Sábado, 03/10/26

Um tamagotchi, agentes de IA e a rede invisível

Um tamagotchi, agentes de IA e a rede invisível
Um tamagotchi, agentes de IA e a rede invisível – Reprodução

Ao anunciar um novo agente pessoal de IA chamado Muse, a empresa também lançou o Muse Charm, um aparelhinho em formato de chaveiro com tela. Parece um tamagotchi com IA e rosto de Labubu, mas o que ele pretende é materializar — e personificar — a ideia dos agentes pessoais de inteligência artificial. Os usuários poderão acessar e usar o Muse de diversas maneiras, mas ter um dispositivo dedicado é um dos caminhos para a empresa tentar diminuir a dependência dos sistemas operacionais de concorrentes (especialmente iOS e Android) para distribuição.

Além disso, o formato e a fofura do personagem tentam diminuir as barreiras do público mais jovem para a adoção dos agentes pessoais, um tipo de serviço que, tanto quanto pode ser útil, também é assustadoramente invasivo. Você poderá ter um mini assistente no bolso para carregar por aí e te servir a qualquer momento. Se isso vai ganhar público, não se sabe, mas o ponto é que agora, além da ideia de conectar os objetos que já usamos no dia a dia, há intenção de desenvolver novos aparelhos que se tornem desejáveis para consumo. De certa forma, gostamos de ter coisinhas nas mãos para manusear e materializar a experiência digital que ainda nos parece misteriosa.

Essa proliferação de mais e mais “objetos conectados” nos cercando não contraria a visão de Larry Page. Acredito que seja justamente a conexão de todas as coisas que vai permitir, em pouco tempo, que passemos a prescindir deles para estarmos ligados à internet porque, afinal, quase tudo estará conectado. Será o fim dos obstáculos — tanto físicos quanto de aprendizagem — quando uma inteligência artificial pessoal se tornar uma assistente que antecipa nossas necessidades e atua proativamente na execução de tarefas que gostaríamos de não precisar fazer. Ainda usamos esses serviços através de interfaces (seja um site, seja um objeto), mas, como previu meu antigo chefe, isso pode estar perto de se tornar uma opção e não uma condição para seu uso.

Veja bem, eu não gosto muito dessa ideia. É importante dizer isso antes que a comunidade de pais da escola Waldorf me queime em uma fogueira na festa das lanternas. Mas eu sou um velho cujas manias estão arraigadas em papel, bonecos Playmobil, cheiro de sabonete Phebo e traumas de quatro décadas atrás. E, se cabe a esta coluna algum tipo de função, é a de ser um espaço para que sejam feitas questões acerca de como a tecnologia afeta nosso comportamento e cultura.

E uma pergunta que tenho me feito com frequência é: como será nossa sociedade quando a internet se tornar algo tão onipresente e transparente quanto a energia elétrica ou o saneamento básico e estiver em nossas rotinas de forma que já nem percebamos a dependência (quase) existencial que temos?

O apagar e acender de luzes em casa, espetar o cabo do aspirador de pó na tomada, abrir uma torneira, dar a descarga? serviços essenciais ao cotidiano para boa parte das pessoas foram incorporados no último século de tal modo que já se misturam ao nosso estilo de vida e chegam a definir um tanto da identidade da nossa sociedade. Em muito pouco tempo, a interconexão no ambiente digital entre nossas intenções e necessidades estará entremeada no modo como vivemos e afetará a maneira como nos comunicamos, nos relacionamos, consumimos, nos movemos e fazemos escolhas. Com o agravante de que essa camada invisível continuará sendo habitada (e controlada) por empresas e agentes com interesses comerciais, de vigilância e intenções que nem sempre estão ali para servir aos nossos interesses. Não sabemos ainda as consequências, mas há um efeito rebote quando as tecnologias que desenvolvemos se enraízam de tal modo em nossa cultura que passam a influenciar nossa visão de mundo. A criação molda o criador.


T LB

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