Crescimento do Financiamento para IA Gera Cautela no Mercado de Dívida Corporativa
Uma vasta oferta de empréstimos no setor de tecnologia, juntamente com indícios de instabilidade no crédito privado, está gerando apreensão entre investidores do mercado de títulos corporativos. Essa preocupação se estende até mesmo às empresas com as melhores avaliações globais.
Tal tendência poderá aumentar os custos de financiamento, impactar os resultados empresariais e intensificar a tensão nos voláteis mercados internacionais.
Impacto do Investimento em Inteligência Artificial
Os mercados globais registraram uma queda de 3% neste mês. Essa retração foi impulsionada pela preocupação com o *aparente excesso de investimento em inteligência artificial* e pelas possíveis implicações dos dados econômicos atrasados dos EUA na política monetária. A aversão ao risco afetou desde o bitcoin até o ouro, mas os títulos com grau de investimento permaneceram estáveis. Estes títulos continuam a oferecer aos tomadores de empréstimos os custos de financiamento mais acessíveis em décadas.
Contudo, investidores que gerenciam mais de US$10 trilhões em ativos combinados manifestaram preocupação com o valor da dívida. Eles estão diminuindo a exposição a títulos com a classificação mais alta. Alguns inclusive venderam ou começaram a apostar ativamente contra essa classe de ativos.
Alertas e Posturas Cautelosas
No mês passado, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, alertou sobre o surgimento de “baratas” nos mercados de crédito. Em resposta, as gigantes da tecnologia começaram a buscar empréstimos vultosos. O objetivo é o financiamento para IA, visando a construção de centros de dados de inteligência artificial, uma tendência que eleva a capitalização de empresas no setor.
A gestora de ativos alternativos Blue Owl gerou apreensão no mercado de crédito privado de US$3 trilhões. Isso ocorreu ao impor restrições às retiradas de fundos.
Brian Kloss, gerente de portfólio da Brandywine Global na Filadélfia, uma unidade da Franklin Templeton que gerencia US$1,2 trilhão em ativos, afirmou: “Há medo nos mercados e todos estão procurando a próxima pedra no sapato”. A gestora adota uma postura cautelosa em relação ao crédito.
Dinâmica dos Custos de Empréstimos e o Cenário de Hedge
Um índice ICE-BofA, que monitora os custos de empréstimo de empresas americanas de alta classificação em comparação com os governos, é negociado 10 pontos-base (bps) acima das mínimas de 27 anos, atingindo 74 bps. Na Europa, o spread equivalente está em torno de 84, ligeiramente acima dos 75 registrados em outubro.
Salman Ahmed, chefe global de macro e alocação estratégica de ativos da Fidelity International, mantinha uma posição vendida em dívidas de empresas com grau de investimento. Ele justificou essa postura devido aos preços elevados e ao potencial de uma “explosão” em caso de desaceleração econômica. Ahmed acrescentou que, como os preços ainda estão sujeitos a quedas significativas, o crédito de empresas com grau de investimento se mostra a opção com melhor custo-benefício. Isso se aplica a estratégias de hedge que trarão retorno em um cenário de desaceleração econômica prolongada.
Ciclo de Feedback e Perspectivas para o Financiamento para IA
Impacto nos Custos de Financiamento Corporativo
Os spreads de crédito representam um indicador crucial para o crescimento econômico e o desempenho do mercado de ações. Isso se deve ao fato de que os custos de financiamento impactam diretamente os lucros das empresas, os preços das ações e os planos de expansão.
John Stopford, chefe de renda de múltiplos ativos da gestora Ninety One, comentou: “Há um ciclo de feedback”. Ele também mencionou que havia zerado a exposição de seus fundos a crédito nas últimas semanas.
Stopford explicou que as taxas de juros de títulos recém-emitidos tenderão a ficar mais caras. Isso ocorrerá se houver uma drenagem de capital dos fundos de crédito privado, ao mesmo tempo em que a oferta de empréstimos para IA cresce. Ele detalhou: “Se o custo do empréstimo aumentar no crédito privado e houver muitas novas emissões, os tomadores de empréstimos terão de pagar mais”. Ele concluiu que “se for mais caro para as empresas tomarem empréstimos, elas ganharão menos dinheiro”.
Emissão de Dívida e Escrutínio Regulatório
Entre setembro e outubro, US$75 bilhões em dívidas com grau de investimento foram emitidas no mercado dos EUA por grandes empresas de tecnologia focadas em IA. Consequentemente, o custo dos swaps de inadimplência de crédito de cinco anos, que protegem contra o calote da Oracle, subiu 44% em um mês, alcançando 87 bps, conforme dados da Refinitiv.
Paralelamente, investidores passaram a se distanciar de fundos de dívida privada. Essa movimentação ocorreu à medida que os padrões de empréstimo desses fundos foram submetidos a um escrutínio mais rigoroso dos órgãos reguladores.
Dados Econômicos e Cautela dos Investidores
David Furey, chefe de estratégia de portfólio de renda fixa da State Street Investment Management, a quarta maior gestora de ativos do mundo, afirmou que a empresa investia em crédito corporativo naquele momento. Contudo, ela se mantinha “atenta” aos sinais de enfraquecimento econômico nos EUA. Ele alertou que o preço do crédito de grau de investimento oferecia “muito pouco amortecimento embutido” contra uma possível deterioração econômica.
Jonathan Manning, gerente de portfólio de crédito da Amundi, a maior gestora de ativos da Europa, declarou que também está “procurando aliviar um pouco” o crédito de grau de investimento. Os motivos incluem os preços elevados e a possibilidade de que dados atrasados dos EUA, como o relatório de empregos de setembro divulgado nesta quinta-feira, possam aumentar a volatilidade em um mercado que tem demonstrado calma durante as vendas até agora.
Clientes da Russell Investments, que presta assessoria a instituições com mais de US$900 bilhões em gestão, demonstravam cada vez mais cautela em relação ao crédito para empresas com grau de investimento.
Van Luu, chefe global de renda fixa e soluções de câmbio da Russell, explicou: “Não é tanto que essa seja a classe de ativos com a qual eles estão mais preocupados. É a classe de ativos que ficou muito cara, de modo que a vantagem não está mais lá.” Para mais informações sobre tendências de mercado e tecnologia, veja Reuters Markets.
Por Correio de Santa Maria, com informações de Reuters.








