Frases curtas, muitos “oi”, excesso de pontos de exclamação, fotos de perfil com personagens de anime. Parecia coisa de robô. Até que uma funcionária mais jovem matou a charada: aquilo não eram robôs lotando a caixa de comentários, mas sim crianças conversando.
Eram alunos do ensino fundamental, muitos com pais que não os deixavam ter redes sociais, mas liberavam o Spotify. Uma delas, de 14 anos, explicou o sistema: alguém criava uma playlist pública com um nome como “vamos conversar aqui”, com um único episódio de podcast da NPR dentro, e todo mundo ia para os comentários daquele episódio. Um podcast jornalístico de adultos virou o grupo de conversa da turma. Ah, e os podcasts da NPR eram escolhidos porque geralmente não tinham muitos comentários, assim o pessoal ficava mais à vontade.
A lição é simples: todo mundo quer falar. E qualquer tecnologia com uma caixinha de texto, mesmo aquelas que nunca foram pensadas para isso, pode virar uma sala de bate-papo. Os companheiros de IA levam isso a um outro patamar, já que criam a interface perfeita para conversas. Isso é atrativo para todos os públicos. O que não falta por aí é gente que chama o Claude, da Anthropic, de “Claudinho”, e quem, na informalidade – e de modo meio desengonçado – se refere ao ChatGPT apenas como “Chat”.
Quem alimenta quem
Nas redes sociais, o Muse Charm já ganhou o apelido inevitável de tamagotchi da IA. A comparação é boa, mas talvez precise de algum ajuste. O tamagotchi dos anos 1990 exigia que você o alimentasse, educasse e dedicasse atenção. O Muse promete o inverso: é ele quem acompanha as suas metas, lembra dos seus compromissos, sugere o próximo passo, organiza a sua rotina, reserva restaurantes e está sempre disponível para conversar.
A depender de como será usado, das rotinas que serão criadas e do apego que se desenvolverá pelos novos gadgets de IA, o bichinho na tela vai ser só a interface para uma relação de sinais trocados em comparação com o velho tamagotchi. Quem vai ser alimentado, lembrado, acompanhado e cuidado o dia inteiro é outra criaturinha. Em 2026 o tamagotchi é você.







