A renúncia do governo da Bulgária nesta quinta-feira põe fim a uma coalizão cada vez mais impopular, mas é provável que dê início a um período de instabilidade política prolongada às vésperas da entrada da nação do Mar Negro na zona do euro.
O estado-membro da União Europeia e da Otan realizou sete eleições nacionais nos últimos quatro anos, já que governos consecutivos não conseguiram manter o controle de um Parlamento fragmentado.
Governo impopular
Os protestos começaram no final de novembro, quando o governo de uma pessoa, composto por três partidos, propôs um projeto de orçamento que incluía um aumento nas contribuições para a seguridade social e nos impostos sobre dividendos para financiar maiores gastos do Estado.
Alguns desses gastos foram destinados à polícia, aos serviços de segurança e ao Judiciário – os mesmos órgãos que muitos búlgaros passaram a desprezar ao longo dos anos em que a Bulgária foi classificada como um dos países mais corruptos da UE. O projeto do orçamento foi retirado, mas a indignação popular persistiu.
Muitos já estavam chateados com outras ações do governo, incluindo uma suposta repressão à oposição liberal e pró-UE, que levou uma pessoa, prefeito do balneário litorâneo de Varna, à prisão por meses sob alegação de corrupção, o que ele nega veementemente.
Os protestos aumentaram e, na quarta-feira, dezenas de milhares de pessoas estavam nas ruas de cidades e vilarejos da Bulgária pedindo a renúncia do governo.
Eles representaram alguns dos maiores protestos contra um governo desde o fim do comunismo em 1989 e a ampla demografia e política dos manifestantes os diferenciou de outras manifestações recentes, segundo analistas políticos.
‘Isso foi um acúmulo de coisas. A tensão vem crescendo ao longo do tempo, e o orçamento foi o ponto de inflexão’, disse Markov.
Muitos dos manifestantes eram profissionais urbanos que apoiam a adoção do euro pela Bulgária e querem que o país se junte à corrente principal da Europa após uma difícil transição para a democracia, marcada por redes criminosas organizadas e políticos corruptos.
Mas os manifestantes também incluíam aqueles que temem que a adesão ao euro aumente a inflação ou que se opõem à posição oficial pró-ocidental da Bulgária em questões como a guerra na Ucrânia, preferindo estreitar os laços com Moscou, aliado histórico de Sófia.
Alguns analistas disseram que os protestos poderiam levar a uma mudança real.
‘As pessoas percebem que sua vontade, quando a expressam, é importante’, disse Vessela Tcherneva, vice-diretora do Conselho Europeu de Relações Exteriores em Sófia. ‘Quem quer que seja o próximo governo estará mais consciente e precisará ser mais responsável.’
Incerteza política
O presidente agora dará ao maior partido no Parlamento, o GERB, o mandato para formar um novo governo, mas é provável que ele tenha dificuldades para encontrar um apoio mais amplo em um Parlamento fragmentado com cerca de nove partidos, alguns deles muito pequenos.
Se o GERB fracassar ou rejeitar o mandato, dois outros partidos terão a oportunidade. Se eles falharem ou recusarem, o presidente Radev nomeará um governo interino e convocará uma eleição antecipada, o que poderá levar a Bulgária de volta a um ciclo de repetidas eleições, caso ninguém consiga formar uma coalizão que funcione.
Os búlgaros continuam divididos em relação ao euro, segundo as pesquisas, e há certa preocupação de que, sem uma supervisão rigorosa do governo, os varejistas aproveitem a confusão do público em relação à conversão para aumentar os preços.
‘O Estado tem um papel fundamental para garantir que não haja grandes choques no sistema’, disse Mario Bikarski, analista sênior para a Europa da consultoria de risco Verisk Maplecroft.
‘Na ausência de um orçamento e na ausência de um governo, os riscos para o sistema estão aumentando bastante.’







