IGOR GIELOW
FOLHAPRESS
O presidente Vladimir Putin disse nesta quinta-feira (1) que é o Ocidente, e não a Rússia, quem está criando uma “nova Cortina de Ferro” a dividir a Europa de seu país. Ele reafirmou que usará armas nucleares em caso de agressão, mas exortou seus rivais a buscar “viver em harmonia conosco”.
As declarações foram dadas em uma das oportunidades anuais de ouvir Putin falar sem parar sobre seu tema predileto, o papel da Rússia no mundo, a reunião do centro de estudos Clube Valdai, próximo do Kremlin.
Ele discursou por 46 minutos e depois ouviu e respondeu por horas questões de especialistas em política externa de 40 países presentes no evento, que durou cinco dias nas proximidades de Moscou.
“Temos de entender que o momento em que nada mais pode ser mudado pode chegar rapidamente e de forma inesperada para todos. A lógica da escalada, com medidas retaliatórias cada vez mais duras, leva a um ponto de não retorno fatal”, afirmou.
Putin comentava a militarização da Europa na esteira de sua invasão de 2022 da Ucrânia e a crescente tensão com países da aliança militar Otan, que acusam a Rússia quase diariamente de promover uma guerra híbrida com ataques disfarçados no continente.
Sobre a sua guerra, disse que a preferia ver solucionada por vias diplomáticas e que está pronto para isso, mas “em condições aceitáveis para o povo russo”. O presidente americano, Donald Trump, retomou o trabalho para tentar mediar uma solução para o conflito.
O líder russo fez a comparação do momento atual com a recriação da Cortina de Ferro, termo forjado por Winston Churchill em 1946. O então líder da oposição britânica, ex e futuro premiê, assim qualificou a presença soviética no Leste Europeu após a Segunda Guerra Mundial.
“Esse é um caminho para a beira do abismo”, afirmou, alertado sobre o emprego de armas nucleares. “Podemos ter certeza de que elas nunca serão usadas? Claro que não. Temos de ter isso em mente e evitar tal desfecho”, completou, prevendo “novos conflitos internacionais”.
O apelo pacifista, que incluiu uma exortação à convivência “em harmonia” com o Ocidente, logo foi suplantado pela reafirmação da doutrina nuclear russa em caso de ameaças a Kaliningrado, o exclave do país entre a Lituânia e a Polônia.
Há duas semanas, o chanceler polonês sugeriu pressão militar da Otan contra a região, levando a uma reação mais dura de Moscou, que advertiu que irá defender o território com armas nucleares, se for preciso.
Segundo Putin, a nova Cortina de Ferro poderá levar à derrocada da União Europeia, ainda que ele tenha dito não ter interesse nisso. Disse que a recente tomada de ativos de empresas ocidentais ainda operando na Rússia é temporária e pode ser revertida se o mesmo acontecer com firmas russas no exterior.
O presidente deu uma má notícia para Trump, que tenta colocar um freio nos ataques da Ucrânia à indústria petrolífera de Putin alegando que é isso, e não sua guerra no Oriente Médio, que fez subir o preço do diesel nos Estados Unidos.
“O veto à exportação continuará enquanto houver sanções contra a Rússia”, afirmou, acerca da recém-estendida proibição da venda de derivados de petróleo devido aos ataques de Kiev. Putin admitiu que as ações foram “parcialmente bem-sucedidas” para Volodimir Zelenski, e que o país perdeu 1% de seu PIB com elas cerca de R$ 140 bilhões.
Putin fez a usual defesa do multilateralismo, usando o grupo Brics, do qual faz parte ao lado do Brasil e outros, como um exemplo de iniciativa de sucesso. “O mundo tem de ser multipolar, não bipolar”, afirmou, numa referência sem nome à Guerra Fria 2.0 entre EUA e China, sua aliada.
Fez elogios ao relacionamento com os dois líderes das superpotências, Trump e Xi Jinping, mas disse ser mais próximo do chinês. “Nos entendemos sem palavras, só com um piscar de olhos”, afirmou. Os três poderão se encontrar em uma cúpula asiática na China, no próximo mês, mas isso não está certo.
Em relação aos EUA, disse que o país sob Trump está bem menos agressivo em relação à Rússia, ao contrário da tendência europeia.







