Quarta-feira, 07/10/26

Extrema direita elege seu 1º presidente de Parlamento na Alemanha desde 1945

Extrema direita elege seu 1º presidente de Parlamento na Alemanha desde 1945
Extrema direita elege seu 1º presidente de Parlamento na Alemanha – Reprodução

JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS

Tobias Rausch, político da AfD (Alternativa para a Alemanha), foi eleito nesta terça-feira (6), em Magdeburgo, presidente do Parlamento estadual em Saxônia-Anhalt. Um passo notável para a Alemanha contemporânea, descrito de maneira sucinta por uma oposicionista: Rausch é “o primeiro presidente parlamentar de extrema direita desde Hermann Göring”.

Göring, braço direito de Adolf Hitler durante o regime nazista, foi usado como medida histórica por Heidi Reichinnek, líder do partido A Esquerda. Sua fala não mirava a AfD, mas a CDU (União Democrata-Cristã), legenda do primeiro-ministro, Friedrich Merz.

Em votação secreta, Rausch recebeu 48 votos, mais do que os 44 da soma da AfD (39) com a sigla nanica BSW (5). Os quatro votos extras, especula-se, vieram da bancada dos democratas-cristãos. Verdes, SPD e A Esquerda orientaram o voto contra, enquanto a CDU pregou a abstenção, manobra percebida como ambígua.

“Quando se tratou de elevar um extremista de direita ao cargo mais alto, 9 dos 15 deputados da União [CDU] decidiram conscientemente abrir caminho para ele, seja votando a favor ou se abstendo”, declarou Reichinnek.

Matthias Miersch, líder do SPD, foi mais diplomático sobre a atitude do parceiro de coalizão federal, mas afirmou que o assunto certamente seria discutido em Berlim. “Trata-se da situação geral dos nossos partidos nessa conjuntura difícil.”

Thorsten Frei, chefe do grupo parlamentar da CDU no Bundestag, o Parlamento Federal, afirmou que viu o episódio com preocupação, mas ponderou que creditar ao partido os quatro votos extras é “pura especulação”.

Horas depois, o enredo da novela piorou, quando Hans-Thomas Tillschneider, figura bem mais controversa da AfD, foi eleito vice-presidente da Casa com 44 votos. Desta vez, quem correu para dizer que não votou no deputado foi a BSW, um partido peculiar, que se diz de esquerda e conservador.

As eleições regionais na Saxônia-Anhalt, um dos estados mais pobres da Alemanha, viraram notícia mundial no mês passado, quando a AfD obteve o apoio de 44% dos eleitores. Seu principal candidato, Ulrich Siegmund, que nesta terça apareceu no Parlamento tomando café em uma caneca com a inscrição “lágrimas da esquerda”, deve ser eleito governador em dezembro.

Como nesta terça, sua confirmação terá como necessária referência o arco histórico com o nazismo. Será a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que a Alemanha terá um governo de extrema direita.
“Não vou exercer esse cargo como presidente de um grupo parlamentar, mas sim como presidente do Parlamento da Saxônia-Anhalt”, afirmou Rausch após sua eleição, prometendo evitar manobras regimentais e retaliações.

“Os tempos de ‘Brandmauer’ deveriam ser coisa do passado”, afirmou, referindo-se ao firewall, a prática de não negociar ou votar com a AfD que os partidos políticos adotam na Alemanha. É esse apelo de supostos tons democráticos que políticos da CDU local usam para justificar uma aproximação com a legenda populista.

Merz, no fim de semana, durante uma viagem surpresa a Kiev, reiterou que seu partido não trabalharia com a “extrema direita ou extrema esquerda”, alegando que isso prejudicaria a segurança da Alemanha. Falava da intenção declarada da AfD, e também da Esquerda, de retomar o diálogo com a Rússia em detrimento do apoio à Ucrânia na guerra.

A pauta tem um apelo popular, pois voltar a comprar gás russo supostamente diminuiria as contas de energia.

A dinâmica da política regional alemã, porém, é bem outra neste momento. Representantes da CDU se sentem encurralados por um governo Merz cada vez mais impopular e a adesão crescente dos eleitores à AfD. Preocupações ideológicas e o peso do passado ficam cada vez mais de lado.

Há duas semanas, a pequena Heidenau, na Saxônia, também virou notícia depois que a Câmara Municipal da cidade decidiu proibir as pedras de tropeço, homenagens a vítimas do nazismo, com votos da AfD e da CDU.

O partido de Rausch e Siegmund é classificado como uma sigla de extrema direita pelos serviços de segurança do governo alemão e tem integrantes e alas investigadas por discurso de ódio e neonazismo.

Com promessas populistas e reacionárias, o partido lidera as intenções de voto no país desde a última eleição federal, no começo do ano passado. Analistas creditam o sucesso da sigla mais à debilidade dos partidos tradicionais de centro do que a suas propostas, em boa parte inexequíveis.

T LB

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