Reportagem de Luiz Claudio Ferreira/Agência Ceub
No distrito de Girassol, em Cocalzinho de Goiás (GO), apenas o som dos pássaros acompanha a goiana Maria de Sousa Santos, de 42 anos, em sua caminhada de 30 minutos até o ponto de ônibus. Às 5h30, ela se vê inspirada pelo raiar do sol e também por outros estímulos que carrega em sua mochila preta. Antes, ela precisa chegar a uma cooperativa de reciclagem até às 8h.
Caderno, livros e caneta, ela usa à noite como universitária. Ela é a primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior. Durante o dia, ela, que é mãe de três filhos e já avó de três netos, trabalha com luvas, botas, roupa especial e máscara na separação de material reciclável.
A rotina dela é parte de uma transformação diária que vivencia. Mas essa reviravolta completou-se há cinco anos.
Maria trabalha na triagem de materiais na Cooperativa Recicle a Vida, em Ceilândia, a maior região administrativa do Distrito Federal. Ela demora cerca de uma hora e meia para chegar ao serviço. “É puxado, mas muito gratificante”. Ela considera que é “gratificante” por causa da transformação no dia a dia desde 2021.
Enquanto caminha e no percurso do transporte até a cooperativa, ela pensa como a rotina já foi bem mais difícil nos cinco anos de desemprego. Antes, ela atuava como diarista.
Descobertas
Ela descobriu no trabalho que cada vez que separava os materiais, estava também cuidando do meio ambiente. Viu que o plástico que ela separava poderia virar cadeiras ou recipientes. Que o vidro poderia virar nova garrafa e, assim, os lixões diminuiriam.
“O que me estimula todos os dias é saber que eu tenho um lugar pra vir trabalhar. Eu quero também ser um exemplo para meus filhos e também para meus amigos que confiam em mim”. Ela diz que fica feliz ao inspirar colegas que não completaram o ensino fundamental e que passam a ficar mais interessadas nos estudos.
Suporte para cooperativa
Foi na cooperativa que ela conseguiu voltar a estudar, graças às parcerias que a entidade mantém com o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo do Distrito Federal (Sescoop/DF) e entidades como o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac-DF) e com o Serviço Social do Comércio (Sesc-DF).
A presidente da cooperativa, Claudia Maria Alves, aliás, explicou que as parcerias são fundamentais para viabilizar as atividades da entidade. Enquanto o Senac traz os instrutores, o Sesc possibilita, por intermédio de suas 14 unidades, que os materiais reciclados sejam transformados em valor agregado para as trabalhadoras.
Assista abaixo a trecho de entrevista com a presidente da entidade sobre parceria com Sesc-DF e Senac-DF
Ela conseguiu terminar o ensino médio e agora faz o curso de Tecnologia em Gestão de Cooperativas, na Universidade Católica de Brasília, proporcionado pelas entidades parceiras. Ela diz que gosta especialmente das aulas de legislação, sobre dados, além de informação e transformação dos materiais orgânicos.
Depois da aula, que acaba às 22h, ela faz o caminho para casa, aonde chega depois de meia-noite. Tudo em silêncio novamente na vizinhança e dentro de casa. “No outro dia, de novo, acordo às 4h30. Vejo pouco a minha família, mas penso que me sinto privilegiada. Sou a primeira pessoa da minha família a fazer faculdade. A gente tem que correr atrás do que a gente quer”.
“Sou a primeira da minha família a chegar a um curso superior”, diz a trabalhadora da cooperativa
Empoderamento
A presidente da cooperativa, a piauiense Claudia Maria Alves, de 57 anos, destaca que o sentimento de empoderamento coletivo une as histórias dos 75 integrantes da entidade. A maior parte é formada por mulheres. Claudia chegou a trabalhar como vendedora autônoma e com serviços gerais. Ao conhecer a cooperativa, inicialmente atuou na limpeza.
Depois, foi trabalhar com a organização do dia a dia dos colegas. “É muito trabalho, mas fazemos questão de nos educar sobre a importância ambiental do que realizamos. Acho o nosso trabalho muito bonito para a sociedade”. Claudia fez o curso universitário e animou os demais trabalhadores a também um dia pensarem em trabalhar na gestão de cooperativa.
Organização da cooperativa
A cooperativa garante três refeições para os trabalhadores, além de plano de saúde, auxílio para transporte e os cursos profissionalizantes, como de cabeleireiro, corte e costura, informática e até turmas de educação de jovens e adultos (EJA), voltados a quem teve que, em algum momento da vida, deixar os estudos.
Todos os cursos ocorrem na sede da cooperativa, em Ceilândia, durante o expediente. “Nos dias de aula, o serviço na reciclagem acaba mais cedo”, diz a presidente.
Os rendimentos variam conforme o volume de trabalho. Isso faz com que todos ganhem mais de R$ 2 mil. Mas há quem supere os R$ 4 mil.
Na verdade, ela explica que as catadoras atuam como selecionadoras com a realização da triagem do material.
A presidente da entidade contextualiza que os trabalhadores revezam-se na linha de separação dos materiais, que chegam todos de caminhão trazidos pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU), do Distrito Federal. No revezamento, há momentos de ficar com latas. No outro dia, com papelão. Depois com isopor e vidro.
No caso dos plásticos, o tratamento especial de extrusão transforma a resina em outros formatos. “Fazendo assim, conseguimos agregar valor”, acrescenta a presidente da cooperativa, Claudia Maria Alves.
Ela exemplifica que, nos casos dos plásticos, o processamento do material faz o valor do quilo do produto crescer. Com a extrusão (processo químico que transforma filetes em pequenas bolinhas a serem utilizadas pela indústria), o preço do produto por quilo aumenta R$ 1,70. “As empresas nos mostram como o plástico se transformou em produtos feitos”.
O conhecimento eleva a conscientização das trabalhadoras.
Assista a trecho de entrevista sobre extrusão na cooperativa
Ela explica que é fundamental mostrar para os trabalhadores que o serviço deles tem relação com a sociedade inteira. “Conhecimento faz toda a diferença”, diz. No caso de Maria, o sonho dela é atuar na gestão de cooperativas no futuro e ajudar a transformar outras vidas.
Inspiração
Colega de Maria, a estudante e trabalhadora Carlete de Souza, de 43 anos de idade e 11 de reciclagem, tem três filhos e está também no segundo semestre da faculdade. Ela, que mora na segunda maior favela do Brasil, a comunidade do Sol Nascente, diz que o exemplo dela entusiasma os filhos.
Antes da cooperativa, Carlete atuava na área de limpeza e serviços gerais. A vida mudou, inclusive, em casa porque ela orienta a família a separar o lixo. “”Ficamos todos mais atentos com o meio ambiente”.
O mais velho, vendo a mãe na labuta e com os cadernos “para cima e para baixo”, pensa em cursar biologia no ano que vem. Vai fazer a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), neste ano. “Em algum momento da minha vida passou pela minha cabeça fazer um curso superior, mas isso parecia estar bem distante da minha realidade. E não estava. Foi possível sim”.
Conexão de realidades
Esses resultados entusiasmam também os incentivadores do projeto, gestores do Sesc-DF. Em nota, entidade afirma que a iniciativa promove a inclusão e valorização de catadores autônomos do Distrito Federal.
Com as ações, há uma conexão inédita de trabalhadores a uma rede de apoio com caminhos que transformem as vidas deles.
A presidente do Recicle a Vida destaca que os materiais de 14 unidades do Sesc são são transportados pela SLU, desde 2023. O volume varia a cada dia, mas tem uma média de 500 toneladas por ano.
“O Sesc-DF optou em contratar uma cooperativa para trazer dignidade e renda para essas pessoas”, explicou o analista de suporte à gestão em sustentabilidade do serviço, Roger Lopes.
Segundo o Sesc, a estratégia também gera impactos econômicos para a instituição. São mais de R$ 70 mil preservados, uma vez que os custos de destinação variam de acordo com o tipo de resíduo.
Mais dignidade
A trabalhadora Ariana dos Santos, de 34 anos, nascida em Valença (BA) e que já precisou recolher material na rua, entende que atualmente convive em uma rotina muito mais digna há quatro anos.
Ela diz que o trabalho da triagem ocorrer por revezamento é justo e importante para que todas as integrantes da cooperativa tenham as mesmas oportunidades. “Hoje eu tava na seda. Amanhã é no papelão. E por aí vai..”.
Sentir-se numa rotina puxada e em sentimento de parceria com colegas deixa o cotidiano com mais sorriso no rosto.
“Aqui é minha segunda casa. Eu acordo às 5 horas da manhã e deixo meus filhos na creche às 7h30 para estar aqui às 8h”.
Ariane cursa atualmende o supletivo do EJA e sonha um dia fazer o curso de enfermagem. “É para ajudar outras pessoas da minha comunidade que precisam de saúde”.
Outra colega, Lindinalva Leal, de 35 anos, mãe de cinco filhos e que se mudou de Paragominas (PA) para Brasília há quatro anos, era camareira de um hotel na cidade dela. “Acho melhor aqui porque é uma cooperativa. Todo mundo se sente junto e acolhido”.
Além disso, no momento, ela também tem se sentido melhor porque consegue ler os livros dos filhos, que também a ajudam com os deveres de ciência e matemática. “Minha letra está ficando melhor. Um dia espero ir para uma faculdade como as minhas colegas”.








