Quarta-feira, 01/07/26

Millennial com ascendente em X e presbiopia aos 50

Millennial com ascendente em X e presbiopia aos 50
Millennial com ascendente em X e presbiopia aos 50 – Reprodução

Algo que talvez a internet tenha provocado foi esse achatamento de espaços que frequentamos. Até algumas décadas atrás, pessoas de grupos geracionais diferentes frequentavam espaços diferentes. Crianças comiam em mesas separadas, as festas eram outras e grupos sociais se reuniam em lugares de aparência, vocabulário e formato distintos.

A transformação digital mudou essa dinâmica. Grupos de família no WhatsApp, por exemplo, reúnem três ou quatro gerações no mesmo fórum. Em tese, consumimos coisas distintas, mas na prática estamos na mesma pracinha. Às vezes, não encontramos nossos avós nessa rua virtual, mas de repente nos damos conta de que estamos a um raio de distância em que torna-se inevitável o choque, porque habitamos uma rede regida pelo mesmo fluxo. A rede, porém, é construída com a estética, a velocidade e a dinâmica de apenas um desses grupos, ao passo que os outros correm para se ajustar.

Imagem: Getty Images

Com a “plataformização”, são os mesmos serviços, aplicativos e sites que estão sendo consumidos por crianças, jovens e velhos. A distinção é que, se por um lado, esses produtos são convidativos para um público nativamente digital, por outro são estranhos a quem ainda sofre para ser alfabetizado nessa nova linguagem. Quando se fala de pessoas velhas, é só para dizer que elas podem parecer jovens.

Há algumas semanas, a Revista Piauí fez uma publicação em suas redes sociais para anunciar o novo design do site e um ajuste no projeto visual da revista. Os comentários dos leitores eram massivamente de agradecimento pela fonte maior que, agora sim, permitia a leitura. Sim, o tamanho da fonte. O celular do meu pai tem um tamanho de fonte tão grande que mais parece aqueles letreiros de senhas de sala de espera de hospital. Eu acho que consigo ler seus e-mails do outro lado da sala. Ainda nesse campo, é graças à possibilidade de aumentar o tamanho da letra, que minha mãe carrega seu Kindle a tiracolo para ler compulsivamente seus livros em qualquer lugar. Uma correção: a tiracolo não, ela o leva numa bela bolsinha de crochê que ela mesma costurou.

São exemplos banais, mas simbólicos desse processo. Entra nessa conta uma soma de outros obstáculos: a obrigatoriedade do uso de apps para tudo, a biometria facial que não funciona, os QR Codes irritantes para serem usados em câmeras que a pessoa não consegue acessar, fraudes e golpes realizados com manipulação de imagem e mensagem por IA, as conversas infinitas com a família e amigos que agora se dão quase exclusivamente em espaços virtuais. Tudo é novo, toda hora, para quem está ficando velho.


T LB

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