Quarta-feira, 05/08/26

Rota de retorno: quando o pneu velho volta às estradas

Rota de retorno: quando o pneu velho volta às estradas
Rota de retorno: quando o pneu velho volta às estradas – Reprodução

O destino de um pneu que já não têm mais condições de rodar, chamado de inservível, costuma passar despercebido. Depois de milhares de quilômetros rodados, basta uma troca na oficina para que ele desapareça da rotina do motorista, que volta com o veículo às ruas com pneus novos e a preocupação termina ali. A borracha deixada, porém, começa um novo percurso.

O desafio muda de fase e passa a ser transformar o pneu descartado em matéria-prima para novos produtos – entre eles, o asfalto-borracha, tecnologia que permite que o material volte justamente para o lugar onde passou boa parte da vida: as próprias estradas.

Estudos e experiências realizadas apontam que a tecnologia pode aumentar a durabilidade do pavimento, reduzir a necessidade de manutenção, melhorar a aderência e diminuir ruídos durante o deslocamento.

Testes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) em simuladores de tráfego mostram que o asfalto-borracha resiste a muito mais ciclos de carga antes de rachar do que a pavimentação tradicional, aumentando a vida útil das estradas e, consequentemente, a segurança dos motoristas.

Segundo os resultados encontrados no estudo, o asfalto-borracha apresentou desempenho significativamente superior ao do asfalto convencional. Retardou em cinco vezes o surgimento das trincas por reflexão.

O recapeamento em asfalto-borracha também apresentou melhores condições estruturais e funcionais ao longo do ensaio, mesmo possuindo a mesma espessura do revestimento convencional.

Um longo caminho

O caminho de volta às estradas, porém, passa por diversas etapas. Produzido com uma combinação de borracha, aço e fibras têxteis, e desenvolvido para suportar impactos, altas temperaturas e longas distâncias, o pneu se transforma em um problema ambiental e de saúde pública quando abandonado em terrenos ou esquecido em áreas abertas.

Nesses casos, acumula água da chuva, favorece a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya, além de representar risco de incêndios capazes de liberar fumaça tóxica e contaminar o solo e os recursos hídricos.

Para evitar que esse material se transforme em um passivo ambiental, o Brasil criou uma das cadeias de logística reversa mais estruturadas entre os resíduos sólidos. A Resolução nº 416/2009 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) determina que, para cada pneu novo comercializado no mercado de reposição, fabricantes e importadores devem assegurar a destinação ambientalmente adequada de um pneu inservível equivalente.

Na prática, a responsabilidade pelo produto não termina na venda. Ela acompanha todo o ciclo: do comércio à coleta, do armazenamento ao reaproveitamento.

Em 2024, o país alcançou 94,92% da meta nacional de destinação adequada dos pneus inservíveis. Entre os fabricantes nacionais, o índice ultrapassou a meta prevista, chegando a 101,26%, enquanto os importadores atingiram 89,12%.

Os números mostram uma engrenagem que envolve indústria, recicladores, pontos de coleta e órgãos ambientais. Mas é nas borracharias que o caminho entre o descarte e a transformação dos pneus se inicia.

O primeiro destino

Na Borracharia Avenida, em Luziânia (GO), Antônio Valdir, conhecido por todos como Toim, acompanha esse processo há mais de 25 anos. Enquanto troca pneus diariamente, também administra uma responsabilidade que muitos clientes sequer imaginam existir.

A destinação correta dos pneus começa nas borracharias, como a de Antônio Valdir, que entrega as peças que recebe às empresas especializadas em logística reversa de pneus | Foto: Isabele Mendes/Jornal de Brasília

A matéria-prima que voltará às estradas é armazenada em um ambiente fechado, longe do lixo comum. “Quando o pneu não tem mais funcionalidade para rodar, a gente leva para o galpão. Quando junta um caminhão cheio, a empresa vem buscar e leva para a reciclagem”, explica.

Segundo o comerciante, a rotina mudou ao longo dos anos. Antes, a coleta era feita pelo poder público municipal. Hoje, as próprias borracharias precisam garantir o armazenamento temporário até que o material seja recolhido por empresas especializadas. “A responsabilidade passou para nós. Mesmo sendo um resíduo que veio do cliente, precisamos garantir que tenha a destinação correta”, afirma.

Até 2020, existiam cerca de 1.160 pontos de coleta distribuídos pelo país, segundo dados da Reciclanip, empresa especializada na logística reversa dos pneus – considerada a maior da América Latina e a 3ª maior no mundo no setor de pneus.

Ao deixarem as borracharias, os pneus seguem caminho para empresas especializadas no processo chamado de descaracterização. Ao chegarem, primeiro são cortados e triturados. Em seguida, borracha, aço e fibras têxteis são separados para diferentes formas de reaproveitamento.

O início da transformação até o asfalto

É na descaracterização que o pneu começa a se tornar matéria-prima a ser incorporada ao pavimento asfáltico, o chamado asfalto-borracha – que já é utilizado há décadas em estados como Minas Gerais, Rondônia, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Segundo a coordenadora-geral de Gestão da Qualidade Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – órgão que regula a logística reversa dos pneus inservíveis –, Mariana Midori Nakashima, essa etapa é fundamental para garantir que o material deixe de ser um problema ambiental e possa retornar à cadeia produtiva.

“A destinação ambientalmente adequada de pneus inservíveis é realizada por meio da descaracterização do pneu, normalmente por meio de corte e trituração, seguida da separação dos seus materiais, borracha, aço e tecido, para reciclagem ou reaproveitamento”, explica.

O mais importante, segundo a coordenadora, é impedir que o pneu permaneça abandonado. “A coleta e a destinação adequada asseguram a gestão correta desses resíduos e evitam problemas ambientais e de saúde pública, como a proliferação de vetores em locais com acúmulo de água”, destaca Mariana.

Qualidade é essencial

A qualidade asfáltica acompanha o dia a dia de milhares de brasileiros, especialmente caminhoneiros em estradas do país. É quem passa boa parte da vida atrás do volante que percebe a diferença mesmo nos menores desgastes.

Além da maior durabilidade, asfaltos com pneus reaproveitados dão mais segurança nas rodovias, uma preocupação do caminhoneiro Isailton Trindade, há 20 anos nas estradas | Foto: Isabele Mendes/Jornal de Brasília

Para Isailton Trindade, 46 anos, a qualidade do pavimento influencia muito mais do que o conforto. Há mais de 20 anos dirigindo caminhões, ele conhece o país pela boa condição das estradas.

“Para quem passa a vida dentro do caminhão, isso [maior qualidade] significa mais segurança. Eu costumo brincar que minha casa é o caminhão. E, para voltar em segurança para a casa onde estão minha esposa e meus filhos, preciso que essa casa da estrada também seja segura”, conta.

A experiência do caminhoneiro dialoga com uma discussão que começa a ganhar espaço na infraestrutura brasileira. Embora a utilização da borracha reciclada no asfalto apresente resultados positivos em diferentes estados, a tecnologia ainda representa uma parcela pequena das pavimentações do país.

No Distrito Federal, por exemplo, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF) informou que realiza estudos para analisar a viabilidade técnica e econômica do asfalto-borracha antes de decidir sobre sua aplicação na malha viária. A discussão também chegou à Câmara Legislativa por meio do Projeto de Lei nº 1.389/2020, que previa incentivar o uso da tecnologia em obras públicas, mas a proposta acabou vetada.

  • Amanhã: como o pneu deixa de ser resíduo, vira matéria-prima, passa por processos industriais e chega novamente ao asfalto.

T LB

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