Terça-feira, 14/04/26

Kombi branca é o ponto de apoio para lavador de carros que trabalha há 16 anos na Asa Norte

Kombi branca é o ponto de apoio para lavador de carros que trabalha há 16 anos na Asa Norte
Kombi branca é o ponto de apoio para lavador de – Reprodução

Por Giovanna Torres
Agência de Notícias CEUB

É estacionada ao lado de uma pequena pracinha, sob a sombra das árvores de uma quadra residencial na Asa Norte, que há mais de 16 anos fica uma kombi branca. O veículo já se confunde com a paisagem da quadra 209, na Asa Norte. O nome dela é Joel Vieira de Lima, de 60 anos. O homem divide os dias entre lavar carros e ocupar uma das mesas de concreto, sempre com sua garrafa de café.

A pracinha tem três mesas de xadrez, cada uma cercada por quatro bancos. Ao longo do dia, o sol avança sobre o espaço, mas é na mesa mais próxima da kombi que a sombra resiste. É ali que Joel costuma ficar. Às vezes, sozinho, muitas vezes acompanhado. Perto da kombi, um tambor azul d´água completa a cena. Para quem passa, tudo parece parte fixa da quadra.

A rotina começa cedo. Às 6h30, Joel acorda na região administrativa do Itapoã (DF), onde mora com a esposa, prepara o café e dirige cerca de 25 quilômetros até a Asa Norte, repetindo um caminho que há mais de uma década já faz parte da sua história. Joel trabalha das 8h às 17h.

Da portaria ao lava-jato

Antes da kombi, foi ali mesmo, na 209 Norte, que Joel trabalhou por 14 anos como porteiro. Foi nesse período que conheceu boa parte dos moradores, construindo um ciclo de relações que mantém até hoje.

Durante nossa conversa, ele se refere aos personagens de suas histórias sempre pelo bloco onde moram: “Pedro do bloco A”, “a juíza do bloco E”, “o empresário do bloco B”. 

Foi também na portaria que, entre revistas e jornais deixados pelos moradores, que Joel começou a construir o que chama de seu “conhecimento intelectual”.

Na época, a lógica era simples: “não tô passando fome, tá bom”. Foi só anos depois que ele decidiu mudar de rumo. Com cerca de R$ 14 mil recebidos de uma indenização trabalhista, decidiu investir no próprio negócio. Comprou a kombi e passou a trabalhar por conta própria.

No começo, ia para o meio da rua chamar clientes. Como muitos moradores já o conheciam da portaria, a confiança veio junto, e com ela, os primeiros carros.

Joel diz que o único arrependimento é não ter começado antes. “Tudo que eu tenho foi graças ao lava-jato: minha casa, meu carro, a criação dos meus (três) filhos”, afirma.  Hoje, Joel lava em média seis a sete veículos por dia durante a semana. A lavagem custa a partir de R$ 35.

Quando a gente não tem muito estudo, a vida vai ensinando”

Nascido em 1966, no Maranhão, Joel teve uma infância que define como sofrida. Filho de mãe solo, que o criou junto aos seus nove irmãos, foi criado entre o Maranhão e o Piauí. O pai abandonou a família quando Joel ainda era criança. Foi no Piauí que conheceu a esposa. Anos depois, mudou-se para Brasília em busca de melhores oportunidades.

Uma das lembranças mais marcantes da juventude é a morte da mãe. Joel evita o assunto e ao mencioná-lo, leva as mãos ao rosto, com os olhos já lacrimejando. Tinha 18 anos quando soube que ela estava doente, em São Paulo.

Impacto

Ligava para ela de telefone “de ficha”, mas sua mãe lhe dizia que não podia atender sem explicar o motivo. Quando percebeu que ela não atendia mais, viajou para São Paulo. Encontrou-a muito debilitada. Três dias depois, ela faleceu, aos 49 anos.

A mãe começou a trabalhar muito cedo. “Talvez não tenha sido de trabalho porque trabalho não mata ninguém. Talvez tenha sido de sofrimento”, reflete.

Ele não sabe exatamente o que aconteceu. “É aquela história, né? Se você não tem uma boa condição financeira para procurar bons médicos e descobrir o que você tem, você termina falecendo.”

Mesmo sem ter concluído os estudos, ele diz que aprendeu com a vida. Joel tentou voltar a estudar por volta dos 40 anos, mas desistiu. “Prefiro aprender o que me serve”, diz. Ele afirma gostar de lidar com pessoas e acredita que sua vocação está no contato direto com os outros.

Velhos conhecidos

Essa relação com os clientes é parte central do seu trabalho. Ao longo dos anos, tornou-se alguém com quem muitos moradores conversam e desabafam.

“As pessoas se abrem comigo”, conta.

Ele se lembra de um empresário que frequentava o local e que, ao ser questionado se era feliz e se o dinheiro valia a pena, o homem disse que gostava de conversar com Joel justamente porque ninguém lhe fazia esse tipo de pergunta.

Mesmo moradores que se mudaram continuam voltando à quadra para lavar o carro com ele. Um desses clientes, hoje dono de uma Porsche, segue frequentando o lava-jato. “Eu me sinto lisonjeado. Geralmente eles procuram pessoas do mesmo nível, né?”, comenta.

Kombi roubada

Materiais que estavam na kombi já foram roubados, causando um prejuízo de mais de R$ 9 mil. Em oito dias, com a ajuda dos moradores da quadra, Joel conseguiu se reerguer. Ele conta, animado, que recebeu transferências de pessoas de outros estados, como São Paulo e Belo Horizonte.

Moradora da 209 Norte há mais de 40 anos, Ana Paula conta que começou a deixar o carro com Joel pouco antes da pandemia. “Sempre via a kombi estacionada”, diz. Ela está acostumada às longas conversas dele.

A escolha veio pela praticidade, pela confiança e pela qualidade do serviço. Ela ri ao lembrar que Joel guarda tão bem a chave que às vezes até esquece onde colocou. Segundo ela, ele sempre dá um jeito de atender, mesmo quando está ocupado.

“Ele é conhecido pela quadra inteira. Adora bater papo, se você deixar, ele não para. Fala de tudo: religião, trabalho, clima.”

Liberdade no trabalho independente

Joel diz gostar da liberdade que encontrou no trabalho autônomo. “Eu me sinto livre”, afirma. Para ele, trabalhar ao ar livre, debaixo das árvores, é um privilégio. Às vezes, você pode dizer, esse cara é meio doido, mas pra mim esse é o melhor lugar do mundo”

No tempo livre, frequenta a igreja e dedica-se à pregação do evangelho, atividade pela qual diz ter se apaixonado após ler a Bíblia.

“O que me prende aqui é que eu não vou atrás do dinheiro. Ele que vem atrás de mim. Eu só não ganho dinheiro se eu não vier trabalhar. Não é porque você tá aqui não, eu gosto muito do que eu faço. Gosto de trazer meu café, de conversar.”

Planos futuros

A kombi, no entanto, já não funciona. O motor parou há anos, e o veículo nunca mais saiu do lugar. Ainda assim, continua sendo peça central do trabalho de Joel, já que é ali que ele armazena água e os equipamentos que usa no dia a dia para fazer a lavagem.

Aos 60 anos, idade que considera uma conquista, ele comemora. “Me sinto honrado de estar completando 60 anos de vida. Venho de uma família em que muitos não chegam nessa idade. Eu me sinto honrado de chegar até aqui com saúde e ao lado das pessoas que eu amo.”  

Aposentadoria

Joel já pensa no futuro. Pretende se aposentar em cerca de cinco anos, mas não quer deixar a quadra. Planeja continuar no mesmo espaço onde passou as últimas décadas, mas desta vez, para pregar.

Parada sob a sombra das árvores, a kombi branca já se tornou parte da paisagem da 209 Norte. Mais do que um carro antigo, é o ponto fixo de uma história construída ao longo dos anos e que, mesmo quando o trabalho terminar, ainda deve permanecer ali.

T LB

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