Para além das festas juninas e da copa, junho também marca a campanha de prevenção e o enfrentamento à violência contra a pessoa idosa com a campanha Junho Violeta. No Distrito Federal, neste mês, ações voltadas para a promoção da autonomia, da qualidade de vida e da garantia de direitos das mulheres são desenvolvidas com o viés da campanha, como, por exemplo, o programa Envelhecer com Sabedoria, da Secretaria da Mulher (SMDF). A iniciativa começou neste mês e já atendeu mais de 500 pessoas idosas.
Ao JBr, a Subsecretária de Ações Temáticas e Participação Política (SUBATPP), da Secretaria da Mulher, Dayane Timóteo da Silva, contou que o projeto terá ações continuadas para além do mês da campanha.
O Junho Violeta alerta para diferentes tipos de agressão, desde a violência física, psicológica, financeira e patrimonial, como também para a negligência e o abandono. De acordo com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), há uma persistência dos casos de violência contra a população idosa em todo o país, reforçando a importância da conscientização e da denúncia.
A violência física, a violência psicológica e a negligência são as agressões mais comuns de acordo com o Observatório Nacional dos Direitos Humanos (ONDH). Os dados apontam maior incidência de casos envolvendo mulheres e a participação de pessoas do convívio familiar entre os principais suspeitos.
O programa
O foco da iniciativa é na proteção e no bem-estar das mulheres, ao incentivar o envelhecimento ativo e saudável, ampliando o acesso à cidadania, à informação e à participação social. De acordo com a Secretaria da Mulher, a expectativa é atender cerca de 3 mil participantes em diferentes regiões administrativas do Distrito Federal por meio de ações educativas, rodas de conversa, acolhimento e articulação intersetorial nos próximos seis meses.
Segundo Dayane, a ação conta com uma série de palestras com temas bem variados, como, por exemplo, ‘Relações Interpessoais e Gentileza’, mas principalmente o tema da violência contra a pessoa idosa, além da importância da alimentação saudável. “É tudo bem informativo, mas também é poético e leve.”
A demanda vem de um entendimento da pasta sobre o desafio de envelhecer. “A gente percebe que a gente já não tem mais a mesma mobilidade, que a gente já não tem mais a mesma saúde”, completou. Partindo dessa percepção, a equipe entendeu que era importante levar o conhecimento para quem precisa. “Queremos disseminar o conhecimento de que o envelhecimento é uma parte muito importante da nossa vida. A gente tem que estar preparado para enfrentar a velhice com qualidade.”
Para Dayane e para a equipe, tem sido uma experiência impactante compartilhar essa vivência das atividades do projeto com essas pessoas mais velhas. O objetivo do programa é visitar instituições que trabalham com pessoas idosas — especialmente mulheres — para levar as palestras e atividades que trabalham o desenvolvimento cognitivo. “Mas é claro, a gente não exclui os homens idosos. Levamos o programa para todos”, acrescentou. Já foram atendidos seis projetos sociais nessas primeiras semanas, alcançando cerca de 500 pessoas idosas ao todo. “Nós levamos também um kit educativo com dados de como envelhecer bem, dicas de locais que essas pessoas podem procurar, como, por exemplo, de atendimentos. A UnB mesmo tem um programa voltado para pessoas idosas, o UNISER”, disse.
Conscientização, pertencimento e redução do isolamento na velhice
A neuropsicóloga Valéria Gomes explicou ao JBr que campanhas como o Junho Violeta são fundamentais, não apenas para combater o etarismo, mas também para ampliar a conscientização social sobre o processo de envelhecimento. “Elas contribuem para desconstruir estigmas, promover informação qualificada e fortalecer a rede de apoio ao idoso.” Além disso, Valéria destacou que iniciativas como essa orientam familiares, cuidadores e a sociedade sobre como oferecer suporte de forma mais respeitosa, ética e humanizada.
A especialista também lembrou que iniciativas como o projeto da Secretaria da Mulher, que focam em pessoas idosas, especialmente nas mulheres mais velhas, exercem um papel essencial na prevenção de transtornos como a depressão.
Ela apontou que existem diferenças importantes na forma como homens e mulheres lidam com o envelhecimento psicologicamente. “As mulheres tendem a apresentar maior vulnerabilidade na velhice por uma combinação de fatores. Entre eles estão a maior expectativa de vida, que aumenta a probabilidade de viuvez, o histórico de sobrecarga com papéis de cuidado ao longo da vida e, em muitos casos, menor independência financeira”, exemplificou. Somada a essas coisas que ela citou, está a construção cultural que associa o valor da mulher à juventude e à aparência, o que pode intensificar sentimentos de perda, solidão e ansiedade.
Para Valéria, o etarismo impacta diretamente a autoestima e a saúde mental, especialmente nas mulheres. De acordo com a psicóloga, as mudanças físicas naturais do envelhecimento, como a perda de massa muscular e as alterações hormonais relacionadas à menopausa, ocorrem em um contexto de forte pressão estética e social. “Isso pode gerar sentimentos de invisibilidade, desvalorização e inadequação, favorecendo o desenvolvimento de ansiedade, depressão e isolamento social”, reforçou.
Neste sentido, ela acredita que a promoção de atividades coletivas, rodas de conversa e oportunidades de aprendizado fortalecem vínculos sociais, estimulam a autonomia e oferecem espaços de escuta qualificada. A participação ativa reduz o isolamento, que é um dos principais fatores de risco para o sofrimento psíquico na velhice, e contribui para uma melhor qualidade de vida.
Para além da conscientização sobre a violência contra os idosos, o Junho Violeta e programas como o Envelhecer com Sabedoria podem possibilitar a redução do isolamento dessas pessoas, trazendo uma sensação de pertencimento e valor social. Valéria reforçou que, para muitas dessas mulheres, principalmente para aquelas que passaram a vida cuidando do outro, sem cuidar de si, essa experiência representa uma mudança importante de perspectiva. “Ao longo da vida, o cuidado com o outro frequentemente ocupou um lugar central, deixando pouco espaço para o autocuidado. Quando passam a frequentar ambientes voltados ao próprio bem-estar, elas têm a oportunidade de se reconhecer como prioridade.”
Ela citou que atividades como dança, pilates, caminhadas, horta e rodas de conversa favorecem a expressão emocional, o fortalecimento da autonomia e a redescoberta de interesses pessoais. “Esse movimento contribui para a construção de uma identidade que vai além do papel de cuidadora e promove mais qualidade de vida, autoestima e sentido para essa fase da vida”, finalizou.
Saiba mais
- Como denunciar: O Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher) funciona 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa, para acolher, orientar e registrar denúncias de violência.
- O Disque 100 também funciona 24 horas por dia e recebe denúncias anônimas de violações de direitos humanos. Os casos também podem ser comunicados às delegacias, ao Ministério Público, aos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e aos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas).
Para receber o projeto: Para as instituições e projetos sociais que quiserem receber o programa Envelhecer com Sabedoria, Dayane afirmou que a solicitação pode ser feita através do e-mail: subatpp@mulher.df.gov.br








