Ao menos 144 dos 246 municípios de Goiás têm pessoas em situação de rua, o equivalente a 58,8% das cidades goianas. O levantamento foi realizado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds Goiás) a pedido do Mais Goiás, com base em informações do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico). Ao todo, o estudo apontou uma população de 5.937 pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social.
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Goiânia concentra o maior número de registros, com 1.482 pessoas em situação de rua (24,9% do total). O dado é cerca de 37% maior do que o informado pela Prefeitura de Goiânia (menos de 1 mil) à reportagem e, por outro lado, 22% menor do que o estudo publicado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 2019. Na época, o levantamento apontou 1,9 mil moradores em situação de rua na capital.
O ranking, de acordo com a Seds, é completado por Aparecida de Goiânia, com 612 registros, seguida por Rio Verde, com 448. Outros municípios com números expressivos são Formosa, com 238; Anápolis, com 175; Itumbiara, com 149; Catalão, com 142; Trindade, com 110; e Senador Canedo, com 109.
Também aparecem entre as cidades com mais de 80 registros Cristalina, com 107 pessoas; Águas Lindas de Goiás, com 95; Caldas Novas, com 87; Santo Antônio do Descoberto, com 82; e Alto Paraíso de Goiás, também com 82. O levantamento aponta ainda 71 registros em Valparaíso de Goiás, 66 em Cidade Ocidental, 52 em Goianésia, 43 em Goianira, 38 em Hidrolândia e 36 em Jaraguá. Inhumas e Itaberaí contabilizam 32 registros cada, enquanto Uruaçu tem 28 e Cidade de Goiás, 25.
Outros municípios apresentam números menores, como Quirinópolis, com 22; Ipameri, com 20; Abadiânia, com 19; e Castelândia, com 18. São Luís de Montes Belos registra 15 pessoas, enquanto Bela Vista de Goiás tem 15 e Santa Helena de Goiás, 12. A lista inclui ainda municípios com poucos registros, como Aragarças, com oito; Iporá, com oito; Itapaci, com sete; Acreúna, com seis; e Abadia de Goiás, também com seis. Em outras cidades, o levantamento aponta apenas uma ou duas pessoas cadastradas nessa condição, como no caso de Caldazinha e Uruaçu.
Programas
Para estimular e auxiliar pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social a deixar às ruas, o estado possui o programa “De Volta Para Casa”, onde essa população pode procurar, de forma espontânea, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds).
A pasta, então, fica responsável por enviar o beneficiário a voltar para o estado ou cidade natal. O governo estadual também costuma repassar valores para os municípios, a fim de realizar trabalhos sociais. Apenas para o município de Goiânia foram destinados R$ 6 milhões no decorrer de 2025.
Com o maior número de pessoas em situação de rua, a capital acompanha as pessoas em situação de rua por meio do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). O programa é organizado e executado pela Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos (SEMASDH), responsável por administrar o Centro Pop e as duas Casas de Acolhida Cidadã.
Nestes locais, são servidas refeições gratuitas e também é oferecido abrigo temporário para pessoas em situação de vulnerabilidade social. Apenas o Centro Pop costuma receber, em média, 150 pessoas por dia, de acordo com a SEMASDH.
Centro concentra maior população
A maior parte dessa população se concentra no centro de Goiânia, de acordo com a prefeitura. O dado contrasta com um levantamento realizado pela Polícia Militar (PM), que mapeou 40 estruturas abandonadas usadas como abrigo para pessoas em situação de rua, usuários de drogas e criminosos na região. Conhecidos como “mocós”, os locais estão espalhados pela área do 38º Batalhão, responsável pelo policiamento de 64 bairros da capital.
Os setores Campinas, Centro e Universitário concentram a maior quantidade de “mocós”, bem como o Setor dos Funcionários. Na região do Dergo, conforme o comandante do batalhão, tenente-coronel Johnathan Tarley, havia a presença de cerca de 10 barracas abandonadas, que eram utilizadas por pequenos traficantes, mas foram derrubadas em ação conjunta com a Prefeitura de Goiânia.
“Esse levantamento foi realizado no final do ano passado. Produzimos um relatório de inteligência com a quantidade de ocorrências e sugerimos a demolição ou que o proprietário seja notificado. A Defesa Civil avalia a estrutura do imóvel e, na maioria dos casos, é feita a demolição. Muitos desses locais estão com a estrutura comprometida, então é arriscado para quem usa”, explica Tarley.
Entre os “mocós” identificados pela PM está uma escola de implantes odontológicos abandonada no Setor Central, onde foram encontrados materiais e aparelhos de raio-x de alto valor. Em agosto, a prefeitura chegou a realizar uma intervenção no local após ser informada pela corporação sobre o risco de contaminação por radiação, visto que o local costuma ser alvo constante de furtos por parte de usuários de drogas. Nenhum aparelho radioativo, porém, foi encontrado.
Na semana passada, o município também autuou o proprietário de uma edificação inacabada e abandonada na esquina da Avenida Araguaia com a Rua 2, no Centro da capital. Fechado e sem uso há cerca de 25 anos, o espaço vinha sendo alvo de ocupações irregulares, o que motivou uma operação entre a PM e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) na estrutura
“Os responsáveis nos procuraram e já vão fazer o fechamento desse prédio [na Rua 2]. Como lá está aberto, as pessoas têm acesso. Vai ser feito um muro alto com uma concertina. Neste caso já não é demolição porque a estrutura é aproveitável”, explica o tenente-coronel.
Demolições
Desde que foi enviado o relatório apontando os “mócos”, a prefeitura, com auxílio do 38º BPM, demoliu cerca de 10 estruturas. Grande parte dos locais estavam concentrados no Setor Central, conforme Tarley. Há ainda a previsão para novas intervenções ainda neste ano.
“No Setor Central foi demolido o banheiro da Praça do Trabalhador, os dois imóveis na Rua 74. A maior concentração foi no Centro, mas teve demolições no Dergo, Setor Universitário e Setor dos Funcionários “, reforça o tenente-coronel.
Baixa na criminalidade
As intervenções nos “mocós” se refletem diretamente no combate à criminalidade, de acordo com o comandante do 38º BPM. Conforme Tarley, a unidade registrava, em média, dois homicídios por mês. Os crimes, normalmente, são praticados entre moradores em situação de rua e pequenos traficantes que utilizam esses espaços como abrigo ou boca de fumo.
No entanto, com a demolição dos “mocós”, o setor central já não registra mortes violentas há cerca de dois meses. A ação, segundo o militar, é uma forma de antecipar a prevenção e, com isso, evitar crimes contra a vida, bem como o tráfico de drogas na região conhecida por comportar pessoas em situação de vulnerabilidade social.
“São estratégias transversais para minimizar esse fator de risco. A gente tem essa questão dos ‘mocós’, a patrulha da dignidade, onde encaminhamos moradores em situação de rua para a comunidade terapêutica. Já encaminhamos 138 pessoas, além dos grupos de WhatsApp com os comerciantes. São várias ações, não apenas uma isolada”, concluiu.








