Terça-feira, 16/12/25

Venezuela será próximo? De Malvinas ao Paraguai, relembre conflitos na América Latina

Venezuela será próximo? De Malvinas ao Paraguai, relembre conflitos na América Latina
Venezuela será próximo? De Malvinas ao Paraguai, relembre conflitos na América Latina | Imagem: Reprodução

As relações entre Venezuela e Estados Unidos voltaram ao centro do tabuleiro geopolítico após uma escalada de declarações e movimentações militares no Caribe.

O governo Donald Trump intensificou operações navais sob o argumento de combater o narcotráfico e enviou o porta-aviões USS Gerald R. Ford, acompanhado de navios de guerra e aeronaves de vigilância, numa sinalização de que a pressão sobre Caracas tende a aumentar.

Em paralelo, Trump afirmou que o espaço aéreo venezuelano deve ser considerado “totalmente fechado”, ampliando o risco de incidentes e reforçando temores de incursões terrestres contra redes de tráfico ligadas ao regime de Nicolás Maduro.

Apesar de ser uma região com poucos conflitos armados recentes, a América Latina carrega histórico de disputas territoriais prolongadas, decisões judiciais contestadas e fronteiras mal resolvidas, muitas delas centrais para a política doméstica dos países.

A última guerra do continente

O último enfrentamento armado na América do Sul ocorreu há 24 anos, na Guerra de Cenepa, entre Peru e Equador, em 1995.

O conflito, motivado por uma região amazônica rica em recursos naturais, deixou cerca de 80 soldados mortos e expôs fragilidades fronteiriças herdadas do século 19. A paz definitiva só foi alcançada três anos depois, após forte mediação de países vizinhos.

Guerra do Paraguai

Entre 1864 e 1870, Brasil, Argentina e Uruguai lutaram contra o Paraguai no episódio mais sangrento da história latino-americana, causando a morte de pelo menos 250 mil soldados brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios.

O país governado por Francisco Solano López perdeu grande parte de sua população e viu seu território redesenhado. Foi também um marco para a ascensão política e militar do Brasil na região.

Guerra do Pacífico

A disputa entre Chile, Bolívia e Peru (1879–1883) pelo deserto do Atacama, rico em minerais, mudou para sempre a geografia andina.

A Bolívia perdeu seu acesso ao mar, algo que molda sua diplomacia até hoje. O tema já passou por tribunais internacionais, mobilizou referendos internos e permanece como um símbolo nacional.

Malvinas

O último grande confronto armado no continente ocorreu em 1982, na Guerra das Malvinas, quando a Argentina tentou retomar o arquipélago sob controle britânico desde 1833. A proximidade das ilhas, a pouco mais de 480 km da costa argentina, sustentava a reivindicação histórica de soberania por Buenos Aires.

Em abril daquele ano, a ditadura argentina enviou mais de 10 mil soldados para ocupar o território, mas a reação do Reino Unido foi rápida e contundente, com o envio de porta-aviões, submarinos e aeronaves muito superiores ao equipamento argentino. Em junho, após semanas de combates intensos, as tropas argentinas se renderam.

O conflito deixou 650 argentinos e 255 britânicos mortos, além de mais de 11 mil prisioneiros argentinos, libertados após o fim da guerra. A derrota acelerou o colapso da junta militar e abriu caminho para a redemocratização.

Até hoje, as Malvinas seguem como tema sensível na política argentina, frequentemente retomado em momentos de tensão internacional.

Essequibo – Venezuela x Guiana

A disputa pelo Essequibo voltou a elevar a temperatura política no Caribe e na América do Sul. A região, que representa cerca de 70% do território guianense, é rica em petróleo, gás, minérios e biodiversidade.

A controvérsia se intensificou depois das descobertas feitas pela ExxonMobil em 2015, quando o governo da Guiana passou a acelerar concessões para exploração offshore.

A Venezuela reivindica o território com base no chamado Acordo de Genebra, de 1966, firmado antes da independência guianense, que previa negociações diretas para definir a soberania da área.

Caracas considera nulo o laudo arbitral de 1899, que atribuiu o Essequibo à então Guiana Britânica, e sustenta que houve favorecimento a Londres. Com a descoberta de petróleo em grande escala, o tema ganhou centralidade na política interna venezuelana.

Nos últimos meses, o governo Nicolás Maduro intensificou mobilizações militares e promoveu um plebiscito interno para reforçar a narrativa de que o Essequibo pertence à Venezuela.

A Guiana, por sua vez, buscou respaldo jurídico internacional e levou o caso à Corte Internacional de Justiça, que já determinou que Caracas não pode alterar unilateralmente os limites territoriais enquanto o processo estiver em curso.

Outras disputas que seguem vivas

A América Latina mantém ao menos dez disputas territoriais ativas, concentradas sobretudo em fronteiras delimitadas no século 19. Algumas seguem na CIJ, outras são reavivadas em momentos eleitorais e há casos em que a decisão judicial não encerrou o impasse diplomático.

No Caribe e na América Central, Guatemala e Belize aguardam um desfecho definitivo sobre uma área equivalente a quase metade do território belizenho. A ausência de fronteira clara facilitou tráfico de drogas, violência e disputas por recursos naturais. A decisão da CIJ, ainda pendente, pode redefinir o acesso ao Atlântico.

Outro foco permanente envolve Colômbia e Nicarágua, que disputam o arquipélago de San Andrés, Providência e Santa Catalina há décadas.

Embora Haia tenha confirmado a soberania colombiana sobre as ilhas em 2012, concedeu à Nicarágua domínio sobre parte significativa do mar circundante, decisão que Bogotá contesta. Novos recursos pedem desde o cumprimento da sentença até a extensão da plataforma continental nicaraguense.

Na fronteira entre Chile e Bolívia, o caso do Rio Silala permanece parado desde 2019 na CIJ. A Bolívia afirma que parte do fluxo ao Chile ocorre por canalização artificial, enquanto Santiago sustenta que o rio é internacional e deve ser compartilhado. Apesar da disputa, os países anunciaram avanços diplomáticos nos últimos anos.

T LB

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