O agronegócio está enfrentando um pacote de intempéries que se arrastam há anos e envolvem reflexos das guerras da Ucrânia e do Irã, a taxa básica de juros e os preços em baixa de algumas commodities agrícolas, que refletem nas compras de máquinas como tratores e colheitadeiras, especialmente em regiões produtoras de grãos.
A avaliação é de Luis Felli, 60, head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da Agco, que além da Massey reúne marcas como Valtra e Fendt e é um dos grandes grupos do setor.
Ao participar da Agrishow (Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação), encerrada na sexta-feira (1) em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo), Felli observou que a feira teve redução de 25% nos negócios em relação a 2025. Para este ano, a queda no volume financeiro com a venda de máquinas será maior que a redução no total de unidades comercializadas, já que os negócios têm sido feitos com tratores menores e, consequentemente, mais baratos.
“O mercado deve ser -5%, -7%, -8%, mais ou menos isso. Mas esses fechamentos de números de máquinas não refletem o tíquete médio da máquina, que vai ser bem pior. Porque as máquinas grandes vão vender menos que o ano passado e as máquinas pequenas talvez vendam o mesmo, um pouquinho mais, principalmente os mercados de café”, afirmou o executivo da Massey, que disputa mercado de tratores com players como John Deere, New Holland e Case IH.
Em volume financeiro, o mercado deixou de vender, em valores nominais, ao menos R$ 3,2 bilhões na feira em Ribeirão, que gerou R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios.
É um quadro semelhante ao da Tecnoshow, em Rio Verde (GO), que viu os negócios recuarem 30% na edição deste ano, após acolher R$ 10 bilhões em propostas em 2025.
“O ano passado já foi assim, o mercado de grandes máquinas caiu mais. O mercado meio que ficou no zero a zero ano passado, mas o mercado de grandes máquinas caiu respeitavelmente. É natural, o grande negócio de máquina agrícola se chama grãos, isso é o que puxa o mercado de máquina agrícola em termos de valor, não em termos de unidade. E esse mercado está sofrendo”, disse Felli.
No primeiro trimestre do ano, as vendas internas no varejo de máquinas agrícolas somaram 9.800 unidades, 13,1% abaixo do patamar de janeiro a março de 2025, segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).
Os problemas enfrentados pelo mercado envolvem a questão da importação de fertilizantes, os preços do óleo diesel para os produtores rurais, a taxa básica de juros, os baixos preços de commodities em relação a outras safras e o real valorizado, segundo o executivo.
“Taxa de juros elevada, dois dígitos há quase cinco anos, que é um período muito longo, uma taxa desse tamanho, muito negativo. O produtor vem sofrendo com essas taxas de juros elevadas há bastante tempo e impactando dois dígitos. Isso inibe muito o investimento do produtor. Aí você tem preços de commodities baixo e o real valorizado […] O real em dezembro de 2024 estava em R$ 6. De R$ 6 para R$ 4,97 quanto dinheiro sumiu da cadeia? Então o produtor está realmente pressionado.”
O anúncio de uma linha de crédito de R$ 10 bilhões com juros inferiores a 10%, feito na Agrishow pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), vai ajudar o setor nesse momento, segundo ele.
Mas é preciso que a forma de acesso à linha da Finep seja clara e que entes financeiros como o Banco do Brasil sejam credenciados.
Na Agrishow, a Massey apresentou tratores menores, para a agricultura familiar (35 e 45 cavalos), para atender uma necessidade do produtor que não estava contemplada pela marca nos últimos anos, e afirmou que os veículos movidos a etanol como opção ao diesel chegarão aos consumidores em 2028, fruto de investimento anual em inovação de 4,5% a 5% do faturamento global.
“É uma demanda muito forte. Nós temos mais de 10 mil horas em testes já no campo. A gente tem teste em bancada, teste em campo. Estamos trabalhando longevidade, ajuste de curva de motor, coisas dessa natureza. É uma demanda muito forte nas usinas, estão muito interessadas, fornecedores de cana muito interessados.”
Segundo ele, a tendência é que a máquina movida a etanol tenha preço similar ao atual, do trator a diesel.
SEGURANÇA ENERGÉTICA
Felli disse considerar que a descarbonização nas máquinas é inevitável, mas que a segurança energética é uma necessidade que “está mais na cara do mundo hoje”, devido à guerra do Irã.
Os motores a diesel têm sido lançados com proposta de redução no consumo. O executivo da Massey diz que as máquinas combinando motores Ecopower e transmissão CVT chegam a proporcionar 30% de redução em relação aos modelos convencionais e é estratégico para o Brasil o uso do biodiesel.
“O mandato de biodiesel [obrigatoriedade legal de mistura] é estratégico para o Brasil. Esse crescimento do mandato ajuda na segurança energética, colocar 30%, 32% de biodiesel dentro do diesel.”








