Sexta-feira, 17/04/26

Julgamento de chacina em Planaltina ouve testemunhas no segundo dia

Julgamento de chacina em Planaltina ouve testemunhas no segundo dia
Julgamento de chacina em Planaltina ouve testemunhas no segundo dia – Reprodução

O segundo dia do julgamento dos cinco acusados pela “Chacina do Distrito Federal” contou com o depoimento do delegado Ricardo Viana, responsável pela investigação que apontou os réus como autores do assassinato de 10 membros de uma mesma família. Nesta terça-feira, também prestaram depoimentos os filhos de Elizamar Silva, Ivonilson da Silva Campos e Eduarda da Silva Campos. As sessões ocorrem no Tribunal do Júri de Planaltina e a previsão é que a audiência se estenda até esta sexta-feira.

Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva são os acusados de cometer diversos crimes. Eles poderão responder por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menores.

O quinteto está por trás das mortes de Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54 anos (patriarca); Renata Juliene Belchior, 52 (esposa de Marcos); Gabriela Belchior de Oliveira, 25 (filha do casal); Thiago Gabriel Belchior de Oliveira (filho do casal); Elizamar da Silva (esposa de Thiago); Rafael, 6 anos, Rafaela, 6, e Gabriel, 7 (filhos de Thiago e Elizamar); Cláudia da Rocha Marques (ex-mulher de Marcos); e Ana Beatriz Marques de Oliveira (filha de Marcos e Cláudia).

Os depoimentos do 2º dia

No primeiro dia, seis testemunhas deram seus depoimentos. Nesta terça-feira, mais 16 pessoas estavam previstas para depor. Até o fechamento desta edição, nove testemunhos foram dados ao longo do segundo dia de oitivas.

Marcos foi o primeiro a ser morto com um tiro na cabeça, como confirmou o delegado Ricardo Viana na oitiva do julgamento nesta terça-feira. Em seu depoimento, Ricardo afirmou que o corpo da vítima foi esquartejado em nove pedaços e colocado em uma cova.

O delegado ressaltou que a motivação dos crimes foi econômica. Ele também comentou sobre uma discussão entre Carlomam e Fabrício, que aconteceu no retorno do extermínio de Elizamar e das crianças. Ainda segundo o delegado, embora Carlomam tenha entrado mais tarde no grupo criminoso, foi identificado que ele tinha uma posição de liderança de acordo com mensagens trocadas por eles. “Ele aparece depois na investigação quando Fabrício o identifica. Eles precisavam de um braço operacional, mas nas mensagens transcritas, ele age como líder.”

Ainda segundo o depoimento de Ricardo, Carlomam havia mencionado que as vítimas seriam liberadas inicialmente. O delegado relatou a fala do acusado: “O Carlomam falava que o Gideon e o Horácio falavam que as vítimas iam ser soltas. Só que começou a morrer todo mundo.” Ricardo Viana também reforçou que Carlomam se entregou: “Ele falou: eu errei e precisava pagar por isso.” Carlomam teria se oferecido para falar com a imprensa, mas Ricardo o orientou que a situação não seria favorável para ele.

Durante o depoimento, o delegado detalhou a dinâmica financeira por trás da execução do crime. O investigador relatou que Carlos Henrique foi atraído com a promessa inicial de R$ 5 mil reais, mas acabou recebendo apenas R$ 2 mil, chegando a cobrar o restante do grupo. Ainda dentro da dinâmica financeira, após Gideon ameaçar o menor que estava com os executores, Carlomam teria sido o responsável por convencer o adolescente a não procurar a polícia. “O Miguel fugiu e o Gideon estava com medo de ele procurar a polícia para falar o que estava acontecendo. O Carlomam o persuade para não falar e entrega o celular dele e dois mil reais para ele ficar calado”, pontuou.

Ele depôs ainda que as vítimas Renata e Cláudia suportaram mais de 18 dias em cárcere privado antes de serem executadas. De acordo com Ricardo, Gideon declarou que elas estavam tranquilas: “Ele falou: até deixei elas verem a posse presidencial.”

Novo testemunho

A defesa dos acusados solicitou que o delegado seja mantido à disposição para um eventual novo depoimento, com base no artigo 476, parágrafo 4º do Código de Processo Penal. A Justiça determinou que a autoridade policial permaneça disponível para ser ouvida novamente após a fase de debates e os interrogatórios dos réus. O delegado não ficará recluso, mas deverá estar acessível caso surjam novos fatos que exijam esclarecimentos.

Outros depoimentos

A compradora do imóvel de Cláudia Regina, Maria Alexandre do Pilar Franco, prestou depoimento sobre a negociação fechada em dezembro de 2022 por R$ 200 mil. “Pagamos 79 mil em espécie e o restante fizemos transferência bancária.” Ela relatou que, no dia do pagamento em cartório, Marcos estava presente com Cláudia. Maria destacou que o último contato pessoal com a vendedora ocorreu em 2 de janeiro de 2023, quando Cláudia e a filha, Ana Beatriz, ainda estavam na residência.

Ela descreveu que, quando o contato foi abruptamente cortado, estranhou e continuou tentando falar com a vendedora. A estranheza aumentou no dia da entrega das chaves, em 7 de janeiro, quando recebeu mensagens de texto do celular da vítima, que a investigação aponta terem sido escritas pelos executores para simular normalidade. Ao visitar o imóvel, encontrou dois homens retirando pertences e identificou um deles como o réu Fabrício Silva Canhedo. “Terminaram de retirar algumas coisas e eles entregaram as chaves para a gente”, disse.

Jefferson Mendes Oliveira Alves, que namorava Gabriela na época, trouxe detalhes sobre como os réus mantiveram a aparência de normalidade. Jefferson contou que se sentiu mais tranquilo no momento por causa de áudios enviados pelo celular da namorada. “A Gabriela e a Renata chegaram a me mandar áudio dizendo que estava tudo bem e o Thiago me informou que tinha ligado para o Gideon, que disse que lá estava com problema de sinal, mas que todos estavam bem.”

Os filhos de Elizamar, Ivonilson da Silva Campos e Eduarda da Silva Campos, também depuseram nesta terça-feira. Eduarda destacou que recebeu mensagens de Thiago na época, mas não acreditou. “Tentei puxar a localização do celular da mãe pelo e-mail e estava dando perto de uma BR no Itapoã”. No desespero, ela chegou a culpar Thiago pelo desaparecimento de Elizamar. Ela se emocionou ao contar que foi até o carro onde as vítimas foram encontradas e viu os corpos. 

Ao JBr, a sobrinha de Renata Belchior, Meiryelle Belchior, contou que familiares assistem aos depoimentos em busca de justiça. Para ela, estar no julgamento é reviver o horror. “É como se a gente tivesse vindo ao enterro deles novamente. Nada vai trazer eles de volta, por isso o que a gente quer é só justiça”, reforçou. Meiryelle relatou a ansiedade de estar na presença dos acusados: “Dá uma tremedeira, a gente fica em uma ansiedade sem fim.”

A chacina

A investigação se iniciou em janeiro de 2023, após o desaparecimento de Elizamar Silva e seus três filhos. As apurações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) revelaram um plano motivado por ganância, resultando no assassinato de dez pessoas. Através de emboscadas, o grupo manteve as vítimas em um cativeiro em Planaltina, onde sofreram extorsão antes de serem executadas. Os corpos foram encontrados em locais diferentes entre o DF e Goiás, alguns carbonizados dentro de veículos.

T LB

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