Porque quando você envia essa selfie para o ChatGPT, ela não evapora depois que a imagem fica pronta. Traduzindo: a foto que você mandou de brincadeira pode entrar, automaticamente, no material usado para treinar o próximo modelo da empresa. Para que isso não aconteça, você precisa saber que a opção existe, ir até as configurações, caçar o menu de controles de dados e desligar o botão. Quase ninguém faz.
E uma vez que a sua imagem entra num ciclo de treinamento, não há botão de desfazer. Não adianta apagar a conversa que depois não resolve: o rosto que você entregou numa tarde de feriado, achando graça, não volta mais. Você doou o rosto em alta definição, de graça, e ainda agradeceu pela diversão.
OK, mas qual é o problema disso? Vou trazer aqui a perspectiva de alguém que já trabalhou em uma empresa que justamente vendia dados organizados para treinamentos de IA. Só que para entender por que uma foto sua vale alguma coisa, é preciso lembrar como essas ferramentas nasceram.
A IA generativa (como o ChatGPT, Gemini e Claude) foi criada varrendo a internet inteira: sites de notícia, fóruns, posts, legendas, vídeos do YouTube… Tudo o que estava disponível e de graça. Foi assim que os modelos aprenderam a escrever, falar, criar e interpretar: consumindo, sem pedir licença, o trabalho de milhões de pessoas.
Com algum atraso, veículos de imprensa, grandes grupos de mídia e artistas começaram a processar as empresas, e daí vieram os acordos de licenciamento. O material fácil da internet, hoje, já foi praticamente todo digerido. Só que essa indústria é faminta, não para de evoluir, e ter dados coletados de forma ética, ou seja, consentidos, anonimizados e catalogados, para depois serem treinados não é nada barato.
Esses conjuntos de dados valiosos têm nome: datasets (e existe todo um mercado para consegui-los). Já existem empresas que prometem renda extra para quem topa fazer micro tarefas, como gravar um áudio, filmar um gesto, rotular e classificar algum conteúdo. A remuneração é baixa, a demanda é instável, mas o apelo é sempre o mesmo: me dê seu tempo e ganhe um dinheiro fácil.
Para a IA ficar cada vez mais humana ela precisa de coisas que só um corpo humano produz: um áudio com sotaque regional falando de forma espontânea, um vídeo de alguém mexendo uma panela, um rosto real envelhecido ou rejuvenescido, uma pessoa dizendo o que considera ofensivo ou não.
Com as trends de IA que bombam nas redes sociais, a empresa pega carona numa brincadeira aparentemente espontânea. Imagina o preço que seria para poder pagar milhares de pessoas a fornecerem suas faces em diferentes estilos, idades e transformações?








