O governo brasileiro decidiu expulsar do país Sergei Vladimirovitch Tcherkasov, suposto espião russo preso no Brasil desde 2022, e enviá-lo de volta à Rússia. A decisão foi publicada na edição de segunda-feira (6) do Diário Oficial da União.
A medida, no entanto, só será cumprida após o fim da pena à qual ele foi condenado ou mediante liberação pelo Poder Judiciário. Tcherkasov é apontado pela Polícia Federal como um agente de inteligência russo e cumpre pena de cinco anos de prisão por falsidade ideológica em uma penitenciária federal de Brasília.
Ele viveu no Brasil usando uma identidade falsa, com o nome de Victor Muller Ferreira, para tentar se infiltrar no Tribunal Penal Internacional (TPI). Segundo reportagem do Fantástico (TV Globo), ele trabalhou em uma agência de turismo e câmbio, no Rio de Janeiro, e fez aulas de forró, em São Paulo, para reforçar a identidade como brasileiro.
De acordo com relato de um professor de dança à reportagem da TV Globo, Tcherkasov frequentava as aulas com tanta dedicação que, durante um período, treinou cinco vezes por semana, por cerca de três horas diárias.
A investigação aponta que Tcherkasov entrou no Brasil em 2010 e assumiu a identidade falsa. Com documentos brasileiros obtidos de forma fraudulenta, ele construiu uma biografia detalhada e chegou a morar na Irlanda e nos Estados Unidos antes de tentar uma vaga para o tribunal na Holanda.
De 2015 a 2018, cursou ciência política no Trinity College, na Irlanda. Depois, estudou relações internacionais na universidade John Hopkins, nos EUA. Nas duas instituições, dizia que era o brasileiro Victor Ferreira.
O TPI, sediado em Haia, é o órgão responsável por investigar, entre outras acusações, possíveis crimes de guerra cometidos na Guerra da Ucrânia. Tcherkasov foi detido em abril de 2022, por autoridades holandesas, ao tentar entrar no país com documentos brasileiros falsos.
Autoridades holandesas impediram sua entrada e o classificaram de agente do Departamento Central de Inteligência (GRU), a unidade de inteligência militar da Defesa russa.
Documentos tornados públicos pela inteligência holandesa mostram que ele memorizou uma biografia fictícia extremamente detalhada. Segundo autoridades, o documento foi elaborado pelo próprio Tcherkasov, em 2010, para memorizar a história.
Nela, dizia ter nascido em 4 de abril de 1989, em Niterói (RJ), e narrava uma história de dificuldades financeiras e abandono paterno. Contava ter sido criado pela mãe, que fazia apresentações de música, até ela morrer de pneumonia, quando passou a viver no exterior com uma tia.
O relato ainda mencionava uma crise financeira em 2001, aulas de espanhol na escola, o hábito de tomar chimarrão e uma suposta aversão ao cheiro de peixe, associada a lembranças da ponte Rio-Niterói.
Barrado na Holanda, Tcherkasov foi deportado de volta ao território brasileiro, onde está preso. O caso é um dos exemplos mais conhecidos de um padrão identificado por investigadores: o Brasil vinha sendo usado de forma sistemática pela Rússia como base para a formação de agentes de inteligência do país governado por Vladimir Putin.
A Folha mostrou em abril de 2023 que investigadores apontavam diversas razões que fizeram do Brasil um centro para a formação de espiões russos.
A facilidade de conseguir uma certidão de nascimento no país e, posteriormente, outros documentos até chegar ao passaporte é um atrativo para as agências de espionagem.
Além disso, a boa receptividade do passaporte brasileiro no mundo é apontada como fator importante para o aumento no número de casos de espiões cujas identidades foram “esquentadas”, no jargão criminoso, no Brasil.








