Domingo, 10/05/26

mãe de Ketleyn Quadros fez da luta medalhas olímpicas

mãe de Ketleyn Quadros fez da luta medalhas olímpicas
mãe de Ketleyn Quadros fez da luta medalhas olímpicas – Reprodução

Em Ceilândia Sul, uma família mostrou que através da luta é possível realizar sonhos e conquistar feitos históricos para o Brasil. Rosemary Lima, hoje com 59 anos, de pais vindos de outras regiões do país, nasceu no hospital do Gama e cresceu na Vila IAPI, um local de ocupação que abrigava milhares de trabalhadores do Distrito Federal. O tempo passou e ela se mudou para Ceilândia, onde teve, aos 20 anos, a sua filha mais velha, Ketleyn Quadros.

Cabeleireira, ela criava aquela criança agitada através dos trabalhos no salão. Para gastar toda a energia de sua menina, aos sete anos, a colocou para fazer esporte e, após enfrentar a fila do SESI, a inscreveu na natação. Porém, mesmo deixando a sua filha com quase uma hora de antecedência, ela sempre chegava no limite do horário e isso a chamou atenção. O motivo? O judô.

“Eu via todo mundo de kimono , me chamava atenção e eu comecei a chegar em cima do horário das aulas de natação, porque eu me perdia assistindo as aulas de judô”, disse Ketleyn.

Foi então que Rosemary conversou com a filha, e ela começou a praticar os dois esportes. Mas, quando ela entrava no tatame, não queria sair mais. Única menina na aula de judô, a mãe tinha medo dela se machucar, mas para Ketleyn foi paixão à primeira vista, e por ali ficou. E a brincadeira que era para gastar energia virou algo sério e mesmo com pouca idade, ela já sabia o que queria ser.

“Na escola que ela estudou eles fizeram uma redação com o tema: o que você vai ser quando crescer? aí ela falou para a professora que queria ser uma atleta importante para o Brasil. Aí a professora perguntou: mãe, ela faz o que? e eu disse, judô”, relatou Rosemary.

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Rosemary Lima, mãe de Ketleyn Quadros

HUGO BARRETO / METRÓPOLES
@hugobarretophoto

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A judoca cresceu em Ceilândia Sul

Arquivo pessoal

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Ketleyn Quadros quando criança

Arquivo pessoal

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Ainda pequena, ela se encantou pelo judô

HUGO BARRETO / METRÓPOLES
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O sacrífico do atleta

A história de Ketleyn com o esporte cresceu, participou de competições e o quadradinho ficou pequeno para o seu sonho. Com pouca estrutura em Brasília e o aumento das despesas, com kimono e viagens, que ficavam caras para a sua mãe, a judoca, com 17 anos de idade, se mudou para Belo Horizonte, e começou a treinar com o Minas Tênis Clube. Mesmo com o aperto no coração da mãe e o conhecimento de que ela teria que abdicar do convívio próximo com a família, ela embarcou na aventura e traçou o seu objetivo.

“Assim que eu terminei meu ensino médio, eu já acompanhava as Olimpíadas, eu lembro de ver o Leandrinho (Guilheiro) e o Flávio Canto ganhando medalha em Atenas (2004). E quando eu vi isso eu fiz um cálculo e falei: já pensou, daqui a quatro anos, eu teria 20 e ganharia a medalha igual ao Leandrinho, que conquistou com 21″, contou a judoca.

E assim aconteceu. Após ir para Minas Gerais, ela treinou, competiu e se classificou para as Olímpiadas de 2008, em Pequim, onde teria a oportunidade de conquistar a medalha que sonhou.

Medalha histórica e vaquinha

No Distrito Federal, Rosemary vibrou com a conquista da filha e pensou em ir à China para a acompanhar. Porém, sem dinheiro para isso e afastado do trabalho pelo nascimento de sua caçula, viu o seu objetivo se afastar.

“Eu falei: não tenho condição de ir não, não tenho dinheiro para isso, eu quase nem ia visitar a Ketleyn lá em Minas, eu ia de vez em quando, com a minha amiga, que me dava carona. A gente ficava quase cinco meses sem se ver”, relatou Rosa.

Mas, o final não foi triste. Ao comentar a situação com a madrinha da judoca, elas começaram uma vaquinha com as pessoas próximas e a viagem começou a se tornar real. Rosemary e Ketleyn contam o que aconteceu após isso e se a viagem à China aconteceu.


Roupa da sorte

Para Ketleyn, todas as vezes que a sua mãe ia a ver competir, que eram poucas ocasiões, a pressão aumentava e ela se sentia nervosa, porém, após o bronze, que a marcou como a primeira atleta do Brasil a conquistar uma medalha olímpica em esportes individuais, Rosa virou o seu amuleto. Mas não era só a presença dela, mas também a roupa da sorte, presente nas conquistas da esportista.

“Eu gosto muito de verde, e antes de se encontrar com ela, antes das viagens, eu estava andando em uma feirinha em Belo Horizonte e encontrei um vestido verde, bem bonito. Aí eu falei assim: mãe, já comprei a roupa da senhora quando você for me assistir. Então, mesmo não sabendo como ela faria isso, eu incentivei. E virou a roupa da sorte, mas a sorte mesmo era ela”, explicou a atleta.

Além da Roupa, Rosa também demonstra o apoio de outra forma. Desde 2008, inspirada mais uma vez em uma ideia da madrinha de sua filha, ela estendeu uma faixa na porta de sua casa e contava a todos que por ali passavam que a sua menina mais velha estava nas Olímpiadas. Com a frase escrita, torcida organizada e camisas com o feito, ela torcia.

Por ela

Além dos jogos olímpicos de 2008, Ketleyn Quadros participou de outras duas edições, em Tóquio, realizado em 2021, e onde não teve apoio presencial devido à pandemia, e em Paris, em 2024, quando, antes de se classificar, quase pensou em se aposentar.

Em janeiro de 2024, Rosemary perdeu a sua mãe, avó da judoca, foi aí que a atleta, já com 36 anos de idade, pensou em parar a sua carreira e enfim se dedicar a família. Mas, o pensamento mudou diante de uma situação.

“Eu estava meio desanimada, rezando para papai do céu e falei: se foi, foi, eu estou muito grata, obrigada. Aí quando eu vi minha mãe fazendo a oração (em Aparecida), ela levou uma foto, uma carta, na hora eu percebi que não era por mim. Se tratava dela, por ela”, contou a esportista.

Então, Ketleyn, aos 36, considerada acima da idade por algumas pessoas, se classificou para as Olímpiadas de Paris e conquistou mais uma medalha de bronze, desta vez por equipes mista, mais uma vez com a sua mãe presente.

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Ketleyn Quadros conquistou duas medalhas olímpicas

Arquivo pessoal

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Equipe de judô nas Olímpiadas de 2008

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Ao todo, Ketleyn participou de três Jogos Olímpicos

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Rosemary pendurando o quadro da filha com as medalhas olímpicas

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Mulheres guerreiras

De uma menina agitada para uma medalhista olímpica, de uma criança que dava os seus primeiros golpes no judô para um referência da cidade. Rosemary comentou que além da felicidade de seus vizinhos, a sua filha também serviu como inspiração para um caminho de sucesso em meio ao um cenário onde os jovens se perdem.

“Os vizinhos aqui ficaram muito felizes, orgulhosos, porque a gente se vê perdendo muitos jovens para o vício, mas ela superou tudo isso”, contou a cabelereira.

Para a judoca, o outro lado não existia, pois de acordo com ela, as suas inspirações, ou como ela mesmo chama, as mulheres guerreiras, a ensinaram a lutar. Mais velha, a atleta olhou para trás e percebeu a realidade que vivia, mas que através das batalhadoras que a circundavam, elas, segundo Ketleyn, superaram as probabilidades.

“Eu chamo elas de mulheres guerreiras porque é vencer as estatísticas, desde de cedo a gente já fazia isso. E como eu nunca soube do outro lado, isso para mim sempre foi normal. Eu nunca soube o oposto de lutar pelas coisas que você acredita”, disse a atleta.

De: Mãe. Para: Filha

Para Rosemary Lima, ser mãe é participar, cuidar, criar, confiar e acompanhar, é estar presente nos momentos bons e ruins. E ela fez isso com a Ketleyn, estando presente mesmo do outro lado do mundo.

“Ser mãe da Ketleyn é bastante emocionante, porque ela me faz passar por muitas emoções, desde pequeninha. Eu fui crescendo junto dela”, declarou ela.

De: Filha. Para: Mãe

Para Ketleyn Quadros, ser filha da Rosemary, conhecida como Rosa, é expansão, é ser um pouco dela, da luta ao sorriso, é colocar excelência no que for fazer, é um privilégio.

“Eu não poderia ter uma mãe melhor. Se existe outra vida, eu escolheria ela infinitas vezes”

Neste domingo (10/5), se celebra o dia das mães, e a judoca não ficou de fora e mandou uma mensagem especial:



T LB

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