Segunda-feira, 02/03/26

Governo brasileiro descarta transição tranquila no Irã como ocorreu na Venezuela

Governo brasileiro descarta transição tranquila no Irã como ocorreu na Venezuela
Governo brasileiro descarta transição tranquila no Irã como ocorreu na – Reprodução

Para o governo brasileiro, o cenário de potencial mudança de regime que se desenha no Irã após a morte do aiatolá Ali Khamenei se assemelha mais ao do Iraque do que o da Venezuela.

Na avaliação de funcionários do Planalto e do Itamaraty, é baixa a possibilidade de uma transição tranquila como está se dando em Caracas após os Estados Unidos capturarem o ditador Nicolás Maduro no início do ano.

A chance de instalar no poder alguém de dentro do regime iraniano que possa ser influenciado pelos EUA, que mantenha o canal de Horrmuz desimpedido e que abra o setor de petróleo e gás para empresas americanas é vista como remota –na Venezuela, a líder interina Delcy Rodríguez tem colaborado com Washington e foi até elogiada por Donald Trump, embora afirme que nenhum agente externo lhe dá ordens.

A análise no governo brasileiro é que há maior probabilidade de uma situação de caos social e guerra civil como a que se seguiu à invasão dos Estados Unidos no Iraque em 2003.

No Irã, o grupo que está no poder, entre lideranças religiosas e da Guarda Revolucionária, é muito mais ideológico e hostil aos americanos e israelenses do que a Venezuela. Segundo esse raciocínio, seria muito mais difícil achar alguém como Delcy Rodriguez, a vice-presidente venezuelana que assumiu o poder como presidente interina após a captura de Maduro e vem seguindo as demandas americanas, principalmente em relação à exportação e exploração de petróleo e compra de produtos americanos.

Na visão de um funcionário do governo brasileiro, a intervenção americana e israelense ainda vai causar grande destruição no país, uma vez que várias lideranças do regime teocrático ainda podem ser alvejadas. O processo de sucessão de Khamenei e substituição das lideranças mortas está em curso, mas a aposta é que EUA e Israel também tentarão matar os líderes escolhidos.

Neste domingo (1º), houve uma intensificação nos bombardeios contra Teerã e foram atingidas várias estruturas das Forças Armadas, da Guarda Revolucionária, além de setores como inteligência, TV estatal e complexos residenciais de militares.

Nas palavras de uma autoridade brasileira que acompanha a situação, Washington e Tel Aviv estão eliminando as lideranças da Guarda Revolucionária, que é o centro do poder político, econômico e militar do regime. Sobrariam 300 mil homens armados, sem liderança -o quem, nas palavras dessa autoridade, seria um ingrediente para o caos, como no Iraque.

Também é visto como improvável que a população iraniana consiga tomar o poder, como sugere Trump em seus pronunciamentos. Embora parte dos iranianos mantenha certo otimismo com possíveis mudanças, após anos de repressão e crise econômica, não há uma oposição organizada.

O governo brasileiro vê com ceticismo a ideia de mudança de regime só com bombardeios aéreos, sem soldados no terreno -Trump já afirmou que não pretende enviar tropas.

A população dentro do país recebe informações escassas, uma vez que a internet foi bloqueada e até os acessos por meio de Starlink estão com instabilidade, segundo pessoas contatadas pela Folha dentro do país.

Em Teerã, vivem atualmente cem cidadãos brasileiros, e outros cem no resto do país. A maioria são mulheres que se casaram com iranianos.

T LB

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