Domingo, 07/06/26

Bets pedem que governo aperte cerco contra distribuição clandestina do ‘jogo do tigrinho’

Suspeitos de lavar dinheiro para MC Ryan em esquema ligado ao PCC eram parceiros de ‘bets gigantes’
Suspeitos de lavar dinheiro para MC Ryan em esquema ligado – Reprodução

As bets licenciadas cobram do governo maior fiscalização e regras rígidas sobre o fornecimento de caça-níqueis eletrônicos, como o Fortune Tiger (conhecido como “jogo do tigrinho”), para sites clandestinos. A expectativa do Ministério da Fazenda é que a regulamentação para esse elo da cadeia seja publicada ainda este ano.

O posicionamento vem em uma semana na qual a sociedade civil se organizou para alertar contra riscos de “vício, sofrimento e dívidas” associados ao jogo do tigrinho. A campanha “Block no Tigrinho” reuniu desde a última terça (2) artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil e Anitta.

Embora a exploração de cassinos digitais tenha sido autorizada no fim de 2023, o funcionamento legalizado exige que as empresas passem por um processo de licenciamento. Isso inclui a verificação de antecedentes criminais dos controladores e o pagamento de outorga de R$ 30 milhões. Fora desse sistema, a oferta de apostas é ilegal e costuma estar atrelada a crimes financeiros, como a lavagem de dinheiro.

O objetivo de fechar o cerco contra os fornecedores é sufocar a operação das plataformas clandestinas.

As bets operam em uma cadeia altamente terceirizada: enquanto o operador cuida da marca e do ambiente comercial, outras empresas fornecem os softwares de caça-níqueis, os prognósticos esportivos e os sistemas de processamento de pagamentos.

Hoje, a fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada à Fazenda, concentra-se nos operadores. Paralelamente, o Banco Central começou a mapear e supervisionar as instituições de pagamento que prestam serviços para o mercado ilegal.

O segmento de cassinos online responde por 60% do faturamento das casas de aposta no país, segundo dados da consultoria H2 Gambling Capital. Entre as plataformas ilegais, essa fatia chega a 72% de um mercado que movimentou R$ 14 bilhões em 2025. Jogos populares como “tigrinho”, “velho do raio” e Aviator centralizam o volume de negócios.

A operação da Polícia Civil de São Paulo, Falsa Las Vegas, deu um exemplo de como funciona: o site clandestino Black Vegas, que foi alvo das autoridades, ficava no exterior e oferecia, ao mesmo tempo, jogo do tigrinho e jogo do bicho. Seu dono é suspeito de ligação com o PCC.

Segundo o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa o setor regulado, os sites clandestinos funcionam fora do Brasil, geram pouca atividade econômica interna, não recolhem impostos e evitam a taxa de licença federal de R$ 30 milhões.

“Não faz sentido o governo ir atrás apenas dos operadores, exigindo o cumprimento de regras estritas de quem está legalizado, enquanto o fornecedor dos jogos presta serviços de forma irresponsável para o mercado clandestino”, afirma André Guelfi, presidente do IBJR e CEO da Betsson no Brasil.

A Secretaria de Prêmios e Apostas diz que realizou uma consulta pública para coletar sugestões da sociedade civil, de operadoras e de entidades do setor sobre a regulamentação dos fornecedores. Uma audiência pública para debater o tema está agendada para o próximo dia 25. Até o momento, a legislação exige apenas que os desenvolvedores de jogos tenham certificados de auditorias independentes que comprovem a adequação às normas brasileiras.

O pleito do setor é que as punições aplicadas aos fornecedores irregulares sejam equivalentes às das casas de apostas. A legislação prescreve advertências, suspensão, cassação de licença e multas de até R$ 2 milhões para os operadores que violarem as regras.

A empresa maltesa PG Soft, que desenvolveu o jogo do tigrinho, não responde a tentativas de contato via email desde o dia 1º de junho.

A SoftSwiss, provedora certificada que fornece plataformas de cassino e apostas esportivas, afirma que verifica as licenças dos clientes antes de fechar contratos. De acordo com Carla Duailib, gerente regional da empresa para a América Latina, a companhia detém 80% do mercado de fornecimento para bets lícitas no país.

“Se fechamos com um operador, precisamos ter certeza de que ele está regularizado. É uma postura fundamental para a reputação da companhia”, diz Duailib.

O cenário regulatório brasileiro também gera incertezas. Além das licenças federais da Fazenda, estados como Rio de Janeiro, Paraná e Paraíba criaram regras próprias de licenciamento. No âmbito municipal, cidades como Bodó (RN) chegaram a vender autorizações a partir de R$ 5.000 No entanto, o STF (Supremo Tribunal Federal) proibiu as licenças municipais em dezembro de 2025, tornando clandestinos os operadores que dependiam exclusivamente delas.

“O contexto mudou de forma drástica com a decisão do STF. Desde então, as abordagens de empresas de âmbito municipal ou estadual diminuíram consideravelmente”, diz Duailib.

Em nota, o Ministério da Fazenda informou que atua em várias frentes para combater o mercado ilegal. Em parceria com a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), mais de 45 mil sites irregulares foram bloqueados.

Na vertente financeira, a Secretaria de Prêmios e Apostas identificou 2.007 contas bancárias suspeitas de ligação com jogos ilegais, das quais 873 foram encerradas pelo Banco Central.

A lei complementar 224, aprovada em 2025, estabeleceu que provedores de tecnologia e intermediários financeiros têm responsabilidade solidária no recolhimento dos tributos da atividade de apostas.

No monitoramento da publicidade irregular, o governo concluiu 712 processos de fiscalização contra influenciadores digitais, resultando na remoção de 682 perfis e 290 publicações em plataformas digitais, em cooperação com o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) e com o Conselho Digital do Brasil.

T LB

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