Guilherme Matos
Folhapress
Moradores do Jaguaré, zona oeste de São Paulo, estão sem fonte de renda e ainda não puderam retomar suas rotinas uma semana após a explosão que matou duas pessoas.
Nesta segunda-feira (18), o local ainda concentrava escombros e equipes de Defesa Civil, Polícia Militar e das concessionárias Sabesp, de saneamento, e Comgás.
O bloqueio na rua Piraúba, epicentro da explosão, recuou alguns metros desde a semana passada, e com isso alguns moradores puderam retornar às casas. Mas o ponto zero continua fechado por tapumes, onde equipes da Sabesp trabalham para concluir as demolições de casas condenadas. Só depois disso a rua entrará na fase de limpeza e reconstrução.
Parte dos danos, porém, não é visível. Moradores relataram à reportagem que não conseguiram retomar o trabalho após o acidente e temem o que deve acontecer com a renda familiar. Um dos problemas é não poder se ausentar: vistorias acontecem a qualquer hora e exigem a presença dos moradores. Outro é o barulho das equipes e dos veículos, que atrapalha o sono.
A assistente financeira Ana Paula dos Santos Silva, 31, diz que foi demitida após faltar ao trabalho para ajudar os pais, cuja casa foi atingida pela explosão.
No dia do acidente, ela soube por telefone que a explosão ocorreu próxima à residência dos familiares e foi ao local prestar apoio. Na terça-feira (12), acompanhou a vistoria estrutural do imóvel. Na quarta (13), pediu à empresa para usar o banco de horas. Na quinta (14), a engenheira responsável pelas reformas pediu que Ana Paula ficasse no imóvel.
Ainda na quinta, por volta das 10h30, ela diz que conseguiu abrir o computador para trabalhar, mas a empresa bloqueou o acesso aos sistemas.
“Quando consegui entrar, tinha uma reunião de alinhamento marcada. Minha chefe falou que optou por me desligar porque a mão da empresa estava vindo e a minha não estava indo”, disse.
Ela trabalhava na empresa com carteira assinada havia um ano e cinco meses. Agora, sem renda, ela conta com a aposentadoria do pai e seis meses de seguro-desemprego. Seu filho tem quatro anos. A mãe, que estava em casa na hora da explosão, está abalada e não cogita voltar para casa.
Manuel Vasconcelos trabalha à noite como vigilante e precisa dormir durante o dia. Desde a explosão, diz que não consegue fazer isso porque o barulho das obras não para. Ele conta que tem trocado turnos com os colegas, mas terá que repor em seguida. “Depois vou ter que trabalhar direto”, diz.
João Hage Miranda, 43, é operador logístico e está há mais de uma semana sem trabalhar. Perdeu as portas da casa e os vidros foram estilhaçados. Ele afirma que a viga principal do telhado cedeu e, quando choveu, tudo que havia na casa foi destruído, inclusive o uniforme de trabalho.
O chefe tem sido compreensivo, ele conta, mas os documentos que ele conseguiu não têm validade legal para justificar formalmente a ausência. “Dependo da boa vontade da empresa”, diz.
Já Edna Rosendo, 40, e o marido são autônomos e trabalham com pet shop. Não têm salário fixo e, desde a explosão, não conseguem cumprir os serviços agendados. Precisam estar na rua o tempo todo para receber vistorias, assinar documentos e acompanhar o andamento das demolições. A renda de ambos parou ao mesmo tempo.
A casa de Edna não tem dano estrutural, mas está ameaçada pelas vizinhas. As duas casas ao redor foram interditadas com placa vermelha e compartilham paredes com a dela. Se alguma delas ceder durante as demolições, a de Edna vai junto.
A CDHU, companhia de habitação do estado, tem oferecido apartamentos aos moradores afetados, mas a opção não resolve o problema da família. O imóvel fica longe da região onde trabalham e onde o filho estuda, relatam. “Tem que mudar a vida toda”, diz ela.
“Não temos como viver em hotel. Só tem uma cama para dormir e não tem onde lavar roupa”, conta.
Yelier Soria, 31, tem uma barbearia na rua Piraúba. O estabelecimento não foi condenado, mas a rua ficou fechada pela polícia até esta semana, e os clientes que vêm de outros bairros não têm onde estacionar. O ganho semanal da barbearia girava em torno de R$ 1.300 a R$ 1.500. Por ora, está zerado.
Ele diz que o clima ainda está tenso e acredita que a explosão pode acelerar uma debandada de moradores da região.
Em nota, a Sabesp afirma que já pagou o auxílio emergencial (no valor de R$ 5.000) a 764 famílias. Dos 300 imóveis vistoriados, afirma que 45 passaram por limpeza e 45 receberam reformas paliativas —quando a explosão afetou, por exemplo, o telhado e as equipes cobriram com lonas para evitar mais danos. Dez casas já passaram por reforma definitiva. Ou seja, já tiveram telhas, janelas ou portões danificados substituídos por novos.
A concessionária diz ainda que presta assistência às famílias atingidas com suporte emergencial, acolhimento, acompanhamento social, apoio médico e psicológico, com assistentes sociais para atender casos específicos.
A CDHU diz já ter mapeado 80 imóveis na região para atender às famílias que perderam casas e precisam de novas moradias. As famílias afetadas podem optar pela transferência imediata para apartamentos mobilizados da CDHU, compra de imóvel por carta de crédito ou auxílio aluguel.








