Quarta-feira, 19/08/26

Panará catalogam espécies em TI no Pará e Mato Grosso

AFP / JODY AMIET
Panará catalogam espécies em TI no Pará e Mato Grosso – Reprodução

Uma iniciativa que une saber ancestral indígena e ciência acadêmica vem desenvolvendo o inventário das espécies existentes na Terra Indígena Panará, na Amazônia, na divisa entre o Pará e Mato Grosso. Quase 15 mil indivíduos da fauna e da flora regional já foram registrados em 500 mil hectares.

O projeto é promovido pela Conservação Internacional (CI-Brasil), em parceria com a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô, universidades públicas e outras organizações sociais. A proposta integra uma estratégia de conservação da biodiversidade em uma região pressionada pelo garimpo ilegal e por outras atividades irregulares.

Pesquisadores indígenas e de universidades públicas atuam juntos em trilhas pelo território, coletando imagens e amostras de espécies e de água do rio Rriri, afluente do rio Xingu que atravessa a terra indígena, além de inserir dados no inventário. Segundo o pesquisador Kiarysy Kaiabi Panará, conhecido como Cutia, a experiência aproximou conhecimentos distintos. “Foi muito bom trabalhar junto com pesquisadores não indígenas. Um ensinou ao outro”, afirmou.

A diretora do programa Povos Indígenas e Comunidades Locais da CI-Brasil, Renata Pinheiro, disse que os acadêmicos contribuem com conhecimento tecnológico sobre as ferramentas de catalogação, enquanto os pesquisadores indígenas dominam a leitura do território. “Os Panará sabem ler a floresta de um jeito que nenhum instrumento científico consegue substituir”, destacou.

Para a coleta de dados, os pesquisadores indígenas receberam capacitação no uso de ferramentas como GPS, aplicativo de catalogação de espécies e câmeras trap, ativadas por movimento ou pelo calor emitido por animais que se aproximam. Segundo a pesquisadora Pentê Panará, o trabalho também permitiu conhecer espécies difíceis de serem avistadas sem o apoio da tecnologia. Ela defendeu ainda a participação de mulheres na equipe que desenvolve o estudo.

Entre as plantas, animais e insetos identificados, há 602 espécies, das quais 27 estão criticamente em perigo de extinção. Uma árvore chamada de Já pelos Panará está sendo analisada como possível descoberta para a ciência, embora já seja conhecida pelo povo indígena. A confirmação, porém, ainda não ocorreu, porque a coleta de amostras não foi concluída e a revisão por botânicos depende de novo acesso ao indivíduo durante a estação da floração.

De acordo com Renata Pinheiro, o trabalho foi interrompido por falta de recursos para mais uma rodada de expedições, mas a expectativa é que o programa seja retomado para concluir o inventário. Ao final, os dados serão analisados pelos pesquisadores indígenas para disponibilização aberta no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SIBBr), com registro dos detentores e autores do conhecimento.

A CI-Brasil também criou um protocolo para a liberação de publicações resultantes da pesquisa. Segundo Renata, materiais produzidos por pesquisadores não indígenas são apresentados aos Panará em vídeos ou áudios, com explicação sobre os dados usados, o objetivo e o tratamento da informação, para que a comunidade possa acrescentar sua visão antes da divulgação.

Com informações da Agência Brasil

T LB

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