A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez na história, segundo economistas ouvidos pela Agência Brasil. Entre os fatores apontados para o avanço estão a redução de impostos para os ricos, a inflação causada pela guerra no Oriente Médio, que pressionou os combustíveis, e as tarifas à importação adotadas no governo de Donald Trump.
Os especialistas também citam a manutenção dos gastos militares em patamar elevado, próximo de US$ 1 trilhão, e o aumento das despesas com juros, que chegaram a US$ 1,1 trilhão, mais que o dobro dos US$ 419 bilhões registrados em 2021. Em cinco meses, a dívida cresceu US$ 1 trilhão e alcançou o patamar que o Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO) previa apenas para 2027.
Apesar do volume recorde, os economistas rejeitam a ideia de insolvência imediata. Para o professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, do Instituto de Economia da Unicamp, os Estados Unidos emitem a própria moeda e têm o dólar como principal reserva monetária do planeta, o que reduz o risco de calote. Pedro Faria, economista e doutor em história, afirmou que o valor absoluto da dívida, sozinho, não diz muito sobre a capacidade de pagamento do país.
Bastos avaliou que o principal risco hoje está nos juros longos mais altos, associados à inflação e ao chamado “risco Trump”, expressão usada pelos entrevistados para se referir à política agressiva da Casa Branca. Segundo ele, o mercado cobra mais pelos títulos do Tesouro americano em meio às incertezas geradas por tarifas e por ataques aos pilares de confiança nesses papéis, como um Fed autônomo e tribunais independentes. Os títulos de 30 anos dos EUA alcançaram 5,33% em 18 de agosto, o maior nível desde 2007.
O professor disse ainda que os estrangeiros continuam comprando títulos americanos, mas a alta se concentra no preço cobrado. Ele mencionou que dois terços da dívida em mercado estão em mãos domésticas nos EUA e que US$ 4,5 trilhões estão no próprio Fed, enquanto US$ 8 trilhões da dívida estão nas mãos do governo. Já Faria destacou que governos, Estados e empresas em várias partes do mundo vêm reduzindo o uso de títulos dos EUA como opção de liquidez, citando Brasil e China.
Os economistas também associam parte do aumento do endividamento à política de corte de impostos para os ricos adotada nos dois mandatos de Trump. Faria lembrou que, em 2025, o governo aprovou um projeto com novos cortes para esse grupo, elevando a previsão do déficit em US$ 4,7 trilhões em 10 anos, ao mesmo tempo em que reduziu em US$ 1 trilhão os gastos com saúde pública no período. Bastos acrescentou que a menor tributação dos mais ricos contribui para concentrar renda e que a dívida recorde reflete, em parte, esse conflito distributivo dentro do país.
A Secretaria do Tesouro dos EUA informou, após o anúncio da dívida recorde, que vai dobrar de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões, a partir de 9 de setembro, as operações para compra de títulos no mercado. Para Bastos, a alta dos juros da dívida não decorre do tamanho do endividamento em si, mas da inflação e da perda de confiança provocada pela política econômica do governo Trump.








