Terça-feira, 05/05/26

Sem acordo, USP declara encerradas as negociações para fim da greve estudantil

Novo reitor da USP enfrenta primeira greve após aprovar bônus para professores
Novo reitor da USP enfrenta primeira greve após aprovar bônus – Reprodução

BRUNO LUCCA
FOLHAPRESS


Mesmo sem acordo, a reitoria da USP (Universidade de São Paulo) diz considerar encerradas as negociações para o fim da greve estudantil, iniciada há quase três semanas.

Ao longo desse período, foram realizadas três reuniões entre membros da gestão de Aluisio Segurado e estudantes, totalizando quase 20 horas de conversas. Diante das propostas apresentadas, a instituição informa não ter mais interesse em debater as demandas.

O movimento discente tinha a expectativa de que outra mesa de negociação fosse marcada para esta semana. Membros da reitoria haviam se comprometido a isso.

O movimento dos alunos tem como pautas melhores condições de permanência, com aumento no valor das bolsas integrais de R$ 885 para cerca de R$ 1.804 (salário mínimo paulista), e investimento na qualidade dos serviços oferecidos nos restaurantes universitários.

O último encontro da reitoria com os discentes ocorreu na quinta-feira (30). Nele, foram formalizadas propostas para encerrar a greve estudantil, entre elas o reajuste dos auxílios do Programa de Apoio à Formação e Permanência Estudantil (Papfe) pelo índice IPC-FIPE.

Com a correção, o auxílio integral passaria de R$ 885 para R$ 912 por mês. A modalidade parcial com moradia subiria de R$ 330 para R$ 340.

O programa atende 17.587 estudantes de graduação e pós-graduação em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O orçamento de 2026 para assistência estudantil -incluindo bolsas, moradia, restaurantes e saúde- é de R$ 461 milhões.

A reitoria anunciou ainda a criação de uma modalidade de bolsa voltada a alunos ingressantes em situação de vulnerabilidade.

A instituição também apresentou sugestões sobre os restaurantes universitários. Além da instauração de grupos para avaliar a qualidade deles, foi prometida a contratação de novos funcionários, a oferta de três refeições durante a semana e a implementação de café da manhã e almoço aos sábados.

Também foram colocadas ofertas sobre a criação de grupos de trabalho com ampla participação discente.

Um deles seria para avaliar cotas para trans e indígenas no vestibular, demanda antiga do movimento estudantil.

Outro seria para discutir o uso de espaços pelos centros acadêmicos. Uma minuta que visava regulamentar o tema acabou cancelada pela reitoria após críticas. O texto previa obrigações como prestação de contas, critérios de transparência e regras para contratação de serviços. Também definia que a autorização para uso de espaços tem caráter precário, podendo ser revogada pela universidade mediante justificativa.

“A pressão do movimento estudantil fez a reitoria ceder e já implementar algumas propostas, demonstrando que nossa luta está surtindo efeito. Porém, deixamos claro que promessas não são suficientes, que nossas demandas ainda não foram atendidas em sua totalidade e que seguimos em greve”, diz o DCE (Diretório Central dos Estudantes).

CAPILARIDADE DA GREVE

A paralisação dos estudantes da USP chegou a todas as 43 escolas, faculdades e institutos, na capital e no interior.

Isso não significa que todos os mais de 180 cursos estejam paralisados. Segundo contabilizado pela reportagem, o número chegou a 110 -ou seja, cerca de 60%-, mas já diminuiu.

O movimento teve como estopim um bônus para professores da instituição, chamado de Gace (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas).

A medida, votada pelo Conselho Universitário em 31 de março, criou um pagamento adicional de R$ 4.500 voltado a docentes que assumirem projetos considerados estratégicos, como a oferta de disciplinas em inglês e ações de extensão.

O mecanismo, que custará R$ 238,44 milhões por ano aos cofres da instituição, também deu início a uma greve de servidores, encerrada após a reitoria oferecer o mesmo repasse à categoria.

Agora, os estudantes também tentam extrair algo da gestão de Aluisio Segurado.

Em comunicado expedido no último dia 22, a Pró-Reitoria de Graduação da USP vetou qualquer alteração no calendário acadêmico devido à greve dos estudantes.

“Não estão previstas nem autorizadas alterações no período de aulas, nas interações de matrícula, nos prazos para lançamento de notas e frequência ou no período de recuperação”, diz o texto.

Da mesma forma, segue, não está autorizada a migração de atividades presenciais para o formato remoto, tampouco que sejam ministradas disciplinas por meio de gravação.


T LB

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