Sexta-feira, 17/04/26

Responsável por creche na Estrutural, ativista cego diz que respostas de crianças iluminam os dias  

Responsável por creche na Estrutural, ativista cego diz que respostas de crianças iluminam os dias  
Responsável por creche na Estrutural, ativista cego diz que respostas – Reprodução

Por Danilo Lucena
Agência de Notícias CEUB

Na rotina barulhenta de uma creche comunitária na Cidade Estrutural (DF), entre risadas e gritos alegres de crianças, uma frase resume o improvável do cenário: “aqui é a única creche em que tem um cego porteiro”. O “porteiro” é Paulo Lafaiete, de 41 anos, que ocupa a presidência da instituição Semeando Esperança. Mas a piada, mesmo dita aos risos, revela uma trajetória marcada por desafios, persistência e, sobretudo, determinação de colaborar com as famílias de uma comunidade periférica.

“Minha infância foi marcada por vários desafios”, diz. Baiano, Paulo perdeu a visão ainda bebê. “Com três meses de vida, eu perdi a visão”. A informação não vem carregada de vitimismo, mas de uma espécie de ironia. “Só eu que tive esse privilégio, ou azar, não sei como te dizer”. 

Filho de uma empregada doméstica, cresceu enfrentando dificuldades de acesso à educação. Quando chegou a Brasília, ainda criança, encontrou um sistema pouco preparado para incluí-lo.

Na escola, o tempo parecia correr diferente para ele. “Enquanto meus colegas tinham o material na mão, eu tinha que esperar dois, três meses para que chegasse o material em braile”, lembra. 

Exclusão

Quando o conteúdo finalmente chegava, muitas vezes já era tarde. “Às vezes, quando o material chegava, já nem interessava mais”. Foi apenas com o avanço da tecnologia que parte dessas barreiras começou a cair. O computador, antes distante, virou ferramenta essencial.

A escolha profissional também veio cercada de dúvidas. Não para Paulo, mas para aqueles que o cercavam. “Muita gente dizia que eu não poderia fazer comunicação porque era uma área muito visual”. Paulo não recuou.

“Eu sempre tive uma mente muito aberta e fui atrás de como fazer isso com autonomia” Formou-se em publicidade e propaganda em 2013. “Não satisfeito, fui lá e fiz mais uma”, diz, referindo-se às especializações que vieram depois, incluindo audiodescrição, área fundamental para acessibilidade.

Antes da creche

Antes de chegar à creche, acumulou experiências em conselhos e organizações ligadas à defesa dos direitos das pessoas com deficiência. “Eu já fiz muita coisa”, resume. Mas foi quase por acaso que sua vida cruzou com a de Raquel Cristina, fundadora do projeto voltado para crianças que, atualmente, ele preside. “Eu estava tranquilamente no Facebook… e aí tudo mudou.” Uma conversa despretensiosa virou encontro, que virou parceria. “Depois disso, eu não voltei mais para casa.”

“As crianças amam o Paulo. A trajetória dele ensina dignidade todos os dias”, reconhece Raquel, ao falar do amigo. “Ele está ali de verdade, realmente se importando com as crianças”.

Vulnerabilidade

Hoje, como presidente da instituição, Paulo participa de tudo: da gestão às atividades com as crianças. Para ele, o sentido do trabalho é claro. “Nosso trabalho é dar dignidade para as crianças”. A creche atende, majoritariamente, filhos de catadores de material reciclável, em um contexto de extrema vulnerabilidade social.

É nesse cotidiano que surgem as histórias que mais o marcam e que ajudam a dimensionar a importância do projeto. “Teve uma criança que chegou pra mim e falou: ‘Tio Paulo, eu queria te contar um segredo: a comida da creche é mais gostosa que a da minha casa’.” A frase, dita com a naturalidade de quem ainda não sabe o peso das palavras, o atingiu em cheio. “Na casa desse menino, ele comia água com farinha e sal.”

Em outra ocasião, uma criança que deixou a creche adoeceu. “O menino teve febre chamando ‘tio Paulo, tio Paulo’… até o pai trazer ele de volta.” Para ele, são sinais de algo maior: “São sementes que vão florescendo ao longo da trajetória”. Não se trata apenas de alimentação ou cuidado, mas de vínculo, referência e afeto.

Pedagogia da solidariedade

A relação das crianças com sua deficiência, nesse contexto, chega a ser bastante curiosa. “As crianças pequenas não entendem que eu tenho deficiência”, conta. “Elas mostram o desenho e perguntam se ficou bonito, e eu não tiro essa inocência.” Ao mesmo tempo, transforma a própria condição em ferramenta pedagógica. “A gente trabalha muito a questão da solidariedade”.

Paulo também se torna exemplo no cotidiano. As crianças repetem seus ensinamentos em casa. “Eles dizem: ‘Tio Paulo falou que a gente não pode brigar’.” Pequenos gestos que indicam a construção de valores em meio a um ambiente muitas vezes marcado pela escassez e pela violência.

Paulo gosta de ir no cinema e conta com audiodescrição. Foto: Arquivo pessoal

Manter o projeto, no entanto, não é simples. A instituição enfrenta dificuldades financeiras e estruturais. “Sem dinheiro, a gente fica meio sem opções”, admite. Ainda assim, o trabalho é sustentado por doações, esforço da comunidade e insistência.

Quando perguntado sobre o que mais lhe dá orgulho, Paulo hesita por alguns minutos. Fiquei em silêncio aguardando sua resposta. “É, mesmo com a limitação, poder ajudar outras pessoas”. A frase resume não só sua trajetória, mas o papel que ocupa hoje.

Paulo traduz sua própria vida em um ditado conhecido: “A vida é isso: lidar com os limões e fazer deles uma limonada”. Na creche onde atua, essa limonada se multiplica em cuidado, afeto e oportunidade para crianças que, de outro modo, talvez tivessem que começar a trabalhar desde pequenas.

T LB

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