FERNANDA MENA
FOLHAPRESS
Menos mulheres negras, mais homens brancos. Esse é o retrato das candidaturas jovens ao Legislativo nas eleições de 2026, que interrompem, ao menos no retrato preliminar, uma trajetória de maior diversidade entre aspirantes de até 29 anos aos cargos de deputado estadual e federal.
Depois de três eleições próximas da paridade entre homens e mulheres, elas passaram a representar 40,5% dos registros de candidaturas jovens ante 49,1% em 2022. O equilíbrio do último pleito atravessava o espectro ideológico. Em 2022, mulheres eram 51% das candidaturas jovens da esquerda e 48,3% daquelas da direita. Agora, são 46,7% à esquerda e 37,5% à direita.
A queda da participação feminina entre os jovens faz com que o perfil dessas candidaturas se aproxime daquele do conjunto de candidatos, em que mulheres passaram de 34% das candidaturas em 2022 para 35,3% em 2026.
O movimento ocorre ao mesmo tempo em que um novo partido entra com força na disputa. O Missão, em sua primeira eleição, concentra 178 dos 912 registros de candidaturas jovens identificados pelo Monitor Jovem DX, projeto que acompanha candidaturas jovens em plataformas digitais. O Missão tem 19,5% do total de candidaturas jovens registradas no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e 70,8% desses candidatos da legenda são homens.
“A estreia do Missão é uma das principais novidades da disputa em 2026 e chama a atenção pela forte presença de jovens no partido”, afirma Beatriz Besen, coordenadora do Monitor Jovem DX e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Psicologia Política e Movimentos Sociais (Nupmos), da PUC de São Paulo.
O projeto foi desenvolvido pelo Instituto Democracia em Xeque em parceria com o Nupmos, com apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil, e seu primeiro relatório analisou dados do TSE extraídos do Portal de Dados Abertos no último dia 3 de setembro.
Segundo Besen, o desequilíbrio criado pela chegada do Missão integra uma mudança mais ampla no perfil das candidaturas jovens.
Na combinação entre gênero e raça, o quadro também se alterou bastante em relação ao pleito de 2022. Mulheres negras caíram de 28,7% para 21,3% das candidaturas jovens, enquanto homens brancos passaram de 26,2% para 30,8% e voltaram a ser o maior grupo. Homens negros avançaram de 23,9% para 28%, ficando atrás apenas de homens brancos, enquanto mulheres brancas recuaram de 19,8% para 18,1%, como grupo com menor representação entre candidaturas jovens.
Para a antropóloga Elisa Guaraná de Castro, professora titular da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a mudança rompe uma tendência de aumento da participação feminina.
“É bem evidente que a entrada com mais força dos partidos de direita e extrema direita está impactando na antes crescente participação de mulheres jovens como candidatas”, afirma. “São candidatos que têm domínio das redes e agendas nacionais reacionárias que começam a ganhar mais peso na disputa pós-bolsonarista.”
O Missão desbancou o PSOL, que liderou o número de candidaturas jovens em 2014, 2018 e 2022. O partido, que teve 121 registros jovens em 2014, tem agora 52.
Para Guilherme Cortez, 28, deputado estadual e candidato a deputado federal por São Paulo pelo PSOL, o movimento não representa necessariamente desinvestimento do partido na juventude, mas uma estratégia mais deliberada da direita para disputar a geração mais nova.
“A direita tem apostado numa renovação geracional, com perfil específico de meninos jovens, semelhante ao do Nikolas Ferreira (PL-MG)”, afirma.
A diversificação observada até 2022 já encontrava dificuldade para chegar aos mandatos. Entre 2014 e 2022, a participação das mulheres entre os jovens eleitos subiu de 9,4% para 37,5%, e a de mulheres negras passou de zero para 14,6%. Ainda assim, em 2022, pessoas brancas eram 68,8% dos jovens eleitos e homens brancos, 45,8%.
“O aumento da diversidade entre as candidaturas jovens observado entre 2014 e 2022 se refletiu de forma limitada entre os eleitos”, afirma Besen. “As desigualdades na chegada aos mandatos, portanto, persistem, especialmente na dimensão racial.”
Segundo Besen, ganham espaço trajetórias ligadas ao ativismo e a movimentos políticos, além de lideranças, majoritariamente das direitas, cuja projeção também foi construída nas redes sociais.
Cortez identifica nas redes sociais uma das ferramentas dessa disputa geracional. “Existe um divórcio de gênero na disputa dessa geração, e a extrema direita faz esforço concentrado nesses meninos mais novos”, afirma.
Vitor Antoun, 26, influenciador e candidato a deputado federal pelo Missão no Rio de Janeiro, vê sua entrada na política como continuidade de sua atuação digital. Ele mantém um canal no YouTube sobre seu ingresso na política.
O candidato diz que a “liderança do Renan [Santos, candidato à Presidência da sigla]” pesou na sua escolha. “Eu acredito na visão de Brasil, no diagnóstico e na construção partidária que está sendo formada. É uma orientação ideológica, que tem disciplina e hierarquia.”
Sobre a predominância masculina, afirma que o partido “é totalmente aberto a mulheres” mas que “a política é um ambiente hostil, e ser mulher na política é difícil mesmo”. Além disso, Antoun diz acreditar que o partido, “por ser uma coisa de contracultura, acaba privilegiando a seleção do sexo masculino”.
“Movimentos pioneiros tendem a ter maior desigualdade. Os punks, por exemplo, eram quase todos homens”, compara.
Já para Dany Oliveira, 28, estudante de artes cênicas na USP e candidata da UP a deputada federal por São Paulo, a perda de espaço das mulheres e das mulheres negras está ligada às condições materiais de participação política. Militante do movimento estudantil, ela afirma que precarização do trabalho, responsabilidades familiares e falta de tempo atingem especialmente jovens negras.
“O aumento dos preços de tudo e da ideologia fascista para cima dos direitos das mulheres e da juventude negra também justificam um pouco este cenário”, diz. “São pessoas que estão presas em uma situação econômica que as faz pensar em sobrevivência como prioridade número um, e ficam sem oportunidades de engajamento político.”
Para ela, o aumento da violência de gênero é outro fator que afasta mulheres da vida pública. “É tanto machismo na sociedade que, se você não tiver clareza de por que está cumprindo este papel, fica complexo manter a cabeça erguida e ir para rua fazer a disputa”, avalia. “Nunca fui tão chamada de burra como tenho sido fazendo campanha”, desabafa.
Para ela, existe “o imaginário de quem deve e pode ser político no país: homem, branco, cisgênero e rico”. “Essa é uma disputa com o imaginário coletivo de quem deveria estar na política.”
A juventude já ocupa uma parcela pequena da disputa. Os 912 registros correspondem a 4,7% das candidaturas ao Legislativo em 2026, enquanto pessoas de 16 a 29 anos representam 21,55% do eleitorado. Entre 2014 e 2022, a participação de jovens entre as candidaturas aptas caiu de 6,2% para 4,6%.
O retrato de 2026, porém, ainda pode mudar porque parte dos 912 registros do último dia 3 de setembro poderá ser indeferida pelo TSE ou sofrer alterações.
Se o desenho atual se confirmar, 2026 terá produzido uma inflexão importante: a juventude que havia se aproximado da paridade de gênero e da diversificação racial chega à disputa mais masculina, com menor participação relativa de mulheres negras e maior peso de homens brancos. Ao mesmo tempo, a esquerda perde a liderança histórica nas candidaturas jovens e a direita, com o Missão à frente, passa a disputar de forma mais organizada esse público.








