Sábado, 09/05/26

Plano de retomada de favelas do RJ não sai do papel quatro meses depois de apresentado

Plano de retomada de favelas do RJ não sai do papel quatro meses depois de apresentado
Plano de retomada de favelas do RJ não sai do – Reprodução

Quatro meses depois de ser apresentado ao STF (Supremo Tribunal Federal), o plano da segurança pública do Rio de Janeiro para a reocupação de favelas ainda não saiu do papel, contrariando a previsão da cúpula do então governo Cláudio Castro (PL) de que o projeto teria início no primeiro trimestre de 2026.

O plano foi apresentado no dia 23 de dezembro ao Supremo como um projeto-piloto para Rio das Pedras, Muzema e Gardênia, chamado de “Cinturão de Jacarepaguá”. Nascedouro da primeira geração de milicianos, a área é hoje disputada por milícias e o Comando Vermelho.

O projeto prevê operações simultâneas para que a polícia retome o controle do território. Segundo o plano, a operação policial será seguida da instalação de aparatos de justiça e direitos humanos, como comitês populares e postos da Defensoria e Ministério Público.

Na sexta-feira (8), a Polícia Militar informou ter iniciado uma ocupação na Gardênia Azul “por tempo indeterminado”. Na data, não houve registro de prisões ou apreensões. Questionada sobre a relação com o plano do estado, a corporação não comentou.

Segundo o secretário de Segurança Pública, Victor Cesar dos Santos, o projeto depende de homologação do STF para entrar em vigor, o que ainda não ocorreu. O plano foi criado por determinação da corte durante a ADPF 635, que ordenou novas regras sobre a atuação policial no Rio.

A reportagem pediu posicionamento do STF através de emails enviados por duas semanas, troca de mensagem com a assessoria e ligação para a comunicação, mas não houve resposta.

Chamado de plano retomada de território, o documento é um conjunto de ações de segurança pública, infraestrutura e urbanismo nas comunidades. Muzema, Rio das Pedras e Gardênia foram escolhidas em razão da geografia plana, diferente de morros como Alemão e Rocinha.

O projeto, apresentado em caderno com 200 páginas, não indica como a polícia atuará nessas operações nem de onde sairá o orçamento para a execução.

O caderno indica que as operações policiais serão feitas ao mesmo tempo nas comunidades, para evitar o deslocamento de suspeitos entre as áreas. O governo diz que as ações vão priorizar a prisão de lideranças “previamente identificadas” e que rotas de fugas serão mapeadas previamente.

Logo após as operações, equipamentos públicos serão implementados junto com a chegada de serviços de infraestrutura, regularização urbana e fundiária. Ainda segundo o plano, bases da polícia com policiamento comunitário vão funcionar 24 horas.

À reportagem o secretário de Segurança Pública, Victor Cesar dos Santos, defende que o plano não está parado por falta de homologação. Ele afirma que a pasta trabalha na criação de indicadores criminais e sociais.

“A gente não quer um projeto com voo de galinha”, afirma.

Professora do departamento de Segurança Pública da UFF (Universidade Federal Fluminense) e consultora de projetos de segurança em gestões estaduais e federais, Jacqueline Muniz entende que a dependência de homologação do Supremo não justifica a falta de execução.

“É um argumento meio infantil, porque quem está na cadeira tem a caneta e a tinta”, diz.
Jacqueline chama o plano de “Frankenstein de boas intenções”. Entre os principais problemas, ela aponta a falta de definição orçamentária e a ausência de itens sobre controle da corrupção e da ação policial.

“É um tratado de boas práticas, não é errado o que está ali, mas é uma listagem infinita em que não há prioridade, não há orçamento nem planejamento. Fizeram o projeto para ser aprovado, como alguém que faz um concurso. Juntaram todos os planos anteriores sérios que o Rio de Janeiro já teve.”
Victor dos Santos confirma que não há projeto para mudança drástica no perfil dos policiais fluminenses e diz que a conduta dos agentes é reflexo da sociedade.

“O policial não é recrutado em Marte, vem da sociedade com seus acertos, defeitos e valores. O policial não tem que ser bonzinho, professor de balé ou de jiu-jítsu. Ele está ali para proteger a pessoa de bem.”

O plano atual foi aprovado pelo Conselho Nacional do Ministério Público, órgão que será responsável por monitorá-lo. A Defensoria Pública do estado também não fez oposição ao texto.

Uma das possibilidades discutidas pela cúpula da segurança para o financiamento é usar recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública, conforme recomendação do próprio STF, e complementar com ativos que hoje estão bloqueados pela Justiça e que pertencem ao governo estadual.

Dados do Portal da Transparência mostram que a pasta da Segurança Pública do Rio teve liberados R$ 122 milhões do fundo em 2025, atrás da secretaria de São Paulo (R$ 342 milhões) e da PM de Minas Gerais (R$ 151 milhões).

As duas tentativas mais recentes de ocupação de comunidades foram o Cidade Integrada, em 2022, que fracassou, e a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), que teve vida útil de aproximadamente uma década.

“A partir da virada dos anos 1980 para os 1990 o Rio de Janeiro passou a ter experiências de policiamento em favelas. A UPP era uma espécie de aprimoramento das experiências anteriores. Elas não duraram porque as sabotagens vêm de dentro”, afirma Jacqueline Muniz.

GOVERNADOR E SECRETÁRIO DEIXARAM CARGOS

Desde a apresentação do projeto, dia 23 de dezembro, as cúpulas do governo fluminense e da segurança pública sofreram desintegração: o ex-governador Cláudio Castro (PL) renunciou em março, antes de ser considerado inelegível pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Já os ex-secretários das polícias Civil e Militar, Felipe Curi e Marcelo Menezes, deixaram os cargos e são pré-candidatos a deputado federal e estadual, respectivamente, embalados pela repercussão da operação Contenção, que deixou 122 mortos no complexo da Penha, ação policial com mais mortes no país.

“A saída dos dois secretários para serem candidatos é uma decisão pessoal que não traz prejuízo para o plano”, afirma o atual secretário.

O chefe da pasta da segurança considera que a indefinição sobre o governador do Rio e a disputa eleitoral não impõem riscos de o projeto ir definitivamente para a gaveta.

Victor afirma que propôs ao governador interino, Ricardo Couto, a criação de uma quarentena para que secretários envolvidos na segurança pública não saiam diretamente para cargos políticos.

“Não entendo que a segurança pública do Rio de Janeiro esteja politizada. É só porque a pauta segurança pública interessa muito à política. 58% dos moradores do Rio de Janeiro têm como preocupação número um segurança pública. O político faz essa leitura.”

T LB

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