ISABELLA MENON
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)
Com os polegares apontados para baixo, um homem posa para uma foto em frente ao espelho d’água do Lincoln Memorial, em Washington. Ao redor, pessoas observam a água esverdeada e comentam a sujeira acumulada naquele que é um dos principais cartões-postais da capital americana. “O pato está nadando na sujeira. Isso é ruim”, diz uma mulher ao passar pelo local.
A cena resume as controvérsias em torno das reformas promovidas por Donald Trump na capital americana.
Como parte das comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos, o presidente lançou uma série de intervenções em Washington que incluem a reforma do espelho d’água do Lincoln Memorial, a construção de um novo salão de festas na Casa Branca e um arco monumental inspirado no Arco do Triunfo de Paris. Das três, apenas a primeira já foi concluída e justamente ela se tornou alvo de críticas poucos dias após a inauguração.
O governo investiu cerca de US$ 14 milhões (cerca de R$ 75 milhões) na reforma acelerada do espelho d’água, sem licitação. A principal mudança foi um revestimento azul no fundo do lago para intensificar o reflexo dos monumentos ao redor.
Trump comemorou a obra nas redes sociais e publicou imagens feitas por IA em que aparece celebrando com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.
Dias depois da entrega, porém, o espelho já não parecia mais atraente para um mergulho: o revestimento começou a descolar, a proliferação de algas voltou a deixar a água verde e um cheiro incômodo permanecia no local. O governo anunciou novos reparos, e Trump atribuiu os problemas a atos de vandalismo e o ex-atleta olímpico, David Hearn, foi indiciado por suspeita de destruição do patrimônio. Ele nega ter causado danos.
Entre os visitantes, as reações se dividem. O professor Will Gross, 44, que visitava Washington ao lado do amigo Lory Connell, 49, ambos da Filadélfia, considera que a reforma representa desperdício de dinheiro público. “Primeiro pagamos por esse problema. Agora vamos gastar mais dinheiro para consertá-lo. É um absurdo”, afirmou. “Num momento em que há pessoas tentando descobrir como vão alimentar seus filhos, estamos gastando dinheiro dos contribuintes para mudar a cor dessa água.”
Outro visitante, Thomas Matthew, 35, questiona tanto a necessidade da intervenção quanto sua execução. “Estou frustrado com os custos. Estou frustrado com o que parece ser favorecimento político, em que o presidente parece beneficiar amigos ou pessoas que lhe fizeram favores. Como contribuinte, considero isso revoltante”, afirmou.
Para ele, a obra nunca foi necessária: “Nem acho que havia um problema que precisasse ser resolvido. Era um projeto vaidoso desde o início. Somando isso ao que parece ser corrupção, realmente não gosto dessa iniciativa.” Matthew se refere ao fato de que a reforma foi realizada por uma empresa ligada a um doador de Trump e vizinho em Mar-a-Lago sem licitação. Ao jornal The New York Times, a Casa Branca afirmou que o presidente não esteve envolvido na escolha da empresa.
Nem todos, porém, compartilham dessa avaliação. Washington elegeu Kamala Harris em 2024 com ampla vantagem e tem população majoritariamente democrata, mas há também apoiadores de passagem fotografando as obras de Trump.
A aposentada Ruth, 62, que preferiu não informar o sobrenome, diz estar satisfeita com o resultado.
“Estou muito feliz que tenham feito isso. Acho que o lugar está ficando bonito novamente e tem potencial para ficar ainda mais bonito, desde que seja bem conservado”, disse. Para ela, “alguma ação é melhor do que nenhuma” e, caso surjam novos problemas, “o presidente Trump vai resolvê-los”. “As pessoas criticariam Trump até se ele encontrasse a cura para o câncer.”
As controvérsias do espelho d’água antecedem discussões semelhantes sobre as outras duas obras anunciadas por Trump. Uma delas é o arco monumental às margens do rio Potomac, entre o Lincoln Memorial e o Cemitério Nacional de Arlington.
Inspirado no Arco do Triunfo de Paris, terá cerca de 75 metros de altura. A Casa Branca não divulgou orçamento oficial, mas a imprensa americana estima custo próximo de US$ 100 milhões. Trump chamou o projeto de “o maior e mais belo Arco do Triunfo do mundo”, uma homenagem aos 250 anos da Independência americana. Mesmo sem ter saído do papel, a obra já enfrenta resistência: manifestantes protestaram no local previsto e organizações de preservação apresentaram objeções durante a análise da Comissão de Belas Artes dos Estados Unidos.
A outra é o novo salão de festas da Casa Branca. Com quase 8.400 metros quadrados e capacidade para mil convidados, o edifício foi apresentado pelo governo como forma de aumentar a segurança em grandes eventos oficiais, reduzindo a necessidade de estruturas temporárias nos jardins da residência.
O presidente costuma mostrar a obra a visitantes que recebe no Salão Oval, destacando o mármore e a estrutura de segurança em construção. A necessidade do espaço foi reforçada após o ataque durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca embora o evento não ocorra na Casa Branca e após uma ameaça ligada a um evento de UFC promovido por Trump.
Para abrir espaço ao novo prédio, a Ala Leste foi demolida. O custo também mudou ao longo do projeto: inicialmente estimado em US$ 200 milhões, cerca de R$ 1,06 bilhões, passou a cerca de US$ 400 milhões (R$ 2,07 bi), segundo Trump, que prometeu financiamento próprio e de doadores privados.
Documentos obtidos pelo Washington Post, porém, apontam que o valor pode chegar a US$ 600 milhões (R$ 3,11 bi), dos quais cerca de metade seria bancada por órgãos públicos, como o Serviço Secreto, o Escritório Militar da Casa Branca e a Residência Executiva.
A obra também é alvo de disputa judicial: uma organização de preservação histórica acusa o governo de não cumprir exigências legais antes da demolição da Ala Leste. Um tribunal de apelação autorizou a continuidade da construção enquanto analisa o caso, mas o julgamento definitivo ainda não foi concluído.
Para o jornalista aposentado Rick Elia, 70, da Pensilvânia, que hoje escreve um blog político, o debate sobre as intervenções reflete uma preocupação presente em boa parte do país: o custo de vida. “Há pessoas tentando descobrir como vão pagar moradia, alimentação, saúde e as contas da casa, enquanto nós estamos discutindo construir salões de baile e deixar essa água azul”, afirmou.








