Quinta-feira, 08/10/26

Ocupação irregular na Orla do Lago Paranoá acende alerta para ordenamento

Ocupação irregular na Orla do Lago Paranoá acende alerta para ordenamento
Ocupação irregular na Orla do Lago Paranoá acende alerta para – Reprodução

Às margens do Lago Paranoá, barracas, trailers e vendedores ambulantes dividem espaço com quem procura a região para caminhar e descansar. A movimentação, já incorporada à rotina de alguns pontos da orla, entrou no radar do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Um levantamento realizado entre agosto e setembro identificou ocupações irregulares, problemas ambientais e atividades comerciais sem autorização no Centro de Lazer Beira-Lago, no Setor de Clubes Esportivos Sul (SCES).

O diagnóstico levou representantes do Ministério Público e de diferentes órgãos do Governo do Distrito Federal a se reunirem, na última segunda-feira (5), para discutir medidas de fiscalização e ordenamento. O desafio é conciliar duas questões que caminham lado a lado: preservar uma das principais áreas de lazer da capital e garantir que o uso público da orla aconteça de forma organizada, sem inviabilizar atividades que também atendem aos frequentadores.

Foto: Isabele Mendes/ Jornal de Brasília

Nas vistorias, técnicos encontraram barracas, tendas, trailers e ambulantes instalados em áreas públicas sem autorização, além do uso de áreas verdes e vagas de estacionamento para atividades comerciais. Também foi constatada a circulação de veículos em pontos destinados à preservação ambiental.

A situação não se restringe ao comércio. O parecer chama atenção para o aluguel de equipamentos náuticos, como caiaques e pedalinhos, cuja regularidade precisa ser verificada. Resíduos sólidos foram encontrados em áreas verdes, margens do lago e locais destinados à circulação de pedestres. Churrasqueiras improvisadas e vestígios de fogueiras também apareceram durante as inspeções.

Entre fiscalização e lazer
Na ponta, porém, a percepção de quem utiliza o espaço nem sempre acompanha o cenário apontado pelo levantamento. Recém-chegado a Brasília para estudar, Erick Vinícius, de 21 anos, visitava o lago pela primeira vez. A impressão inicial foi positiva. “Gostei muito da experiência. Acho bacana. Aqui o ambiente é mais agradável”, contou.

Sobre a presença de ambulantes, o estudante considera que a atividade pode contribuir para a dinâmica do local, desde que não prejudique o uso do espaço. “Eu acho que eles não atrapalham. Acho que isso até valoriza a economia também do lago”, afirmou. Erick, no entanto, sentiu falta de mais estrutura para o descarte adequado de resíduos. Ao observar as lixeiras disponíveis, disse que “esperava mais”.

Foto: Isabele Mendes/ Jornal de Brasília

A diferença entre a percepção dos visitantes e os problemas registrados pelo MPDFT ajuda a dimensionar a complexidade da discussão. Enquanto parte do público enxerga os serviços disponíveis como complemento ao lazer, os órgãos responsáveis precisam verificar se essas atividades cumprem as regras de ocupação, segurança e proteção ambiental.

Falta de infraestrutura
O próprio levantamento aponta que o problema não está apenas na atuação de comerciantes e frequentadores. Segundo o MPDFT, há deficiência de infraestrutura pública para atender quem utiliza a orla, com falta de banheiros, mobiliário urbano e áreas de apoio. Para os técnicos, essa carência contribui para a instalação de estruturas provisórias e para a ocupação desordenada.

O parecer conclui que as atividades observadas apresentam indícios de incompatibilidade com normas urbanísticas e ambientais e podem afetar tanto a preservação quanto a paisagem e o uso adequado do espaço público. A recomendação é ampliar a fiscalização, conferir as licenças das atividades existentes e adotar medidas de ordenamento.

A discussão mobilizou uma extensa lista de instituições, entre elas DF Legal, Detran-DF, Corpo de Bombeiros, Vigilância Sanitária, Ibram, Adasa, Secretaria de Meio Ambiente, Seduh, Serviço de Limpeza Urbana (SLU), Marinha do Brasil, Iphan e Administração Regional do Plano Piloto.

Para o promotor de Justiça Dênio Augusto de Oliveira Moura, da 4ª Promotoria de Justiça de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb), a intenção é assegurar que a população continue tendo acesso à orla, mas de maneira compatível com a legislação e a preservação do espaço. Ele ressaltou a necessidade de garantir “a adequada prestação dos serviços públicos” e a disponibilização de infraestrutura e equipamentos compatíveis com as atividades desenvolvidas no local.

A questão agora é encontrar um modelo capaz de manter o Lago Paranoá aberto e atrativo à população sem transformar a ocupação espontânea em prejuízo ambiental e urbanístico.

T LB

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