Há mais de duas décadas, um grupo de voluntários em Brasília vem transformando o ciclismo em uma experiência de inclusão, autonomia e superação. Por meio de bicicletas adaptadas e da dedicação de condutores voluntários, o Projeto DV na Trilha proporciona a pessoas com deficiência visual a oportunidade de vivenciar a prática esportiva, explorar novos espaços e fortalecer laços sociais.
A fundadora e presidente do projeto, Simone Cosenza, conta que a iniciativa nasceu do desejo de compartilhar as emoções e sensações proporcionadas pelo pedal. Desde então, a ação vem ampliando horizontes para dezenas de participantes no Distrito Federal, demonstrando como o esporte pode se tornar uma ferramenta poderosa de integração, cidadania e transformação social.
Criado em 2004, o DV na Trilha surgiu a partir de uma ação solidária realizada por integrantes de um grupo de ciclistas de Brasília. Naquele ano, em vez de arrecadar donativos para uma campanha de Natal, os participantes decidiram oferecer experiências. A proposta foi levar pessoas com deficiência visual para um passeio de bicicleta utilizando tandems, bicicletas duplas em que um voluntário conduz o trajeto enquanto o participante ocupa o banco traseiro.
O primeiro passeio, realizado próximo ao Centro de Ensino Especial para Deficientes Visuais (CDV), percorreu apenas alguns quilômetros, mas teve um impacto que surpreendeu os organizadores. Muitos dos participantes jamais haviam pedalado, enquanto outros não subiam em uma bicicleta havia mais de uma década em razão da perda da visão. Ao final da atividade, a emoção tomou conta do grupo.
“Vimos condutores e pessoas com deficiência visual se abraçando, alguns chorando, outros tremendo de emoção. Naquele momento entendemos que aquilo não poderia ser apenas um evento de um dia. Decidimos transformar a ação em um projeto permanente”, relembra Simone.
Ao longo dos anos, a iniciativa cresceu de forma gradual. O aumento da procura levou a organização a buscar recursos para aquisição e manutenção das bicicletas adaptadas. Participações em editais sociais, campanhas de arrecadação e doações da comunidade permitiram a expansão do projeto, que hoje conta com dezenas de participantes e atua muito além das trilhas.
Atualmente, além dos pedais quinzenais realizados aos sábados no Jardim Botânico de Brasília, o DV na Trilha participa de corridas de rua, provas de aventura, eventos ciclísticos, remadas em canoas havaianas e atividades culturais. O grupo também mantém parcerias com organizações e instituições locais para ampliar as oportunidades de inclusão e convivência social.
A estrutura da iniciativa é inteiramente baseada no trabalho voluntário. A associação, sem fins lucrativos, conta com uma equipe de coordenação formada por 12 integrantes, além de condutores e colaboradores responsáveis pela logística dos eventos. Em cada atividade, cerca de 80 a 90 pessoas participam, entre voluntários e atletas com deficiência visual.
Segundo Simone, os voluntários desempenham papel indispensável para a continuidade do projeto. Antes de conduzir uma bicicleta tandem, cada participante passa por treinamento específico para aprender técnicas de condução, comunicação e segurança.
“Os voluntários são a alma do projeto. Temos bicicletas e temos pessoas querendo participar, mas sem os condutores nada acontece. São eles que tornam possível a nossa missão de promover a inclusão social por meio do esporte”, afirma.
Os impactos da iniciativa vão além da prática esportiva. Para muitos participantes, o projeto representa uma oportunidade de reconstrução pessoal, fortalecimento emocional e retomada da convivência social. É o caso de Fabiano Cesário de Santana, aposentado e atleta com deficiência visual do DV na Trilha. Ele conta que, após perder a visão, passou meses isolado e enfrentando um quadro de depressão. O contato com o projeto mudou completamente sua perspectiva de vida.
“Quando conheci o projeto, percebi que a pessoa com deficiência visual podia ter uma vida ativa, participar de eventos, praticar esportes e conviver socialmente. O DV na Trilha foi um divisor de águas. Me tirou da depressão e me mostrou que eu podia continuar vivendo de forma plena”, relata.
Fabiano descreve a experiência de pedalar em uma tandem como uma sensação de liberdade. Para ele, a oportunidade de percorrer trilhas, parques e diferentes ambientes ao lado de outras pessoas fortalece não apenas a saúde física, mas também o bem-estar mental e os vínculos de amizade.
A trajetória do projeto também é marcada por desafios e momentos de superação. Em 2011, o local onde as bicicletas eram armazenadas foi invadido. Os criminosos não conseguiram levar os equipamentos, mas retiraram praticamente todas as peças das 14 bicicletas existentes na época. A situação obrigou a suspensão temporária das atividades. A mobilização da comunidade, no entanto, transformou a crise em uma demonstração de apoio. Em apenas 15 dias, o projeto recebeu doações suficientes para recuperar todas as bicicletas e ainda adquirir outras cinco unidades.
Apesar do reconhecimento, a manutenção das bicicletas e a falta de condutores continuam sendo os principais desafios enfrentados atualmente. Como depende de doações e trabalho voluntário, o projeto nem sempre consegue atender toda a demanda de pessoas interessadas em participar.
Hoje, existe inclusive uma fila de espera para novos integrantes com deficiência visual. Quem deseja participar ou atuar como voluntário pode buscar informações por meio do Instagram @dvnatrilhaoficial.








