Quinta-feira, 27/08/26

MP-SP denuncia Beto Louco e mais 15 sob acusação de desvio de metanol para adulterar combustíveis

Beto Louco
MP-SP denuncia Beto Louco e mais 15 sob acusação de – Reprodução

DOUGLAS GAVRAS E TULIO KRUSE
FOLHAPRESS


Ministério Público de São Paulo denunciou 16 pessoas sob acusação de participação em uma organização criminosa que teria atuado no desvio de metanol para adulteração de combustíveis na Grande São Paulo, de 2017 a 2025.

Entre os denunciados pelo núcleo de Guarulhos do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) está o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, apontado pelo Ministério Público como um dos principais financiadores do esquema.

A defesa de Beto Louco disse, por meio de nota, que não teve acesso aos autos até o momento.

“Contudo, diante do que foi informado pela mídia, os fatos tratados na denúncia não têm nenhum relacionamento com Roberto. Sua inclusão no processo parece uma infeliz tentativa de gerar repercussão midiática, como já ocorreu anteriormente”.

Segundo o documento, ele teria utilizado empresas como Aster, Copape e Duvale para movimentar recursos milionários relacionados às atividades investigadas.

Os denunciados são acusados de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O MP também aponta indícios de adulteração de combustíveis, crimes tributários e contra o consumidor, estelionato, falsidade documental e crimes ambientais.

O caso remonta a maio de 2023, quando a PRF (Polícia Rodoviária Federal) encontrou metanol com um dos envolvidos. A investigação identificou se tratar de um sistemático desvio do produto, que tem aquisição e uso controlados.

Segundo o MP, o grupo utilizava uma rede de empresas químicas, transportadoras, distribuidoras, instituições de pagamento e fundos de investimento para desviar o metanol, adulterar combustíveis e ocultar a origem dos recursos obtidos com a fraude.

“Os elementos colhidos autorizam afirmar que existe uma estrutura perene para forjar a aquisição de metanol para a suposta produção de biodiesel, com produto jamais remetido ao destino formal-documental, e a efetiva entrega do produto em autopostos, exatamente para adulterar combustíveis e majorar os lucros”, relata o MP.

A denúncia será agora analisada pela Justiça, que decidirá se aceita as acusações e abre um processo criminal contra os investigados. Caso seja recebida, os denunciados passarão a responder formalmente pelos crimes apontados pelo Ministério Público.

Em maio, o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, rejeitou proposta de delação premiada apresentada por Beto Louco. Segundo integrantes do Ministério Público, a proposta foi considerada insuficiente e com omissões relevantes.

O material entregue pelo empresário não detalha esquemas de lavagem de dinheiro de forma consistente e deixa de fora conexões com o PCC (Primeiro Comando da Capital), linha investigativa sensível dentro da operação, segundo a Folha de S. Paulo apurou na ocasião.

A denúncia é resultado de informações reunidas em diferentes investigações, entre elas as operações Boyle e Carbono Oculto. De acordo com as apurações, o esquema teria movimentado mais de 10 milhões de litros de metanol e gerado lucros milionários.

Segundo a denúncia, o esquema funcionava em etapas: o metanol era comprado legalmente por empresas autorizadas a comercializá-lo, e os documentos fiscais indicavam que as cargas seriam destinadas à produção de biodiesel ou à fabricação de produtos químicos.

Na prática, porém, o produto era desviado do destino declarado e levado a postos e empresas ligadas ao setor de combustíveis, onde era misturado irregularmente à gasolina ou ao etanol.

Para dificultar o rastreamento das cargas e ocultar a operação, empresas e transportadoras teriam utilizado notas fiscais e outros documentos falsos.

Por fim, os valores obtidos com o esquema passavam por empresas, instituições de pagamento e fundos de investimento para esconder sua origem.

Parte dos recursos, segundo o Ministério Público, era movimentada por meio da BK Instituição de Pagamento e de FIDCs (fundos de investimento em direitos creditórios). Em nota divulgada anteriormente, o BK Bank disse que os investigados da Operação Carbono Oculto não possuem contas ativas na instituição e que a maioria foi encerrada antes mesmo da deflagração da operação.

O nome do PCC aparece de forma colateral na investigação, principalmente em relação a Admar de Carvalho Martins, conhecido como Dema, que é investigado em outro processo por supostos vínculos societários e empresariais com pessoas apontadas como integrantes da facção. Procurada por email na tarde desta quarta, a defesa de Martins não se pronunciou.

Segundo o Gaeco, a utilização dessas contas-bolsão, ou contas-gráficas, conferia a opacidade desejada pela organização, pois inviabilizava a identificação individualizada de titulares e valores, servindo de blindagem patrimonial contra bloqueios judiciais e funcionando como “contas de passagem” para os recursos.

Por fim, o Gaeco aponta o uso de empresas de cobrança, registradas como microempresas de cobrança de títulos, como uma camada adicional de opacidade.


T LB

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