Quarta-feira, 15/04/26

Quilo de café exótico extraído de fezes de pássaro é vendido por R$ 1.530

Quilo de café exótico extraído de fezes de pássaro é vendido por R$ 1.530
Quilo de café exótico extraído de fezes de pássaro é – Reprodução

Há quase duas décadas, a presença da ave jacu na lavoura de café foi um sinal de preocupação, mas com o passar dos anos a “parceria” se transformou em alta renda para a fazenda Camocim, no interior do Espírito Santo.

O café produzido a partir de grãos catados das fezes do pássaro é comercializado a R$ 1.530 por quilo, em um processo que inclui até congelamento e apenas trabalho manual. O pacote de 250 g custa R$ 382.

Como comparação, a saca de 60 quilos do café arábica, o mais produzido no país, é comercializada por preços entre R$ 1.700 e 1.900, conforme a região, e o valor supera por larga margem também os cafés especiais premiados no país.

Em dezembro, um leilão realizado pela BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais) de 30 lotes de cafés especiais vencedores do Cup of Excellence Brazil 2025 arrecadou R$ 1,79 milhão, ou cerca de R$ 15 mil a saca de 60 quilos -R$ 250 o quilo.

Isso significa que o quilo do café do jacu custa seis vezes mais que alguns dos principais lotes de cafés especiais produzidos no país. Dados do Cecafé divulgados nesta segunda-feira (13) mostram que os embarques de cafés especiais em março tiveram preço médio da saca de US$ 451,56 (cerca de R$ 2.250, ao câmbio desta terça).

“O jacu para nós é um parceiro de algumas colheitas já. Esse fenômeno começou em 2008, quando começou a primeira infestação na fazenda. Vimos uns 30 jacus comendo café e nos preocupamos em chamar Ibama, chamar todo mundo. ‘O que a gente faz?’ Não tem o que fazer, pensamos em tentar aproveitar isso de alguma maneira”, disse o proprietário da fazenda, Henrique Sloper.

A conclusão, a partir de estudos feitos por um amigo que trabalhava numa cooperativa, foi transformar o café numa bebida inspirada “no café da Indonésia”.

O Kopi Luwak Coffee, produzido na Indonésia a partir das fezes da civeta, um pequeno mamífero, é hoje visto como concorrente do Jacu Bird Coffee -ou simplesmente o Café do Jacu-, o café orgânico e biodinâmico produzido na Camocim.

O jacu é uma ave de até 85 cm de comprimento, penas escuras, pescoço esguio e papo vermelho, que se alimenta principalmente de frutos.

Nas montanhas capixabas, encontrou o café como alimento ideal e, cerca de 40 minutos após ingerir os grãos, defeca-os inteiros, numa massa semelhante muitas vezes a um doce pé de moleque.

Os empregados da fazenda, então, fazem a coleta manual e separam os grãos antes da secagem.

Após deixarem a estufa, vão para uma câmara fria, onde ficam até um mês, e passam por um processo de seleção de tamanho, cor e qualidade. Depois, são torrados, moídos e coados.

Por safra, são produzidas cerca de três toneladas do café exótico e certificado pela BSCA, de um total de 230 toneladas da Camocim, mas o suficiente para exportar para Japão, França e Inglaterra e começar a cair no gosto dos brasileiros, segundo Sloper. Na Inglaterra, o quilo chega a ser vendido pelo equivalente a R$ 9.000.

O proprietário da Camocim afirmou que o jacu tem três funções essenciais, que é funcionar como alarme de colheita (onde ele come o café o grão está maduro), selecionador (ele prioriza cafés bons) e replantador (come, voa e deixa resíduos pela floresta).

Mas o que o torna tão mais caro? O processo todo manual, a dificuldade de colheita, de seleção o pós-colheita e o congelamento dos grãos a -25ºC, afirma Sloper.

“É um processo caro de fazer, não existe máquina de processar resíduos de pássaros”, disse ele.
O Jacu Bird Coffee tem como característica principal apresentar baixo teor de cafeína, já que o pássaro consome 70% da cafeína dos grãos.

O consumidor de cafés especiais, que se atenta à pontuação dos grãos consumidos -acima de 80, o café é considerado especial-, não verá o Café do Jacu passar por uma prova do tipo ou entrar numa competição, segundo Sloper.

“O custo de produção é altíssimo. Não faz sentido botar em competição, e não faz sentido dar nota, porque é exótico. Da mesma forma que não faz sentido eu fazer muita conta [sobre os custos], porque se eu fizer, [possivelmente] eu não faria isso. O jacu permite a gente mostrar o que acontece com a agricultura regenerativa. Tem jacu aqui porque é uma área de regeneração.”

T LB

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