Nosso convidado desta edição do JBr Entrevista é o ex-governador de Goiás, por quatro mandatos, Marconi Perillo. Um dos principais nomes da história do PSDB, ele tenta pela quinta vez assumir o Palácio das Esmeraldas, após o período da gestão do agora presidenciável Ronaldo Caiado.
À nossa equipe, ele falou dos planos para o desenvolvimento tecnológico do estado e da gênesis da política de segurança pública goiana, uma das principais bandeiras levantadas pelo ex-governador do Estado em sua campanha rumo à disputa à presidência da República.
Governador, peço que o senhor conte um pouco de suas origens.
Eu me identifico como um goiano apaixonado pelo estado de Goiás, pai de família, avô; uma pessoa que gosta de conviver com as pessoas mais simples, que gosta dos sabores da culinária goiana — e, como bom goiano, também gosta muito da culinária mineira. Gosto muito das coisas mais simples, das nossas tradições, da nossa cultura. Gosto muito de conversar, de dialogar e de ouvir as dores das pessoas, para que eu possa sentir onde o governo pode ajudar mais. Sou uma pessoa simples, nascida no interior. Sei a importância do carinho da vizinhança. Essa vivência do interior me ajudou muito na formatação de vários dos programas que criei como governador. É isso: uma pessoa simples que gosta de política e de boa gestão para fazer o bem.
O senhor já foi governador por quatro vezes. O que o traz de volta à disputa pelo Palácio das Esmeraldas?
Goiás viveu três grandes ondas no século XX e agora no começo do século XXI. A primeira onda positiva de desenvolvimento foi a construção de Goiânia, na década de 1930, e depois a construção de Brasília, na década de 1950. Depois, na década de 1970, tivemos a segunda onda, que foi o desenvolvimento do Cerrado, da agricultura, da pecuária e o começo da infraestrutura de Goiás. A terceira onda, da qual tive o privilégio de participar ativamente, foi a da estruturação e modernização do Estado, que era muito acanhado. Houve fortes investimentos em infraestrutura, industrialização, modernização do agro, tecnologia e universidades. E agora, meu compromisso como candidato a governador é ajudar na estruturação da quarta onda: a revolução tecnológica. Aproveitar a inteligência artificial, todos os potenciais produtivos e investir maciçamente nos anéis tecnológicos que vamos criar no Entorno de Brasília, na capital, na região metropolitana e em todos os demais polos geopolíticos e geoeconômicos importantes do estado. Essa vai ser a nova onda.
E como será essa nova onda?
Meu propósito é, para além de ajudar a concluir a estruturação e a modernização do nosso Estado, avançar para valer na área da tecnologia. Teremos desafios, por exemplo, com a reforma tributária, pois os incentivos fiscais vão acabar em 2032, mas os impactos já começam a partir dos próximos anos. Teremos que ter muita criatividade e espírito de luta para encontrar caminhos que assegurem a continuidade desse desenvolvimento. Nós fizemos um plano de governo para 30 anos em 1998. Estamos no 28º ano desse plano e nada foi alterado de lá para cá desde que assumi. Agora, já estou construindo um novo plano para os próximos 30 anos, com ênfase total na inclusão social, na diminuição das diferenças regionais (valorizando as regiões menos desenvolvidas) e, principalmente, com foco na tecnologia e na revolução tecnológica para incluir os jovens e dar um dinamismo novo ao Estado, incluindo o governo digital. Vamos digitalizar todas as áreas do governo para trazer mais eficiência.
Como pretende desenvolver a inteligência artificial no Estado e incluir o jovem?
No meu primeiro governo, criei a Universidade Estadual de Goiás (UEG), que foi muito importante, principalmente para a formação dos professores do ensino fundamental. Antes, apenas 25% tinham diploma; hoje, temos 100%. Isso foi fundamental para melhorar a qualidade da educação pública. No segundo governo, criei a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG). Para a UEG, destinei 2% do orçamento anual, e para a FAPEG, 1,5%. O governo atual retirou esse orçamento vinculado. Eu vou retornar esses percentuais: 2% para a UEG e 1,5% para a FAPEG. Parte desse dinheiro será para alavancar este projeto de tecnologia.
Como será esse start?
Vamos começar com um polo em Goiânia e na região metropolitana, criando a Cidade da Tecnologia e da Inteligência Artificial. Com recursos da UEG e da FAPEG como base, buscaremos parcerias com as universidades federais e institutos tecnológicos, além de parcerias privadas, porque as pesquisas precisam ser aplicadas ao desenvolvimento econômico e às empresas, que são quem gera empregos. Temos várias áreas que vão precisar de tecnologia, como o aproveitamento de terras raras para nossos hubs tecnológicos, o apoio às energias limpas (principalmente a solar) e a aplicação no agro, na indústria, na saúde, na educação e na segurança pública — até porque o crime mudou e hoje é cibernético. Pretendemos criar esses anéis tecnológicos primeiro na região metropolitana, depois no Entorno de Brasília e nas demais regiões, de acordo com as vocações locais.
O ex-governador Ronaldo Caiado tem levado aos debates que Goiás está em uma situação positiva de segurança. Qual é a avaliação do senhor?
Olha, a sensação de segurança em Goiás é boa mesmo, é verdade, e essa sensação deve continuar. Agora, é importante registrar o trabalho que foi feito antes, quando eu e outros governadores gerimos o Estado. Eu peguei do governo anterior a pior segurança do Brasil, a menos valorizada. Os praças ganhavam menos de um salário mínimo. Eu deixei a segurança de Goiás, em 2018, com uma das melhores remunerações do país, equivalente à de Brasília (que é paga com recursos federais). Para isso, foram feitos investimentos vultosos. Eu contratei via concurso cerca de 8 mil PMs. Nas outras forças (Polícia Civil, Penal, Técnico-Científica e Bombeiros), foram mais de 13 mil a 14 mil contratados. Em 1998, o quadro era caótico: policiais andavam de bicicleta, viaturas sucateadas, falta de armamento e baixos salários. Mudamos totalmente esse cenário. Criamos também a central de comando, inteligência e controle no meu terceiro governo. Sempre uso uma figura de linguagem: não dá para colher a laranja se você não plantar a semente em terra fértil, regar e cuidar. Os indicadores de criminalidade começaram a cair vertiginosamente a partir de 2015, reflexo dos investimentos anteriores.
E qual sua visão atualmente?
Hoje, porém, nos defrontamos com um quadro preocupante: desvalorização das polícias e policiais fadigados. Quando saí do governo, tínhamos quase 14 mil PMs; hoje, temos cerca de 10 mil. Os policiais estão se desdobrando em horas extras. Há cerca de 100 municípios em Goiás sem nenhum policial fixo. Outro ponto grave é o feminicídio, que explodiu no estado. Na minha época, criei patrulhas Maria da Penha e 25 delegacias especializadas. Isso precisa voltar com força, pois é uma situação que exige prioridade real, com investimento na prática, e não apenas no discurso.
O senhor já definiu seu apoio a algum presidenciável?
Estamos definindo. Primeiro, tivemos que estruturar as alianças locais e definir as candidaturas a deputado federal, estadual, senador e vice-governador. Minha candidata a vice é uma mulher do agro, produtora rural – Jacqueline Zaiden (PSDB) –, sintonizada com as demandas do campo. Daqui para frente, vou avaliar o cenário político nacional para definir quem apoiarei.
O PSDB já foi um dos maiores partidos do país, como ele perdeu o protagonismo da direita?
Nós cometemos muitos equívocos. Cometemos equívocos em 2018 e um erro ainda maior em 2022 ao não lançarmos candidato a presidente. Tínhamos tido candidatos em sete eleições consecutivas. Não lançar candidato reduz a nossa bancada e nossa força. Contudo, fizemos um grande trabalho de reconstrução e estamos trabalhando para eleger de 25 a 30 deputados federais no Brasil, o que vai mudar a configuração e o protagonismo do PSDB. Hoje temos diversas candidaturas competitivas aos governos estaduais em Goiás, Ceará, Tocantins, Alagoas, Acre, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. Vamos sair dessa eleição em uma situação bem melhor, preparando o campo para retomarmos espaço nos próximos anos.
O sonho de ser presidente da República ainda possa bater à sua porta?
Olha, o meu projeto hoje é Goiás. Eu acho que o presidente tem que ser jovem e preparado para os desafios do Brasil. Eu já ajudei muito o país como senador, deputado e governador, e quero ajudar de novo enfrentando os grandes desafios de gestão pública, fiscal e geração de oportunidades aqui no Estado. O PSDB contribuiu enormemente com o Brasil nas últimas décadas, sobretudo no governo FHC, com as grandes reformas. Queremos continuar ajudando o país a superar suas dificuldades e criar oportunidades para as novas gerações.
O Distrito Federal e Goiás têm uma relação umbilical. Qual é a sua proposta para o Entorno do DF?
Quando assumi o governo em 1999, o Entorno de Brasília era chamado de “região do nem”: nem Brasília, nem Goiás. Não havia fóruns estruturados, faltavam hospitais, asfalto, saneamento básico e água tratada na maioria dos bairros. Nós mudamos isso fazendo parcerias com os municípios: levamos redes de esgoto, água tratada, infraestrutura elétrica, asfaltamento, fóruns para as comarcas, hospitais em Valparaíso e Águas Lindas, escolas padrão Século XXI, presídios, escolas técnicas (como o CEPIS, atual Escola do Futuro) e rodovias de ligação entre as cidades da região. Agora precisamos de novos investimentos, construir um hospital regional de urgências de grande porte na região do Entorno Sul, além de firmar convênios com entidades filantrópicas e a rede privada para zerar as filas de cirurgias e exames.No transporte, as pessoas gastam até quatro horas por dia no deslocamento para o trabalho. Vou trabalhar em parceria com o governo do DF e o governo federal (ANRTT) para viabilizar um transporte de massa eficiente para as saídas Sul e Norte. Vamos conceder subsídio para baratear o custo das passagens para o trabalhador. (Vale lembrar que, como senador, lutei pela unificação da tarifa telefônica entre o DF e o Entorno, acabando com a cobrança de DDD).
O senhor já foi provado nas urnas e nos mandatos. Qual é o legado que o Marconi, pessoa física, quer deixar ao terminar a carreira política?
Uma sociedade bem mais humana e humanizada. Uma saúde, educação e segurança pública que acolham os mais pobres e os que mais precisam do poder público. Um Estado moderno, estruturado, tecnológico e cheio de oportunidades para os jovens. Quero deixar o legado de um governo que se importa com os chamados “invisíveis” da sociedade: autistas, pessoas com síndrome de Down, pessoas com doenças crônicas ou câncer. Um governo com olhar humano e fraterno, que crie programas como o Banco do Povo para incentivar o empreendedorismo e emancipar os mais humildes. Acredito em quatro pilares fundamentais para as famílias: Saúde, Habitação (com programas de moradia e reforma), Emprego (atraindo indústrias e inovação) e Educação (fortalecendo universidades e qualificando jovens). O que mais mata no Brasil é a desigualdade. O legado que quero deixar é o de um estado mais justo, desenvolvido e humano para todos.







