01/04/2018 às 06h34min - Atualizada em 01/04/2018 às 06h34min

“Forasteiros” sem histórico local acreditam que podem se eleger no DF

Alguns, como Ronaldinho Gaúcho, já adotaram o Distrito Federal como domicílio eleitoral. Outros estudam transferir os títulos

Isadora Teixeira - Giovanna Bembom
Metrópoles

No vale-tudo para se eleger, um fenômeno tem chamado a atenção nos bastidores dos partidos: pessoas sem a menor – ou que têm pouca – identidade com o Distrito Federal acreditam que conseguirão se eleger com votos dos brasilienses.

Na semana passada, o ex-craque de futebol Ronaldinho Gaúcho se tornou o mais novo filiado do PRB. O ex-atleta deve concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados ou no Senado pelo DF, apesar de oficialmente morar no Rio de Janeiro. Ele, porém, não é o único “forasteiro” que adotou Brasília como domicílio eleitoral.

De olho nas eleições de 2018, Ricardo Berzoini (PT), ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff, tem domicílio eleitoral no Distrito Federal desde o ano passado. Ele foi eleito para a Câmara dos Deputados por quatro vezes por São Paulo.

Embora tenha sido cogitado até como possível nome para o cargo de governador, o petista afirma ter recuado. “Por motivos familiares, não tenho condições de dar a dedicação necessária para uma candidatura. Agradeci a generosidade da militância que estava apoiando e da direção do partido. Vou ajudar como militante, nos momentos que puder”, afirma. Sobre o Título de Eleitor, declarou ter feito a transferência por “morar em Brasília desde 2003”.

A deputada federal Brunny Gomes (PR-MG) também flerta com diretórios regionais candangos. Ela afirma que recebeu convite do próprio partido para disputar as eleições pelo Distrito Federal e também de outras agremiações. O PSC-DF é uma das siglas de olho na parlamentar, segundo o presidente regional, Zenóbio Rocha. Brunny declarou ainda estar avaliando propostas, mas não escondeu a admiração pela capital.

“Confesso que a gente fica querendo ficar aqui mesmo, de tanto que se acostuma. É aquela história: ‘Bebeu da água de Brasília e não quer voltar mais para o próprio estado'”, disse, em tom de brincadeira. À frente da direção regional, Alexandre Bispo informou que “as portas do PR-DF estão abertas para a deputada”.

Militares O nome do general da reserva do Exército Roberto Sebastião Peternelli Junior era ventilado como um possível pré-candidato à Câmara dos Deputados pelo Distrito Federal. Ele disputou uma cadeira na Casa em 2014 por São Paulo.

Ao Metrópoles, no entanto, o militar da reserva contou que está de saída do PSC e ingressará no PSL, mas despistou sobre a unidade da Federação escolhida. “Pensamos em contribuir com o país. No momento, sou pré-candidato em São Paulo. Mas o DF é um local muito querido pelos militares”, disse.

O prazo para mudar de domicílio eleitoral para quem pretende concorrer às eleições é até 7 de abril deste ano.

Há alguns anos no DF Primeira mulher a chefiar a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social do DF, a pernambucana Márcia de Alencar transferiu o título em 2017. Em setembro, filiou-se ao PSB, mesmo partido do governador Rodrigo Rollemberg e, três meses depois, foi lançada como pré-candidata à Câmara federal.

Segundo ela, no entanto, o martelo não foi batido ainda e a Câmara Legislativa (CLDF) é uma opção. Ao Metrópoles, disse já se considerar brasiliense – embora esteja morando há 11 anos aqui, de forma intermitente –, pois é “por Brasilia que quer lutar”.

“Trabalho desde 2000 em Brasília. Vim morar definitivamente em 2006. Por dois anos, estive em Moçambique pela ONU. Em 2013, atuei em Pernambuco e, desde 2015, estou no GDF”, destaca Márcia, que hoje é assessora parlamentar da governadoria.

Pode dar certo? O advogado eleitoral e comentarista político Emerson Masullo esclarece que o casos citados acima são frequentes a cada disputa eleitora e os “forasteiros” se espalham Brasil afora. “Um grande exemplo disso é o Romero Jucá, de Pernambuco, mas está eleito pelo Roraima há muito tempo que hoje nem deve ser mais forasteiro. O José Sarney é do Maranhão, mas foi eleito para o Senado pelo Amapá”, lembra.

O especialista comenta que há diversas motivações para os personagens políticos migrarem. “Com isso, conseguem, de certa forma, ocultar o ‘DNA’, porque o ser humano tende valorizar mais estrangeiros do que conterrâneos”, exemplifica. Na avaliação de Masullo, Brasília não tem caras novas com perfis inovadores e, por isso, pessoas de fora podem ter sucesso.

Cristiane Leyendecker, cientista política e docente do Centro Universitário Iesb, acredita haver chance de a estratégia ser positiva para os “puxadores de votos”, os candidatos conhecidos do público que ganhariam votos independentemente do domicílio eleitoral.

Por outro lado, para o presidente do PSB-DF, Tiago Coelho, há mais credibilidade para as pessoas que vivenciam a rotina da região na qual pretendem disputar as eleições. “Se esses atores estivessem mergulhados no dia a dia da sociedade, haveria possibilidade de maior êxito”, comenta.

À frente do PRP-DF, Adalberto Monteiro critica filiações de famosos sem ligação com o Distrito Federal, como é o caso de Ronaldinho Gaúcho. “Se a moda pegar, está ruim. Para poder disputar, tem que ser do local e conhecer a realidade de lá”, opina.

O presidente do PRB-DF, Wanderley Tavares, observa que uma celebridade tem “baixo índice de rejeição” e pode angariar muitos votos. Ele reforça, no entanto, ser do eleitor a escolha final.

Presidente do diretório regional do PTB e pré-candidato a governador, Alírio Neto ressalta “não haver impedimento ético ou legal” de se candidatar por uma unidade da Federação em que o postulante não tem conhecimento tão particular quanto dos moradores.


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