As relações entre Venezuela e Estados Unidos voltaram ao centro do tabuleiro geopolítico após uma escalada de declarações e movimentações militares no Caribe.
O governo Donald Trump intensificou operações navais sob o argumento de combater o narcotráfico e enviou o porta-aviões USS Gerald R. Ford, acompanhado de navios de guerra e aeronaves de vigilância, numa sinalização de que a pressão sobre Caracas tende a aumentar.
Em paralelo, Trump afirmou que o espaço aéreo venezuelano deve ser considerado “totalmente fechado”, ampliando o risco de incidentes e reforçando temores de incursões terrestres contra redes de tráfico ligadas ao regime de Nicolás Maduro.
Apesar de ser uma região com poucos conflitos armados recentes, a América Latina carrega histórico de disputas territoriais prolongadas, decisões judiciais contestadas e fronteiras mal resolvidas, muitas delas centrais para a política doméstica dos países.
A última guerra do continente
O último enfrentamento armado na América do Sul ocorreu há 24 anos, na Guerra de Cenepa, entre Peru e Equador, em 1995.
O conflito, motivado por uma região amazônica rica em recursos naturais, deixou cerca de 80 soldados mortos e expôs fragilidades fronteiriças herdadas do século 19. A paz definitiva só foi alcançada três anos depois, após forte mediação de países vizinhos.
Guerra do Paraguai
Entre 1864 e 1870, Brasil, Argentina e Uruguai lutaram contra o Paraguai no episódio mais sangrento da história latino-americana, causando a morte de pelo menos 250 mil soldados brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios.
O país governado por Francisco Solano López perdeu grande parte de sua população e viu seu território redesenhado. Foi também um marco para a ascensão política e militar do Brasil na região.
Guerra do Pacífico
A disputa entre Chile, Bolívia e Peru (1879–1883) pelo deserto do Atacama, rico em minerais, mudou para sempre a geografia andina.
A Bolívia perdeu seu acesso ao mar, algo que molda sua diplomacia até hoje. O tema já passou por tribunais internacionais, mobilizou referendos internos e permanece como um símbolo nacional.
Malvinas
O último grande confronto armado no continente ocorreu em 1982, na Guerra das Malvinas, quando a Argentina tentou retomar o arquipélago sob controle britânico desde 1833. A proximidade das ilhas, a pouco mais de 480 km da costa argentina, sustentava a reivindicação histórica de soberania por Buenos Aires.
Em abril daquele ano, a ditadura argentina enviou mais de 10 mil soldados para ocupar o território, mas a reação do Reino Unido foi rápida e contundente, com o envio de porta-aviões, submarinos e aeronaves muito superiores ao equipamento argentino. Em junho, após semanas de combates intensos, as tropas argentinas se renderam.
O conflito deixou 650 argentinos e 255 britânicos mortos, além de mais de 11 mil prisioneiros argentinos, libertados após o fim da guerra. A derrota acelerou o colapso da junta militar e abriu caminho para a redemocratização.
Até hoje, as Malvinas seguem como tema sensível na política argentina, frequentemente retomado em momentos de tensão internacional.
Essequibo – Venezuela x Guiana
A disputa pelo Essequibo voltou a elevar a temperatura política no Caribe e na América do Sul. A região, que representa cerca de 70% do território guianense, é rica em petróleo, gás, minérios e biodiversidade.
A controvérsia se intensificou depois das descobertas feitas pela ExxonMobil em 2015, quando o governo da Guiana passou a acelerar concessões para exploração offshore.
A Venezuela reivindica o território com base no chamado Acordo de Genebra, de 1966, firmado antes da independência guianense, que previa negociações diretas para definir a soberania da área.
Caracas considera nulo o laudo arbitral de 1899, que atribuiu o Essequibo à então Guiana Britânica, e sustenta que houve favorecimento a Londres. Com a descoberta de petróleo em grande escala, o tema ganhou centralidade na política interna venezuelana.
Nos últimos meses, o governo Nicolás Maduro intensificou mobilizações militares e promoveu um plebiscito interno para reforçar a narrativa de que o Essequibo pertence à Venezuela.
A Guiana, por sua vez, buscou respaldo jurídico internacional e levou o caso à Corte Internacional de Justiça, que já determinou que Caracas não pode alterar unilateralmente os limites territoriais enquanto o processo estiver em curso.
Outras disputas que seguem vivas
A América Latina mantém ao menos dez disputas territoriais ativas, concentradas sobretudo em fronteiras delimitadas no século 19. Algumas seguem na CIJ, outras são reavivadas em momentos eleitorais e há casos em que a decisão judicial não encerrou o impasse diplomático.
No Caribe e na América Central, Guatemala e Belize aguardam um desfecho definitivo sobre uma área equivalente a quase metade do território belizenho. A ausência de fronteira clara facilitou tráfico de drogas, violência e disputas por recursos naturais. A decisão da CIJ, ainda pendente, pode redefinir o acesso ao Atlântico.
Outro foco permanente envolve Colômbia e Nicarágua, que disputam o arquipélago de San Andrés, Providência e Santa Catalina há décadas.
Embora Haia tenha confirmado a soberania colombiana sobre as ilhas em 2012, concedeu à Nicarágua domínio sobre parte significativa do mar circundante, decisão que Bogotá contesta. Novos recursos pedem desde o cumprimento da sentença até a extensão da plataforma continental nicaraguense.
Na fronteira entre Chile e Bolívia, o caso do Rio Silala permanece parado desde 2019 na CIJ. A Bolívia afirma que parte do fluxo ao Chile ocorre por canalização artificial, enquanto Santiago sustenta que o rio é internacional e deve ser compartilhado. Apesar da disputa, os países anunciaram avanços diplomáticos nos últimos anos.








