SÃO PAULO (FOLHAPRESS) – A Venezuela pode voltar a registrar uma migração em massa para países vizinhos caso a comunidade internacional não consiga restaurar rapidamente o sistema de saúde devastado pelos terremotos.
É o que afirma o médico sanitarista Jarbas Barbosa, 62, diretor da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde). Ele diz que a destruição de hospitais, a falta de profissionais e a interrupção de tratamentos podem levar milhares de pessoas a deixar o país em busca de atendimento médico.
Dos 73 hospitais e unidades de saúde avaliados após os terremotos, 25 sofreram danos de diferentes magnitudes e, em 20 deles, o atendimento foi comprometido pela ausência de médicos e enfermeiros. “Alguns profissionais de saúde provavelmente estão sob os escombros; outros perderam tudo e ainda não conseguiram voltar ao trabalho”, afirma Barbosa à Folha.
Para evitar um colapso ainda maior, a Opas mobilizou 43 equipes médicas de emergência de 22 países, incluindo uma equipe da Marinha brasileira, além de enviar mais de seis toneladas de medicamentos, kits cirúrgicos, equipamentos para tratamento de água e materiais de saneamento destinados aos hospitais e aos abrigos que recebem milhares de desabrigados.
A preocupação, porém, vai além da assistência imediata às vítimas. A interrupção do tratamento de pacientes com HIV, diabetes, hipertensão e câncer, a baixa cobertura vacinal e o risco de surtos de doenças infecciosas podem prolongar a emergência sanitária e acelerar um novo fluxo migratório para países como Brasil e Colômbia, afirma o diretor da Opas.
Barbosa afirma que garantir vacinação, exames e continuidade do tratamento aos venezuelanos que cruzam as fronteiras é uma medida de saúde pública. “Quando não se oferece acesso, as pessoas evitam procurar atendimento e um surto pode deixar de ser detectado. Proteger os migrantes é também proteger a população dos países que os recebem”, diz.
Os terremotos danificaram 73 unidades de saúde e 11 hospitais prioritários. Qual é o plano de contingência para as regiões onde médicos atendem de forma improvisada?
O primeiro passo foi avaliar rapidamente os danos. Das 73 unidades de saúde inspecionadas, 25 sofreram avarias de diferentes magnitudes, e 20 enfrentam graves dificuldades por falta de profissionais. Em alguns casos, médicos e enfermeiros morreram, estão desaparecidos ou perderam suas casas e familiares.
Mobilizamos 43 equipes médicas de emergência de 22 países, incluindo uma equipe da Marinha do Brasil, além de hospitais de campanha e mais de seis toneladas de medicamentos, kits cirúrgicos e equipamentos para garantir água potável e saneamento nos abrigos.
Há um levantamento de quantos profissionais de saúde desapareceram ou deixaram de trabalhar após o terremoto?
Ainda não. Estamos identificando os profissionais que não retornaram às unidades, mas ainda é impossível saber quantos estão sob os escombros, quantos perderam familiares ou permanecem procurando parentes. Essa contagem ainda está em andamento.
A Opas lançou um apelo de uma ajuda internacional de US$ 24 milhões para restaurar a capacidade de atendimento do sistema de saúde venezuelano. Como está a resposta dos doadores?
Já começamos a receber doações importantes do Canadá, da Espanha, da União Europeia e dos Estados Unidos.
Também esperamos novos anúncios de ajuda. Um diferencial da Opas é que utilizamos mecanismos regionais de compra de medicamentos e equipamentos, o que permite transformar rapidamente os recursos recebidos em insumos que chegam diretamente aos hospitais e às equipes de saúde.
Diante da crise e transição política atual, como a Opas garante transparência na aplicação desses recursos?
Temos experiência anterior na Venezuela. Durante a crise em que o país convivia com dois governos, administramos recursos destinados à compra de antirretrovirais com acompanhamento da sociedade civil e de diferentes instituições.
Hoje documentamos todas as entregas, inclusive com registros fotográficos, para assegurar aos doadores que os insumos chegam aos hospitais conforme as necessidades, independentemente de questões políticas.
O risco de surtos preocupa diante da destruição da infraestrutura. Quais são as prioridades?
A cobertura vacinal já era insuficiente antes do terremoto. Agora a prioridade é proteger quem está nos abrigos. Recebemos vacinas do Brasil e do Chile e enviamos kits para garantir água potável, saneamento e manejo adequado de resíduos.
Também mantemos vigilância epidemiológica para detectar rapidamente doenças respiratórias, diarreicas e de pele. Outra preocupação é restabelecer o controle de vetores, porque os escombros e o acúmulo de lixo favorecem a proliferação de mosquitos transmissores de doenças.
Como a Opas está lidando com o risco ambiental diante dos necrotérios superlotados e improvisados?
Fornecemos sacos mortuários e apoiamos a instalação de câmaras frias para o armazenamento adequado dos corpos. Em grandes desabamentos, várias vítimas podem ser retiradas simultaneamente, o que exige uma estrutura específica para garantir um manejo digno e seguro.
E os pacientes com doenças crônicas? Há algum corredor humanitário ou fundo de emergência específicos para restabelecer remédios de uso contínuo desses pacientes?
Essa é uma preocupação enorme. Muitas vezes esse problema fica invisível em grandes desastres, mas diabéticos ficam sem insulina, hipertensos sem medicamentos e pessoas vivendo com HIV sem antirretrovirais.
A primeira remessa enviada permite atender cerca de 10 mil pacientes durante três meses, mas será necessário ampliar esse apoio.
A saúde mental também entra nesse esforço?
Sem dúvida. Duas unidades de saúde mental colapsaram completamente. Além disso, milhares de pessoas perderam familiares, casas e toda a sua referência de vida. O apoio psicológico faz parte da resposta humanitária e também da reconstrução do sistema de saúde.
O colapso do sistema de saúde pode provocar uma nova onda migratória?
Esse risco existe. Desde a grande migração de 2018 trabalhamos com Brasil, Colômbia e outros países para preparar seus sistemas de saúde. Hoje o perfil dos migrantes é diferente: há famílias inteiras, gestantes, idosos e pessoas com doenças crônicas.
Garantir atendimento é fundamental não apenas por razões humanitárias, mas também para proteger a saúde pública dos países que recebem esses migrantes.
Que tipo de preparação os países vizinhos devem fazer?
É essencial assegurar vacinação, acesso a medicamentos e continuidade do tratamento das doenças crônicas. Em 2018 e 2019 vimos grupos inteiros de pessoas vivendo com HIV deixarem a Venezuela porque não conseguiam mais acesso aos antirretrovirais.
Muitas percorreram toda a América do Sul em busca de tratamento. Se o sistema de saúde venezuelano não se recuperar, situações como essa podem voltar a ocorrer.
Alguns defendem barreiras sanitárias para conter esse fluxo migratório. Essa é a estratégia correta?
Nossa recomendação é exatamente a oposta: oferecer acesso. Quando os migrantes têm medo de procurar uma unidade de saúde, doenças infecciosas deixam de ser diagnosticadas e um surto pode começar sem ser identificado.
Garantir vacinação, exames e tratamento protege os próprios migrantes e também a população do país que os acolhe.
A Opas já observa aumento da pressão migratória sobre cidades brasileiras como Pacaraima e Boa Vista? Ainda não temos dados que indiquem um aumento provocado pelo terremoto. A migração nunca deixou de existir por causa da situação econômica da Venezuela. Havia expectativa de redução nos últimos meses, diante de sinais de recuperação econômica. Mas, se não houver apoio internacional para reconstruir o país, é provável que o fluxo migratório volte a crescer.
A Opas defende flexibilizar sanções econômicas contra a Venezuela neste momento?
Essa não é uma decisão que cabe à Opas. Nossa prioridade é salvar vidas. É fundamental garantir que ajuda humanitária, medicamentos, equipamentos e insumos possam chegar ao país sem obstáculos e que hospitais tenham água, energia elétrica e condições de continuar funcionando. Neste momento, essa é a questão central.








