Rosa* trabalhou na Embaixada da Grécia, em Brasília, por quase dez anos. Afora reclamações tidas como cotidianas em um local de trabalho, nunca tivera problemas com os empregadores e ainda conseguia fazer um bico ou outro na própria representação diplomática para tirar um dinheiro extra. Só que na alvorada de 2026 tudo mudou. “Eu tenho vontade de chorar só lembrando disso”, relata, em entrevista ao Jornal de Brasília. “Tive que aguentar uma pessoa que poderia ser minha mãe, 74 anos, me chamando para desdenhar de mim”, relata a ex-funcionária, que sofreu uma perda na família recentemente.
A história de Rosa se confunde e mistura com os relatos colhidos pela reportagem junto a outros colaboradores, que já até apresentaram denúncia no Sindicato Nacional dos Servidores de Embaixadas (Sindnações) – que, por sua vez, registrou reclamação formal junto ao Itamaraty. O que eram trabalhos rotineiros de zeladoria e manutenção viraram esforços hercúleos em 16 de janeiro, quando a Grécia – ou República Helênica – trocou oficialmente a representação diplomática em Brasília. Eleni Lianidou, com experiência de 35 anos na diplomacia, desembarcou no Brasil para liderar a embaixada da capital brasileira.
“No primeiro dia ela já chegou com ofensas, sem nenhum diálogo”, comenta Cícero*, que, até hoje, trabalha no local. “[Foi] a primeira vez que a gente viu uma embaixadora chegar da maneira que chegou. Não subiu nem na residência”, lembra o homem, além de reforçar que Lianidou passou a encrencar com uma das assessoras por conta da cor do cabelo da mulher. “Não serve para embaixada”, teria dito a maior representante do governo grego no Brasil, em público, de acordo com três fontes ouvidas pelo JBr.
Cícero fala de forma leve sobre os casos de assédio moral que relata ter sofrido, mas se assombra com o que aconteceu com Rosa. “Ela fazia comida, subia escada, descia escada, lavava a roupa, passava a roupa no quarto sem ar condicionado”, revolta-se. Rosa confirma. Esse foi um dos primeiros relatos feitos ao Jornal de Brasília. “Eu liguei o ar condicionado porque não ia morrer por falta de ar”, fala a mulher. “Uma casa toda lajeada, tudo fechado, e ela foi lá e desligou o ar na minha cara”, relata. E garante: “lá nunca teve isso.”
Mas este não é nem de perto o episódio mais grave da situação vivida na embaixada. Conforme conta Cícero, em 10 de março ele chegou ao trabalho e deu de cara com soda cáustica espalhada pelo chão. Quando interpelou a colega, a resposta veio carregada de ressentimento: “essa infeliz me mandou esfregar”. Ela conta que foi obrigada a limpar o chão da embaixada com o produto, que é corrosivo e não deve ser manejado sem equipamentos de proteção – algo que o emprego sequer oferecia.
“Ela jogou um monte de soda cáustica no chão, pegou o escovão e falou ‘você vai limpar aqui’”, diz. Rosa relata que chamou a atenção da embaixadora para o fato de que o produto era tóxico. “Ela não quis nem saber, começou a gritar”, diz, resignada. A ex-funcionária acatou. “No final do dia, eu cheguei em casa já com falta de ar, com as pernas ardendo, coçando. Não consegui dormir com aquilo me queimando, era direto no gelo”, relata. “No dia seguinte eu paguei uma consulta particular”, conta.
O manejo e a fabricação de soda cáustica são considerados pela NR-15 (anexo nº 13), do Ministério do Trabalho, como atividade de “insalubridade média” – portanto, obrigatoriamente realizada com uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Pela NR 6, da mesma pasta, os empregadores são responsáveis por adquirir e fornecer os EPIs, além de orientar e treinar os empregados e, por fim, exigir o uso nas condições previstas. Neste caso, deveria-se oferecer luvas de PVC ou nitrila; óculos de proteção com vedação; máscara facial com filtro químico; e avental e botas impermeáveis.
Rosa fez o serviço com roupas de tecido comum e chinelos.
O abismo entre a mesa de jantar e a cozinha
Em 15 de maio, a embaixada organizou um jantar em celebração à indicação de um novo embaixador brasileiro para atuar na Grécia. Três semanas antes, o diplomata Laudemar Gonçalves de Aguiar fora aprovado no Senado Federal para trabalhar na República Helena – nome oficial do país. O agrément, que representa a aceitação do país em relação ao novo embaixador, veio em setembro. Esse jantar conturbado – ao menos nos bastidores – foi o fim da linha para Rosa. Principalmente porque, com as demissões promovidas ou incentivadas por Lianidou, seu trabalho era cada vez mais abrangente.
Em abril, ela foi encarregada pela própria embaixadora para cuidar do evento, algo fora de suas atribuições originais (Rosa costumava fazer trabalhos por fora, “bicos”, quando em outras gestões) e também de seu horário de trabalho. Resolveu pedir um extra, mas foi cortada: “Eu não vou pagar. Você vai cozinhar e se vira”, teria dito a diplomata, segundo a ex-funcionária. “Era como se eu fosse uma escrava”, define. Ela já havia se encarregado da decoração e da arrumação do local e sofria com o que considera desrespeito por parte da embaixadora. Pouco dias antes do jantar, encerrou um ciclo de 18 anos no local.
Em 14 de maio, no Setor de Embaixadas Sul, vinte convidados vestidos em trajes formais – nada muito engessado – foram recebidos com enfeites de rosas brancas e velas postas em castiçais de prata, colocadas em cima de uma longa toalha cinza. A mesa grande acolheu todos da lista de convidados, emoldurados por uma parede laranja. A entrada foi uma sopa de frutos do mar que “era maravilhosa”, como conta uma das convidadas. Tudo ia de acordo com o decoro diplomático, mas isso era reservado apenas à mesa principal. Como contam funcionários que trabalharam na ocasião, o modo cortês da embaixadora grega cessava na porta da cozinha.
Uma funcionária da área administrativa relata que os desvios de função chegaram também a ela e, neste dia, atingiram o ápice. “Eu tive que fazer e organizar a comida para esse jantar e eu tenho alergia a frutos do mar”, comenta a ex-funcionária. “Eu e outro funcionário tivemos que servir a sopa. Tive uma reação alérgica horrível, tive de tomar anti-histamínico, estava toda empolada”, queixa-se. “No meio do jantar”, continua a mulher, “ela veio até a cozinha e começou a gritar com a gente, dizendo que estávamos atrasados, que tinha que ser mais rápido”.
Houve mais momentos de tensão na cozinha. Um dos funcionários contratados pontualmente para o evento relata que “ela foi bem grossa” com um “rapaz que já trabalhava na embaixada”, porque, de acordo com a fala, “a comida não saiu do jeito que ela queria”. “Ela gritou com ele, foi bem rude, bem grossa”, comenta, sob anonimato. Em outro ponto, essa mesma fonte foi acusada de furtar um item da cozinha. “Houve uma situação que eu e outro garçom ficamos constrangidos por causa de uma colher de café de prata que eles não estavam achando. Ficou como suspeita de que a gente tinha pego essa colher. A gente teve que mostrar nossa bolsa para a secretária dela”, confessa o homem. “Foi bem desconfortável”, finaliza.
“Embaixatriz, não embaixadora”
Lambrini Messiani é greco-brasileira e uma das representantes da comunidade grega em Brasília. Por falar os dois idiomas, sempre prestou serviços na embaixada como tradutora. Ela estava de licença maternidade quando teve de voltar para ajudar nos preparativos para receber a nova embaixadora, naquele já longínquo 16 de janeiro. Voltou, viu e decidiu: “Eu trabalhei com ela um dia e percebi que ela era louca e me afastei”. “O que eu vivi em 12 horas de trabalho com ela foi suficiente para para ver que não seria não seria possível voltar”, garante.
O Jornal de Brasília repetiu uma pergunta a todos os funcionários ouvidos para esta reportagem: com tantos afazeres “domésticos”, ligados à zeladoria da embaixada, como a embaixadora lidava com a agenda oficial e com eventos ligados à função que ela foi designada para fazer no Brasil? Uma das fontes, que trabalhou como motorista de Lianidou, confessa que os eventos oficiais – seja com representantes do governo brasileiro, grego ou mesmo com a comunidade grega no país – ocupavam a maior parte da semana em outras gestões; nesta, limitavam-se a, no máximo, três eventos semanais.
“De lá para cá ela destruiu a convivência, um ambiente bacana entre funcionários locais, gregos, embaixadores; nunca tivemos problema nenhum. Agora a gente quer parar para o almoço e não tem direito”, queixa-se.
Outra funcionária, que lidava também com a agenda de compromissos de Lianidou, resume: “Ela era embaixatriz, não embaixadora”. “E no discurso de que ela veio para botar as coisas no eixo, ela negligencia completamente o trabalho diplomático que ela teria que estar fazendo. A gente tem que lembrar que o Brasil e a Grécia têm relações bilaterais há 200 anos”, completa.
Providências
Como dito, as denúncias foram apresentadas primeiro ao Sindnações, que levou o caso ao Ministério Público do Trabalho (MPT). O órgão emitiu nota – considerada inócua por todas as fontes ouvidas pelo JBr. – na qual pede apuração dos fatos e invoca novamente o Sindnações.
O presidente do sindicato, Raimundo Oliveira, indica que há outras denúncias que versam sobre proibição de uso de banheiros, desrespeito ao horário de almoço e até a retirada de eletrodomésticos que seriam de uso dos empregados, inclusive uma geladeira coletiva que seria usada para o armazenamento da marmita que os funcionários levam ao trabalho.
As reclamações chegaram ao Itamaraty e, por consequência, ao Ministério das Relações Exteriores da Grécia. Em junho, o embaixador grego na Argentina, Efstathios Paizis Paradelis, veio ao Brasil com a missão de colher depoimentos em nome do governo da Grécia. Conversou com cerca de dez funcionários e ex-funcionários da embaixada em Brasília, além de dois servidores de ministérios.
Em agosto, Paradelis voltou ao país para colher o depoimento de Eleni Lianidou, mas ela se recusou a falar, bem como não retornou aos pedidos de entrevista feitos pela reportagem.
Em resposta ao procedimento administrativo, Lianidou encaminhou e-mail a diversas embaixadas europeias no Brasil no qual acusa perseguição e medo. “Agradeceria enormemente se vocês podem me informar se houve algum caso relevante envolvendo nossas representações europeias ou suas embaixadas em Brasília no passado, incluindo falsas acusações, processos legais ou infundadas reclamações às autoridades locais”, começa.
Ela também cita uma matéria publicada pelo portal Metrópoles em que era relatada a presença do diplomata grego para apurar as reclamações registradas contra a embaixadora. Além disso, cita o assassinato do embaixador Kyriakos Amoiridis – morto em um crime passional pelo amante da sua companheira, no Rio de Janeiro, em 2016 -, como forma de dizer que se sente ameaçada no país. Ela finaliza a comunicação ao dizer que nunca viveu algo semelhante na carreira. “Por favor, respondam a este e-mail com relatos parecidos e o que vocês me aconselham a fazer, baseado em suas experiências. Sua resposta será enormemente apreciada, já que eu desembarquei recentemente em Brasília e nunca encarei uma situação parecida, durante 35 anos de diplomacia”.
Uma fonte junto à embaixada, porém, confidenciou à reportagem que a passagem de Eleni Lianidou pela missão diplomática no Peru, antes de vir ao Brasil, também foi conturbada. O Jornal de Brasília encaminhou questionamentos à missão diplomática grega no país andino, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. O Itamaraty, a Embaixada da Grécia – de forma oficial -, a Embaixada da Grécia no Perú e o governo grego foram procurados, mas não responderam até a publicação deste texto.
*Os nomes marcados foram mantidos sob sigilo a pedido das fontes.








