JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS
Nigel Farage está de volta ao Parlamento britânico após obter pouco mais de 60% dos votos na eleição distrital de Clacton, um balneário no sudeste da Inglaterra. A notícia, porém, é que 27% dos eleitores que se dispuseram a participar do pleito preferiram Count Binface, um candidato que se apresenta com uma lata de lixo na cabeça.
Pressionado por uma onda de denúncias, o líder de ultradireita do Reform UK renunciou ao mandato no mês passado para, em suas palavras, “derrotar o establishment”. A ideia era desmoralizar revelações da imprensa britânica que minaram sua popularidade nas últimas semanas: uma doação não declarada de £ 5 milhões (R$ 34 milhões) de um bilionário de criptomoedas e favores financeiros de um amigo condenado por fraudes.
Farage, no entanto, acabou se tornando alvo de um monte de piadas e comentários em redes sociais, invariavelmente associadas a latas de lixo (“bin”, em inglês). Mais do que isso, viu seu partido perder a primazia das pesquisas de opinião para os trabalhistas, em um impulso de largada para o novo premiê, Andy Burnham.
Boicotado pelos grandes partidos, que se recusaram a participar do “circo de mídia” pretendido por Farage, o pleito acabou atraindo um número recorde de interessados, entre nanicos e candidatos fantasiados ou de paródia, como são chamados no país.
Clacton, reduto eleitoral do populista, um dos distritos que proporcionalmente mais deram votos ao brexit, em 2016, nunca tinha visto uma cédula tão grande, com 34 nomes e 90 cm, como nesta quinta-feira (13).
Um recorde também na política britânica, que mereceu o protesto silencioso de um eleitor, mostrado em imagem da apuração publicada pelo jornal The Guardian: “Que desperdício vergonhoso de dinheiro”.
Com tanto papel para lidar, os mesários avançaram noite adentro para concluir a apuração. Na madrugada desta sexta-feira, a proclamação do vencedor, uma tradição no país, foi dominada por Binface, já que Farage se recusou a participar da cerimônia.
“Não vou de jeito nenhum subir a um palco, após obter uma vitória acachapante, para ser rebaixado e humilhado por um bando de desconhecidos”, disse Farage a apoiadores durante uma festa, antes do anúncio do resultado.
O conselho, segundo o político, veio da polícia local, que teria informações sobre um suposto plano para constrangê-lo. Desculpa ou não, atitude bem diferente da de Burnham, que, em junho, venceu sua eleição distrital, em Makerfield, segurando o riso ao posar para os fotógrafos entre Binface e um ativista vestido de raposa.
“Perguntei à polícia de Essex se havia alguma ameaça crível de perturbação aqui. Responderam inequivocamente que não, que era seguro seguir em frente”, disse Binface, ironizando a ausência do adversário.
Em Makerfield, distrito da Grande Manchester, no noroeste inglês, o líder dos Recyclons, de 5.900 anos, personagem criado pelo comediante Jon Harvey, recebeu 95 votos. Agora, contra Farage, foram 9.455, o que faz o homem com a lata de lixo na cabeça já pensar no próximo pleito.
“Vamos todos nos encontrar para a segunda parte da eleição suplementar de Clacton, que acontecerá em breve em um centro de lazer perto de você”, declarou Binface, dono de uma campanha divertida, que promete punir quem faz barulho ao comer no cinema ou usa o viva-voz do celular no transporte público.
Uma nova eleição local terá que ser organizada se Farage for punido pela Comissão de Ética do Parlamento e mais de 10% dos eleitores de Clacton assinarem uma petição para cassar seu mandato. As investigações sobre o caso, suspensas após a renúncia, foram retomadas horas após o parlamentar ser declarado eleito, nesta sexta-feira.
Dois episódios estão sob escrutínio da Casa. Christopher Harborne, empresário radicado na Tailândia, deu £ 5 milhões a Farage em 2024, quando ele ainda não era parlamentar; George Cottrell, condenado por fraude, usou uma conta da própria mãe para transferir £ 500 mil ao Reform UK, além de ter emprestado um de seus imóveis em Londres ao populista, entre outros favores.
Farage alega que não tinha obrigação legal de declarar as doações, mas a explicação meramente técnica, ainda mais diante dos nomes envolvidos, não foi considerada suficiente pela imprensa e por boa parte da opinião pública.
Pesquisa de intenção de voto do YouGov, publicada nesta semana, mostra que os trabalhistas estão numericamente à frente do Reform UK pela primeira vez desde março de 2025, com 24% das preferências contra 22% da sigla rival, que defende deportações em massa, entre outras bandeiras comuns à ultra e à extrema direita europeia.
Há três meses, a situação era tão diferente que o partido de Farage saiu das urnas de eleições locais com uma vitória acachapante. O resultado colocou o então premiê, Keir Starmer, na berlinda, e o histriônico propagandista do brexit como favorito nas eleições gerais de 2029.
Starmer acabou renunciando para que os trabalhistas buscassem a recuperação eleitoral com um novo governo. Farage, até aqui, está facilitando a tarefa.








