi a gota d’água e então eu denunciei ao Ministério Público.”
Da denúncia ao caos
Por trabalhar na parte administrativa da FAB, Bruno tinha diversos documentos constando dados como os números de telefone das pessoas envolvidas.
Cruzando esses dados com os números que apareciam nos prints das conversas, ele criou uma relação com as pessoas para anexar aos documentos da denúncia e facilitar que o processo fosse aceito.
Devido ao fato de algumas das pessoas citadas não estarem mais vinculadas à organização, ele resolveu primeiro abrir uma queixa no Ministério Público (MP), achando que conseguiria englobar a todos.
Porém, a acusação foi negada pelo MP e ele foi informado que deveria abrir um boletim de ocorrência (BO) em uma delegacia da Polícia Civil.
Ao tentar realizar o BO, ele também foi negado, dizendo que deveria ser feito no Ministério Público Militar (MPM), mesmo havendo civis envolvidos.
Após as negativas, Bruno formalizou a acusação por meio de ofício à própria FAB, o que resultou na instauração de um Inquérito Policial Militar (IPM). Entre os participantes das conversas estariam militares da ativa e também já dispensados do serviço.
Em um dos documentos do processo, segundo ele, constava a expressão “opção sexual”, termo amplamente criticado por especialistas e movimentos LGBTQIAPN+, por sugerir que a sexualidade seria uma escolha.
“Só do documento estar escrito ‘opção sexual’ eu já perdi toda a credibilidade. A sexualidade de uma pessoa não é uma ‘opção’. Quando eu vi aquilo em um documento oficial, eu entendi que o problema era mais profundo.”
Impacto psicológico
O desgaste emocional se intensificou, ao ponto de Bruno buscar ajuda psicológica. “Eu estava desesperado por ajuda. Eu sei o que eu já passei antes. Eu sei como eu fico quando a minha cabeça começa a desandar. E quando tudo isso aconteceu, eu senti que estava caminhando exatamente para aquele lugar de novo.”
Ele relata que precisou buscar atendimento psicológico por conta própria depois de não conseguir ajuda dentro da própria aeronáutica.
“Eu não tinha tempo de esperar vaga (dentro do hospital da Aeronáutica). Eu precisava de ajuda naquele momento. Porque eu sabia que, se eu deixasse passar, ia piorar mais a minha situação.”
A convivência diária tornou-se insustentável.
“Quando falavam do processo, meu dia já mudava completamente. Eu não queria nem olhar para a cara deles. Teve momentos em que a minha vontade era reagir. Mas eu me controlei o tempo todo para não perder a minha razão, porque eu sabia que qualquer reação minha poderia ser usada contra mim.”
“Virou só minha sexualidade”
O que mais o marcou, segundo ele, não foi apenas a existência das mensagens, mas o sentimento de ter sido reduzido a uma única dimensão de sua identidade, sua orientação sexual.
“Eu tenho orgulho da minha sexualidade. Mas parecia que tudo o que eu construí lá dentro era resumido só a isso. Todo o serviço que eu entreguei, toda a minha história, viraram só minha sexualidade. Eles só enxergavam um fragmento da minha vida.”
Após o desligamento da instituição, ele afirma não ter recebido retorno.
“Eu dei baixa e nunca tive retorno. Chegou uma diretriz sobre como agir em caso de assédio, mas ninguém veio me procurar. Era como se tivessem me colocado lá para me esconder, esconder quem eu era,”
Para ele, o problema não é individual, mas estrutural. Um preconceito que está enraizado na sociedade e na organização.
“Se ninguém fizer barulho, nada acontece”
Processo
Em setembro de 2025, Bruno recebeu do MPM um documento constando o arquivamento parcial da acusação. “Embora o crime tenha ocorrido em um grupo de “WhatsApp”, em que comentários vexatórios foram feitos em desfavor do ofendido, não se pode criminalizar comentários que, muito embora estejam inseridos dentro de um contexto reprovável, não ofenderam diretamente a honra subjetiva do ofendido.”
De acordo com o registro, alguns nomes citados no IPM foram retirados do processo, defendendo que não foi possível afirmar que as ofensas expressadas pelos sujeitos apresentados foram dirigidos diretamente à vítima.
“O exame dos comentários permite constatar que muito embora eles estivessem inseridos em um contexto reprovável, em que o ofendido era alvo de deboches, não foi possível asseverar que foram dirigidos diretamente à vítima, com o fito de ofendê-la diretamente em decorrência de sua orientação sexual, tratando-se mais de comentários genéricos, que não atingiram a honra subjetiva”, apontou o documento referente ao arquivamento parcial do processo.
No documento, fica expresso que, apesar de ninguém ter o direito de utilizar fotos de outras pessoas para a prática de chacotas, deboches e de homofobia, a pessoa que posta fotos pessoais na internet “se desnuda de sua privacidade” e, por isso assume o risco de que sua imagem venha a ser utilizada de maneira inadequada por terceiros, dando a entender que quando ocorrem casos desse tipo a culpa é da vítima pelas postagens.
Após ser notificado do arquivamento parcial do caso, Bruno Mendes entrou com um recurso contra esse arquivamento utilizando de argumentos que mostram pontos da própria declaração que se contradizem e afirmando que muitas das falas consideradas “fora do contexto das fotografias” reafirmam a legitimação das agressões.
No recurso, também é apontado pela defesa de Bruno a violência institucional sofrida por ele em diversos momentos onde “a vítima foi tratada como culpada, enquanto os agressores permaneceram sem responsabilização” e as consequências de danos psicológicos que foram causados e minimizados pela falta de acolhimento por parte da instituição.
Também é apontado no requerimento que em diversos momentos foi utilizada a expressão “opção sexual” para se referir a sexualidade de Bruno.
Em abril de 2026, Bruno foi intimado a comparecer em uma audiência junto de três dos acusados nas denúncias. Após a audiência, a defesa de Bruno entrou em contato e o informou que dois dos indiciados ofereceram um acordo para ele.
“Não aceitei. Disse que só aceitaria se fosse nos meus termos, mas até hoje não obtive nenhum retorno a respeito “, revela o denunciante.
Posicionamento
A Agência Ceub procursou a assessoria de imprensa da Aeronáutica, que explicou que não comenta investigações e processos judiciais em andamento.
O Superior Tribunal Militar (STM) informou que existem cinco ocorrências, sendo quatro relativas a processos de 2025 e uma no início de 2026. O STM ressaltou que não tem registros ocorridos.
Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira








