Em 15 de agosto, na volta de um jantar num restaurante de luxo na capital paulista, Giullia Falcão e Ivo Vel Kos discutiam dentro do carro. Eles iam para casa depois de encontrar alguns amigos do homem, empresário do sistema financeiro, e ele estava irritado com alguns comentários feitos à mesa pela companheira. Em meio à discussão, desferiu um soco na mulher, que estava no banco do carona. Seguiram-se novas agressões e ela chegou a se jogar do veículo em movimento e pedir socorro na rua. Ninguém a ajudou. Ele conseguiu levá-la de volta. Em casa, novas agressões, agora até por meio de um taco de beisebol.
Giullia ficou desfigurada. Os olhos ficaram roxos, as maçãs do rosto incharam e mesmo a mão, que usou como escudo, teve fraturas. Foi uma noite inteira de agressões. Ao final daquele dia, um casamento de quase cinco anos terminaria em um caso de agressão doméstica que repercutiu Brasil afora, inclusive com longa reportagem no Fantástico, a principal revista telejornalística do país. Giullia foi impedida de entrar na casa e só logrou recuperar seus pertences após decisão judicial. Ivo foi preso preventivamente três dias depois, e está encarcerado até hoje.
Quase dois meses depois, quando recebeu a reportagem num hotel em Brasília, Giullia ainda apresentava alguns hematomas da violência doméstica pela qual passou. “Alguns lugares ainda doem”, relata a mulher, ao mostrar o resultado dos socos e pontapés. Conforme diz, sua viagem à capital tem um objetivo: articular com parlamentares – eleitos ou reeleitos – outros mecanismos para proteger mulheres vítimas de violência. E, também, denunciar agressões verbais e contra a honra que tem sofrido por parte do que se aproxima perigosamente de milícias digitais, com ataques coordenados e palavras de baixo calão proferidas contra ela, seja na rua ou no ambiente virtual.
“Nenhum homem aguenta isso”
A influenciadora Tatiana Gorentzvaig começou a publicar stories em sua conta no Instagram no qual ridicularizava o caso. Em uma foto, usou duas linguiças suínas para simular os lábios da vítima e repetidamente a chamou de “boqueteira”, “interesseira” e fez alegações de que Giullia seria infiel. Tudo sempre seguido de falas como “eu jamais normalizaria uma agressão”. Ela chegou a postar para seus quase 500 mil seguidores as capturas de tela em que um homem não identificado alega que tinha relações sexuais constantes com Giullia.
“Nenhum homem aguenta isso”, alega a Gorentzvaig. Ela chega, inclusive, a dar relatos do dia das agressões: “ela chamou o marido de brocha na frente de todo mundo”, diz. Um detalhe importante: Tatiana não estava no jantar e não era próxima do casal.
“[Ela] tem espalhado ameaça, tem espalhado mentiras, tentado descredibilizar toda a minha história, minha carreira, é, falar que eu tenho algum envolvimento com prostituição. Tudo que eu faço sempre tem alguém me filmando, me seguindo e ela posta esses vídeos”, diz Giullia. “Eu acho que esse é o objetivo dela: crescer em cima de uma história triste, podia ter um fim trágico e assim, me denegrir, me ameaçar. É uma mulher que eu tenho medo de me perseguir”, relata. O Jornal de Brasília tentou contato com Tatiana Gorentzvaig, mas não recebeu retorno até a publicação deste texto.
Presidente da ONG Laço Branco, dedicada ao apoio a mulheres vítimas de violência doméstica, a advogada Patrícia Zapponi não se surpreende com o relato. “Culturalmente, historicamente, as mulheres são ensinadas a concorrer”, pontua. “Agindo dessa forma, ela tá agindo na corrente atual, das mulheres desclassificarem outras mulheres para serem aquela mulher que o dito macho hegemônico busca”, explica Zapponi. “Nós estamos falando de uma corrente red pill, de mulheres que têm esse posicionamento para ter uma ascensão de classe que muitas vezes não quer sair da zona de conforto”.
Medidas judiciais
Giullia alega que já entrou com representações para que Gorentzvaig seja proibida de citá-la ou mencionar o caso, que ganhou repercussão nacional. Em um dos vídeos – um dos quais motivou outro acionamento judicial -, a influenciadora menciona o caso de um suposto assassino em série que estaria atuando em São Paulo, esquartejando e acomodando partes dos corpos em sacos de lixo pelas ruas paulistanas. Diz ela, em seguida, que “só tem uma pessoa” a quem ela gostaria de matar e esquartejar.
Zapponi pontua que falas como essas já podem dar razão a medidas mais drásticas contra os atos praticados contra Giullia, que é baseado em uma histórica relação de superioridade masculina. “Isso é uma posição que vem do machismo estrutural. É uma questão histórica, uma questão cultural e educacional”, comenta. “Porém, quem está praticando, o ator dessa violência, dessa revitimização, está passível de dano moral, está passível de ter uma medida protetiva”, finaliza.








