A avaliação de que o Comitê de Política Monetária (Copom) fará, nesta quarta-feira, 5, o quarto corte de 0,25 ponto porcentual da Selic, de 14,25% para 14,00% ao ano, está praticamente consolidada no mercado, como mostrou pesquisa Projeções Broadcast. Ainda restam dúvidas, contudo, sobre os próximos passos da autoridade monetária, e cresce a expectativa de que o Comitê deixará em aberto a possibilidade de novas reduções.
Às vésperas da reunião, a mediana do Boletim Focus abandonou a indicação dada desde meados de junho de que a redução de agosto seria a derradeira do ano e passou a incorporar um quinto corte de 0,25 ponto em 2026, levando a taxa a 13,75%. Foi a primeira vez desde março, ou seja, desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, que a mediana para a Selic caiu.
A abertura por reuniões, disponível no Sistema Expectativas de Mercado, que embasa o Focus, mostra que a trajetória prevista agora pelas medianas é de corte em agosto, seguido de estabilidade em setembro e um ajuste pontual de 0,25 ponto na reunião de novembro — a primeira depois das eleições e penúltima do ano. Assim, o juro ficaria estável em 13,75% em dezembro e em janeiro e, então, voltaria a ser cortado em 0,25 ponto no segundo encontro de 2027, em março.
“Achamos que o Banco Central deixará a porta aberta”, afirma o superintendente de pesquisa econômica do Itaú, Fernando Gonçalves. O banco alterou recentemente a projeção para a Selic no fim de 2026, de 14,00% para 13,75%.
O economista avalia que o cenário teve uma evolução positiva em termos domésticos, com certa moderação da atividade econômica e recuo da inflação corrente, o que deve permitir os cortes, mas pondera não esperar, na reunião de agosto, uma comunicação explícita do Comitê sobre os próximos encontros – em linha com o que o colegiado já tem feito.
“A sinalização não será o próximo movimento, mas sim essa ideia de manter os juros restritivos de maneira adequada para a convergência da inflação”, diz Gonçalves. O Itaú entende que, diante do ambiente ainda incerto, o Copom tende a conservar uma postura dependente de dados.
“Há, em particular, ruídos vindos da política monetária americana. O Banco Central americano não mexeu nos juros, mas as declarações do Kevin Warsh geraram muita volatilidade e dúvidas”, afirma. Além da condução do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a indefinição sobre o conflito no Oriente Médio segue como fonte de incerteza no cenário externo. Já no cenário doméstico, diz ele, a desancoragem das expectativas de inflação também em horizontes mais longos é um dos principais pontos de atenção.
No final de julho, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o Copom trabalha com diferentes planos de voo e avalia qual deles tem a maior capacidade para levar a inflação mais perto da meta de 3,0%, com o menor custo em termos de volatilidade. “Trabalhamos com trajetórias que contemplam cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e de retomada no ciclo”, disse durante participação na Expert XP, em São Paulo.
As medianas do Focus não preveem hoje convergência da inflação para o centro da meta nos próximos anos. O mercado projeta alta de 5,03% em 2026 — acima do teto da meta, de 4,50% —, de 4,22% em 2027, de 3,80% em 2028 e de 3,50% em 2029. Há um mês, estavam em 5,30%, 4,18%, 3,70% e 3,50%, respectivamente.
As projeções do mercado para 2027 e 2028 estão acima das calculadas pelo Banco Central no último Relatório de Política Monetária (RPM), publicado em junho. No documento, o BC estimou alta de 3,7% e 3,1% para os períodos, respectivamente. Também no RPM, o BC projetou inflação em 3,2% no 1º trimestre de 2028. O período passa a ser o horizonte relevante da política monetária agora na reunião de agosto.
Qual será o tom do comunicado após a reunião?
O economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano, entende que o Copom irá cortar a Selic em 0,25 ponto nesta quarta-feira, mas observa que, considerando justamente as expectativas de inflação, as atenções estarão voltadas à comunicação do BC.
Para Serrano, um tom mais conservador, que descarte uma continuidade no ciclo de cortes por ora, pode contribuir para frear o avanço das expectativas de inflação em 2028, o que tenderia a abrir espaço para, após algumas reuniões de pausa, uma retomada do ciclo ocorrer mais cedo, já no primeiro trimestre do ano que vem.
Já uma comunicação mais aberta pode permitir que o ciclo de queda dos juros termine em um patamar mais baixo, com um corte adicional de 0,25 ponto porcentual. Em contrapartida, a retomada do afrouxamento monetário seria adiada caso as expectativas de inflação para 2028 permaneçam desancoradas ou se deteriorem ainda mais.
“Se ele optar por uma comunicação mais aberta, não conseguimos antecipar direito a evolução do cenário, mas temos algumas premissas. Se o Focus piorar mais, mas os dados de inflação de curto prazo seguirem bons, o Copom pode chegar em setembro e cortar. Acontecendo isso, ele termina em 13,75% e não 14,0%, mas quando for retomar vai demorar mais tempo.”
Também atenta ao comportamento das expectativas, a economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, avalia que o mais provável é que o Copom corte a Selic para 14,00% na reunião de agosto, mas que esse não é o cenário mais desejável.
“Do ponto de vista dos dados econômicos, o mais provável é o corte. Do ponto de vista do que deveria fazer, ainda defendemos que o recomendável, dado o cenário econômico incerto que estamos vivendo, seria uma postura mais cautelosa”, diz Victal.
Ela destaca que a piora na expectativa para 2028, mesmo com a melhora registrada nos dados recentes de inflação corrente, é um sinal importante e raro no histórico do Focus. Também observa que o nível da taxa de juros real é alto e que o nível de endividamento das famílias é elevado, mas pondera que, diante da perspectiva de a inflação seguir desancorada à frente, uma pausa agora, em uma sinalização mais hawkish (postura mais dura) do Comitê, poderia ser positiva.
“Estamos em um cenário no qual o risco de desancoragem adicional é relevante e o risco de uma desaceleração mais pronunciada da atividade econômica não é tão relevante assim”, afirma. “Não vemos nenhum sinal de uma desaceleração mais abrupta, mas vemos um monte de sinais de que a situação econômica é muito frágil. Não deveríamos adotar uma postura mais tomadora de riscos.”
A pesquisa Projeções Broadcast feita na última quinta-feira, 30, mostrou que a ampla maioria das instituições do mercado financeiro projeta um corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic em agosto. Entre as 60 casas consultadas, 56 apostam nesse cenário, enquanto outras quatro instituições estimam manutenção da taxa nos atuais 14,25%.
Entre as casas que apostam na manutenção está o Citi. Em relatório publicado no último dia 28, a instituição justificou que a visão conservadora para a reunião considera que “a maior desancoragem das expectativas de inflação de médio e longo prazo, a expansão fiscal à frente das eleições e a resiliência da atividade econômica sustentam uma postura cautelosa na política monetária”.
Estadão Conteúdo







