Segunda-feira, 04/05/26

Taxas de títulos do Tesouro sobem com incertezas da guerra no Irã

Taxas de títulos do Tesouro sobem com incertezas da guerra no Irã
Taxas de títulos do Tesouro sobem com incertezas da guerra – Reprodução

As incertezas na guerra no Irã e os temores de um repique inflacionário têm reverberado nas previsões para a inflação e os juros globais. No Brasil, o cenário, além de gerar maior cautela no BC (Banco Central), se reflete nos preços dos ativos e na alta das taxas dos títulos do Tesouro.

As expectativas de juros mais altos em meio a um cenário internacional volátil elevam os prêmios exigidos pelos investidores, ao mesmo tempo que pressionam os preços dos ativos. Desde que o conflito eclodiu, os juros dos títulos IPCA+ e prefixados subiram.

A alta nas taxas dos títulos públicos indica, na prática, sua desvalorização no mercado. Isso ocorre porque preço e rendimento têm relação inversa: quando os juros sobem, os preços dos papéis caem; quando os juros recuam, os títulos se valorizam.

Desde o início da guerra, as taxas dos títulos prefixados e IPCA+ com vencimento em 2032 registram altas de 4,02% e 3,18%, respectivamente.

Na quinta-feira (30), o Tesouro prefixado com vencimento em 2032 pagava uma taxa de 13,80% ao ano a máxima de 2026 foi atingida em 27 de março, a 14,50%. Com vencimentos entre 2032 e 2060, os títulos IPCA+ ofereciam taxas de 6,94% a 7,62% acima da inflação, patamares considerados historicamente raros a máxima do título com vencimento em 2032 foi alcançada em 16 de março, a 8,08%.

Além deles, os pós-fixados são indicados para reduzir o risco de perdas em cenários de volatilidade. Segundo levantamento do C6 Bank, o Tesouro Selic com vencimento em 2028 deve oferecer retorno líquido real (já descontados o Imposto de Renda e a inflação projetada) de 7,33%, considerando uma alocação de um ano.

A leitura é que, com o preço do petróleo pressionado pela guerra no Irã, a inflação no Brasil pode subir, forçando o Copom (Comitê de Política Monetária) a adotar uma postura mais cautelosa na condução dos juros.

Desde os primeiros ataques diretos dos EUA e de Israel ao Irã, o preço do petróleo Brent, referência global, subiu mais de 50%, da faixa US$ 70 para US$ 110. A cotação é afetada pela interrupção do fluxo no estreito de Hormuz, que faz fronteira com o Irã e por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural consumidos no mundo.

“O barril não só sobe mas passa a apresentar maior incerteza. A preocupação do mercado hoje é com a persistência desse cenário. No início, se falava em um conflito mais curto. O temor é que essa alta e a volatilidade do petróleo comecem a contaminar a inflação global, e já vemos um processo relevante de revisão de expectativas”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.

A mudança aparece em relatórios de bancos e nas previsões de economistas. No Boletim Focus da última segunda-feira (27), analistas projetaram que a taxa básica de juros terminará 2026 em 13%, ante 12% antes de o conflito eclodir. Instituições financeiras como XP e Itaú veem a Selic encerrando o ano em 13,50% e 13%.

A Selic em alta favorece a renda fixa, cuja maior parte dos ativos é atrelada à taxa ou ao IPCA (índice oficial da inflação). No programa do Tesouro Nacional, existem cinco tipos de títulos: Tesouro Selic, Tesouro IPCA+, prefixados, Tesouro Renda+ e Tesouro Educa+.

O Tesouro Selic, um título pós-fixado, tem rentabilidade atrelada à taxa Selic, hoje em 14,5% ao ano. Já o Tesouro IPCA+ acompanha a inflação medida pelo índice, acrescida de uma taxa prefixada.

Os títulos prefixados têm taxa de juros fixa, ou seja, o investidor já conhece a rentabilidade no momento da aplicação. Também existem os títulos temáticos Educa+ e Renda+, voltados, respectivamente, para o financiamento da educação e para a aposentadoria complementar, cuja rentabilidade também é atrelada ao IPCA.

IPCA+ E PREFIXADOS SÃO RECOMENDADOS, MAS EXIGEM CAUTELA

Analistas veem um momento historicamente favorável para títulos prefixados e IPCA+. Já os pós-fixados são indicados para investidores de perfil mais conservador ou para reservas de emergência.

“Há uma percepção positiva para os indexados à inflação, especialmente os de vencimentos mais longos, que tendem a se beneficiar mais de um eventual fechamento da curva de juros”, diz Guilherme Almeida.

Ele, contudo, afirma que esses ativos tendem a oscilar, o que pode desagradar a perfis que priorizam maior segurança. “O que costuma acontecer nesses casos é que o investidor entra em um ativo desalinhado ao seu perfil.”

O mesmo vale para prefixados. Para Sérgio Samuel dos Santos, economista e especialista em fundos e previdência do Sistema Ailos, é possível obter retornos superiores à Selic e ao CDI. “Mas isso exige paciência e a disposição de carregar o título até o vencimento, se necessário.”

Tanto nos títulos IPCA+ quanto nos prefixados, vencimentos mais longos estão mais expostos à marcação a mercado (diferença entre o preço de compra e o valor de negociação ao longo do tempo), especialmente em caso de resgate antecipado.

Momentos de instabilidade costumam gerar marcação a mercado negativa pelo fato de os preços do título caírem e as taxas de juros subirem. Isto é, um investidor que tenha comprado um título prefixado a 13% pode sofrer prejuízo ao vendê-lo caso papéis semelhantes passem a pagar 14%.

Ambos os especialistas concordam que os pós-fixados seguem atrativos. “Continuam interessantes porque ainda entregam um carrego relevante. Mesmo com cortes de juros, falamos de uma taxa entre 12% e 13% [no final de 2026], o que é elevado para um ativo de baixíssimo risco”, afirma Almeida, da Suno.

LEILÕES DE RECOMPRA FREIAM VOLATILIDADE, MAS ALTA PROSSEGUE

A alta nos títulos ocorre apesar de operações do Tesouro para frear a volatilidade no setor. Em março, o Tesouro Nacional interveio no mercado com o objetivo de conter a abertura da curva de juros futuros, por meio de recompras de títulos. As operações somaram R$ 47 bilhões em valor líquido.

A guerra tem pressionado as taxas dos contratos DI, que dispararam desde o início do conflito. Os DIs refletem as expectativas do mercado para a trajetória futura da Selic e do CDI. No contrato com vencimento em janeiro de 2028, a alta acumulada é de 0,95 ponto percentual, enquanto, para janeiro de 2035, o avanço é de 0,24 ponto percentual.

Para Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos, a alta do petróleo alterou as projeções para 2026. Segundo ele, o mercado vinha apostando na queda de juros e se posicionando para o início de um ciclo de cortes.

“O problema é que a redução [da Selic] foi sendo adiada, e essas posições acumularam perdas. A pressão na curva veio quando investidores atingiram limites de perda e passaram a encerrar posições, gerando um efeito em cascata que pressionou os juros futuros.”

Vital afirma que há chance de o Tesouro intervir novamente, caso julgue necessário. “Se houver outro episódio de disfuncionalidade no mercado, o Tesouro pode voltar a atuar, sempre com o objetivo de equilibrar o mercado e fornecer uma referência de preço para que o secundário volte a funcionar.”

T LB

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *