Quinta-feira, 18/06/26

Garimpeiros avançam com escavadeiras sob linhão de Belo Monte, com risco de colapso

Garimpeiros avançam com escavadeiras sob linhão de Belo Monte, com risco de colapso
Garimpeiros avançam com escavadeiras sob linhão de Belo Monte, com – Reprodução

A atividade do garimpo em Curionópolis (PA), que fez o município virar notícia mundial nos anos 1980 com a Serra Pelada, agora ameaça derrubar uma das principais linhas de transmissão de energia do Brasil -o chamado linhão de Belo Monte.

São tratores, escavadeiras, caminhões e outras máquinas pesadas que, neste momento, avançam ilegalmente em barrancos de terras debaixo de torres que transportam energia por mais de 2.100 quilômetros de distância, ligando a amazônia ao Sudeste.

Imagens aéreas mostram o maquinário trabalhando livremente em um local proibido. A denúncia feita pela concessionária responsável pela linha afirma que a ação do garimpo já chegou a áreas sensíveis da estrutura e que pode comprometer a estabilidade de torres de transmissão.

Uma paralisação desse linhão tem o potencial de gerar um efeito cascata e causar apagão em diversos estados, dado o funcionamento integrado da rede de transmissão nacional.

A atuação do garimpo acontece a céu aberto em Curionópolis, no sudeste do Pará, numa área conhecida como província mineral de Carajás.

A reportagem teve acesso a detalhes de uma denúncia feita à Polícia Federal no fim de maio pela concessionária BMTE (Belo Monte Transmissora de Energia). A empresa também avisou representantes do setor elétrico sobre o caso.

Essa não é a primeira vez que esse tipo de risco é levado às autoridades. Anos atrás, a empresa já havia comunicado esse mesmo tipo de atividade clandestina debaixo de seus cabos. O problema, porém, retornou com força total.

Segundo a denúncia da BMTE, os responsáveis pela exploração mineral disseram inicialmente que não avançariam sobre a faixa de servidão da linha. Poucos dias depois, porém, equipes da empresa flagraram garimpeiros escavando diretamente sob a estrutura, com movimentação de escavadeiras e máquinas de grande porte.

“Eventual dano estrutural em empreendimento desta natureza extrapola a esfera patrimonial privada, podendo gerar consequências sistêmicas ao setor elétrico como o impedimento de funcionamento da linha de transmissão e colapso no Sistema Interligado Nacional”, afirmou a BMTE, em sua denúncia.

Para sinalizar a gravidade da situação, a empresa disse que, atualmente, “a exploração já alcançou áreas associadas aos sistemas de aterramento, podendo ter afetado o sistema de contrapeso da estrutura e dessa forma, há potencial risco de comprometimento estrutural” de ao menos uma torre.

“Mesmo após alertas prévios realizados pela equipe técnica da denunciante quanto aos riscos envolvidos e mesmo diante do compromisso anteriormente assumido de preservação da faixa, foi confirmado in loco que as atividades de garimpo permaneciam em pleno funcionamento”, disse a concessionária.

A BMTE detém o direito exclusivo de uso de área ocupada para operação da linha. A empresa, porém, não é proprietária dos terrenos, nem tem poder de polícia para retirar invasores ou impedir a entrada das máquinas.

Questionados sobre o tema, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República) e a BMTE não responderam até a publicação desta reportagem. A PF disse que não comenta investigações em andamento.

Também procurado pela reportagem, o Ministério de Minas e Energia afirmou que, “tão logo tomou ciência sobre a situação relatada pela concessionária, adotou providências para articulação com os órgãos competentes de fiscalização, controle e segurança pública”.

“Em razão do possível risco à infraestrutura crítica de transmissão de energia elétrica na região de Curionópolis/PA, o MME tratou o caso com prioridade, reiterando à Agência Nacional de Mineração [ANM] a solicitação de adoção das medidas cabíveis quanto à atividade mineral irregular e encaminhando solicitação de atuação à Polícia Federal”, disse a pasta.

A ANM afirmou que está analisando as informações encaminhadas pelos órgãos envolvidos. “A agência acompanha o caso em articulação com os demais órgãos competentes e adotará as medidas cabíveis no âmbito de suas atribuições legais, inclusive quanto à apuração de eventual atividade minerária irregular na área mencionada”, declarou.

A agência disse que “a exploração mineral sem o devido título autorizativo constitui infração à legislação mineral e que situações que possam representar risco a infraestruturas estratégicas do país exigem atuação coordenada dos órgãos de fiscalização, controle e segurança pública”.

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) disse que “não possui ativos de transmissão e não é o órgão responsável pela fiscalização” da rede. “O caso deve ser apurado com o concessionário responsável pelas linhas de transmissão e os órgãos fiscalizadores.”

A rede é uma das maiores obras de transmissão de energia já construídas no Brasil. Com cerca de 2.100 quilômetros de extensão, ela integra a hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, até a cidade de Estreito, em Minas Gerais. A rede é inédita no país, com 800 kV (quilovolts).

A malha foi construída pela chinesa State Grid e custou cerca de R$ 5 bilhões. Falhas nesse corredor já provocaram desligamentos de grande porte, incluindo um apagão em 2018 que afetou todas as regiões do país.

T LB

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