Terça-feira, 11/08/26

Relatores da ONU questionam Brasil sobre projeto que derrubou protocolo de aborto legal para crianças

Relatores da ONU questionam Brasil sobre projeto que derrubou protocolo de aborto legal para crianças
Relatores da ONU questionam Brasil sobre projeto que derrubou protocolo – Reprodução

LUANA LISBOA
FOLHAPRESS


Grupos e relatores especiais da ONU enviaram uma carta ao governo brasileiro, em 27 de julho, questionando a aprovação do PDL 3/2025, decreto legislativo que sustou resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) sobre o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de estupro que buscam aborto legal. O governo tem 60 dias para responder.

A carta é assinada pelo Grupo de Trabalho sobre Discriminação contra Mulheres e Meninas e Grupo de Trabalho de Especialistas sobre Pessoas de Descendência Africana e pelos relatores especiais sobre execuções extrajudiciais, direito à saúde, racismo contemporâneo e tortura.

No documento, os signatários afirmam ter “grave preocupação” de que a aprovação do decreto represente um retrocesso na proteção dos direitos sexuais e reprodutivos e aprofunde desigualdades regionais, territoriais e raciais no acesso ao aborto legal.

A carta destaca que o impacto pode ser desproporcional sobre meninas negras, indígenas e quilombolas em situação de vulnerabilidade social e sobre as que vivem em áreas rurais e periferias urbanas.

O processo legislativo também é questionado. Segundo o documento, nenhuma audiência pública com representação ampla de organizações especializadas em direitos da criança, associações médicas, especialistas em saúde pública ou sobreviventes de violência sexual foi realizada antes da deliberação final.

A carta chega após organizações brasileiras levarem o tema ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Em julho, Conectas Direitos Humanos, Plan International Brasil, Católicas pelo Direito de Decidir e outras 14 entidades fizeram um pronunciamento na 62ª sessão do Conselho pedindo que a ONU questionasse o Estado brasileiro sobre o projeto, como mostrou a Folha de S.Paulo.

O texto foi aprovado pelo Senado em votação que durou menos de dois minutos, em sessão remota com plenário esvaziado. Para os relatores, o processo teria sido marcado por falta de devido processo, transparência e debate público amplo.

A carta formula cinco perguntas ao governo brasileiro: pede informações adicionais sobre o caso;
questiona como o PDL está alinhado aos princípios do interesse superior da criança e à vedação de medidas regressivas em direitos humanos; pergunta como o governo pretende garantir a proteção integral de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual; como avaliou o impacto do decreto sobre meninas negras, indígenas e quilombolas; e de que forma organizações da sociedade civil, especialistas em saúde pública e sobreviventes de violência sexual foram consultados no processo.

Os signatários recordam que o Comitê sobre os Direitos da Criança, em suas observações conclusivas sobre o Brasil publicadas em 2025, já havia manifestado preocupação com a alta taxa de gravidez infantil no país e com as barreiras ao acesso ao aborto legal em condições seguras.

O comitê recomendou que o Brasil garantisse acesso ao aborto seguro e a cuidados pós-aborto para adolescentes e meninas em todos os estados e municípios, assegurando que suas opiniões sejam sempre ouvidas.

A carta também retoma achados da relatora especial da ONU sobre racismo contemporâneo após sua visita ao Brasil em 2024. Na ocasião, ela havia descrito o caso de uma menina negra de 11 anos, em Santa Catarina, pressionada por autoridades públicas —incluindo uma juíza— a continuar uma gravidez resultante de estupro, apesar de se enquadrar nas hipóteses legais de interrupção.

A relatora apontou que barreiras ao acesso ao aborto legal levam mulheres e meninas a recorrerem a procedimentos inseguros, com mortes evitáveis que atingem de forma desproporcional grupos raciais e étnicos marginalizados.

A carta lembra ainda que o Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher já estabeleceu que a falha dos Estados em garantir acesso seguro ao aborto, especialmente em casos de estupro, pode constituir violência de gênero e violação do direito à vida e do direito a não ser submetida a tratamento cruel, desumano ou degradante.

Não é a primeira vez que a ONU questiona o Brasil sobre direitos sexuais e reprodutivos. Em março de 2025, a organização já havia enviado ao governo um alerta para o risco de o PL 1904/2024 —que pretendia criminalizar o aborto acima de 22 semanas, inclusive em casos de estupro— e a PEC 164/2012 violarem obrigações internacionais do país. O governo respondeu àquela comunicação.


T LB

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